“Conhecedor desses sertões que conviveu muito com esses selvagens” — assim Maciel descreve Pedro de Souza Benevides ao narrar como recorreu a ele para contactar os Kadiwéu em 1899 (CM-0051, p. 9). Benevides tinha um estabelecimento chamado “Porto de Salvação” na localidade do Tigre, à margem do córrego Mutuca (Niutaca), dentro da área que seria demarcada como território Kadiwéu. Foi expulso do local “por ordens do Coronel Malheiros” (CM-0049, p. 1), provavelmente durante as hostilidades de 1896-1898. Após a expulsão, continuou sendo intermediário dos Kadiwéu: foi enviado por eles a Miranda e depois ao Rio de Janeiro para pedir proteção ao Governo Central (CM-0051, p. 10). Em 1899, guiou Maciel ao território e enviou seus próprios filhos como mensageiros à aldeia para convocar o povo para a demarcação.
Benevides tinha um estabelecimento denominado “Porto de Salvação” no Tigre, à margem do Mutuca (CM-0051, p. 10). O memorial de Maciel (CM-0049, p. 1) registra que o Tigre era a “antiga habitação de Benevides, dali expulso por ordens do Coronel Malheiros”. Quando a aldeia de Malique foi incendiada pelos capatazes de Malheiros em 1896, os Kadiwéu se refugiaram precisamente no estabelecimento de Benevides no Tigre (CM-0051, p. 10) — relação de aliança que explica por que Malheiros também expulsou Benevides.
Após as hostilidades escalarem — e diante da conivência do Estado de Mato Grosso com Malheiros —, os Kadiwéu “despacharam Benovidas a pedir providencias em Miranda e nada obtendo dali, o enviaram de novo ao Rio para representá-los perante o Governo Central e pedir-lhe protecção” (CM-0051, p. 10). Benevides foi, portanto, o porta-voz diplomático do povo Kadiwéu em sua crise mais aguda do final do século XIX.
Quando Maciel chegou a Corumbá em novembro de 1899, consultou Mariano Rostey e outros e foi apresentado a Benevides, “conhecedor desses sertões que conviveu muito com esses selvagens”. Benevides “assegurou-se conduzir-me aquelle resultado, enviando a aldeia seus dois filhos menores” como mensageiros para convocar os Kadiwéu. Acompanhou a comissão demarcadora como “pratico” (guia/expert local) (CM-0051, p. 9).
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0049 |
1900-02-23 | p. 1 | estabelecimento no Tigre; expulsão por Malheiros (como “Benevides”) | análise |
CM-0051 |
1931-03-06 | p. 9, 10 | guia de Maciel; intermediário diplomático dos Kadiwéu; Porto de Salvação Benavidas | análise |
CM-0054 |
1925-05-22 | p. 1 | auto-correção “menores, digo, maiores” — filhos eram adultos jovens (resolve discrepância CM-0051/CM-0052) | análise |
CM-0049 - 0001_f.txt e CM-0049 - 0002_f.txt (2 páginas) — MACIEL, José de Barros. Memorial descritivo da medição das terras concedidas em usufruto aos índios Cadiuéos. Cuiabá, 1900-02-23. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0051_pagina_001.md a CM-0051_pagina_014.md (14 páginas, transcrição limpa) — N. BARBOSA. Memorial ao Interventor Federal. Guazará, 1931-03-06. [Com cópia certificada do memorial de Maciel]. Acervo Cildo F. S. Meireles.