Data22/05/1925
Autor(a)MACIEL, José de Barros (autos originais); LISBOA, Miguel Maria (certificação de 1925)
TipologiaCópia certificada de autos de medição e demarcação

1. Sumário do documento

Cópia certificada dos autos de medição e demarcação das terras Kadiwéu (373.024 ha), autenticada em 22 de maio de 1925 por Miguel Maria Lisboa — a mesma cópia que constitui o Doc. Nº 2 de CM-0051, aqui preservada separadamente com carimbo “JPIA” (p. 1, 9).

2. Análise e descrição do documento

CM-0052 e o Doc. Nº 2 de CM-0051 são fisicamente o mesmo documento (mesma data de certificação, mesmo certificador, mesmo texto), mas transcritos com variantes textuais que provavelmente refletem leituras distintas do mesmo original degradado ou distintas versões do mesmo processo de cópia. O documento começa com a capa “TERRAS DOS INDIOS CADIÚEOS” e o carimbo “J P I A” (p. 1) — sigla não identificada que indica uma classificação institucional.

O texto da narrativa de campo de Maciel (pp. 1-6) apresenta variantes relevantes em relação à transcrição de CM-0051. A mais crítica: onde CM-0051 (p. 8) diz que os Kadiwéu “se bateram a ultima vez contra o Coronel Pinheiros”, CM-0052 (p. 1) diz que se “bateram a ultima vez com gente do Coronel Malheiros”. Dado que toda a narrativa subsequente documenta a violência de Malheiros contra os Kadiwéu (queima de Malique, ataques ao Tigre), a versão de CM-0052 é mais coerente com o contexto geral.

CM-0052 também corrige a aritmética da população Kadiwéu em 1899: 200 homens de armas e 300 mulheres e crianças = quinhentos índios (p. 4) — soma internamente consistente, ao contrário dos “quatrocentos” de CM-0051 com os mesmos componentes (200+300=500, não 400). A versão de CM-0052 é, neste ponto, mais confiável.

A separação entre o Capitãozinho e “Nanilla” como dois indivíduos distintos (p. 4) — onde CM-0051 os tratava como um só — é outra variante significativa. O survey confirma “Bahia e morrinho de Nanila” como topônimo do Nabileque (p. 7), e p. 3 menciona o “morrinho denominado Manilla onde outrora morreu o Capitão do mesmo nome” — histórico de uma liderança Kadiwéu anterior. A questão permanece: “Nanilla” é o nome do atual Capitãozinho ou uma segunda liderança?

As tabelas de rumos e distâncias (pp. 6-9) confirmam e complementam as de CM-0051, com pequenas diferenças numéricas em algumas distâncias — reflexo de leituras distintas do mesmo original.

Destaque para a enumeração mais completa das posses fraudulentas de Malheiros na área Kadiwéu (p. 4-5):
– São João — registrado pela lei de 1892; abandonado
– Aquidauana — “antigo retiro do Coronel Malheiros, registrada em virtude da lei de 1892”; abandonado
– Chat-Lodo (Xatelodo) — “outra posse do Coronel Malheiros”; nunca habitado
– Acorizal — registrado por Malheiros, localização incerta (“dizem que está sobre o Aquidauana”)

Estes quatro registros fraudulentos formam um padrão sistemático de apropriação de terras pelo mesmo agente dentro da área Kadiwéu.

3. Análise por entidade

José de Barros Maciel — autor dos autos originais (1900)

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “Cuiabá, vinte e quatro de Março de mil novecentos. Com grande satisfação venho dar-vos conhecimento do resultado”
  • p. 6: “No dia dezesseis de Dezembro de mil oitocentos e noventa e nove, na cabeceira do corrego Niutaca, na Serra de *abodoquena [Nabodoquena], dei começo a presente medição”
  • p. 9: “José de Barros Maciel.” [assinatura]
  • fatos detectados: autos iniciados em 16 dez 1899; assinou Cuiabá 23 fev 1900; relata expedição desde Corumbá ao Nabileque em novembro-janeiro 1899-1900

Adriano Metello — Inspetor do SPI; requereu certidão

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “Adriano Metello, Inspetor do Serviço de Proteção aos Indios neste Estado, vem requerer mandeis lhe dar por certidão a copia verbo adverbun dos autos de medição e demarcação das terras reservadas para os indios Cadiuéos no Municipio de Corumbá e a copia authentica da planta da mesma medição feita no ano de 1900. Cuiabá 28 de Fevereiro de 1919.”
  • fatos detectados: requerimento confirmado em texto mais limpo que CM-0051; data 28 fev 1919; cargo “Inspetor”

Coronel Malheiros — antagonista; posses fraudulentas no território

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “aquelles selvagens desde que se bateram a ultima vez com gente do Coronel Malheiros tinham-se internado nas matas de Nabodoquena”
  • p. 2: “em busca de Barranco Branco, onde devia conferenciar com o Coronel Malheiros, confrontante dos terrenos a demarcar” — [ATENÇÃO: CM-0051 identificava este confrontante como “Coronel Pinheiros”; CM-0052 diz “Coronel Malheiros”]
  • p. 4: “foi incendiada e destruida em Maio de mil oitocentos e noventa e seis pelos capatazes do Coronel Malheiros.”
  • p. 4: “o Aquidauana, antigo retiro do Coronel Malheiros, registrada em virtude da lei de mil oitocentos noventa e dois; tem apenas um ranchinho e está abandonado.”
  • p. 5: “outra posse do Coronel Malheiros” [Chat-Lodo]
  • p. 5: “O acorizal que Malheiros registrou não pude encontrar e dizem que está sobre o Aquidauana.”
  • p. 3: “foi registrado por Malheiros em virtude da lei numero vinte de mil oitocentos e noventa e dois” [São João]
  • fatos detectados (novos vs CM-0049/CM-0051):
  • Malheiros é o “confrontante dos terrenos a demarcar” — antes (CM-0051) era identificado como “Coronel Pinheiros”; CM-0052 aponta Malheiros nesse papel, discrepância a pesquisar
  • Malique destruída em Maio de 1896 (mês específico — novo dado)
  • Quatro posses registradas dentro do território Kadiwéu: São João, Aquidauana (retiro), Chat-Lodo, acorizal

Capitãozinho e Nanilla — lideranças Kadiwéu em 1899

  • trechos extraídos:
  • p. 4: “O Capitaozinho, chefe da tribu, e Nanilla afirmaram-me que sempre protestaram contra aquella occupação por Cardozo e mais tarde por seu genro João Lopes, porque ali é a sua passagem para irem a Coimbra, e onde tem cemiterio atraz do morro grande.”
  • p. 3: “morrinho denominado Manilla onde outrora morreu o Capitão do mesmo nome” [morrinho no Nabileque; “Capitão Manilla” morreu ali em tempo anterior]
  • p. 7, tabela: “Bahia e morrinho de Nanila” [ponto no Nabileque — topônimo geográfico]
  • fatos detectados: CM-0052 apresenta dois indivíduos distintos em 1899: o Capitãozinho (chefe da tribo, sem nome dado) e Nanilla (segunda liderança ou elder). O morrinho “Manilla” no Nabileque foi nomeado em memória de um “Capitão” histórico. “Nanilla” / “Manilla” / “Mamila” são variantes da mesma raiz nominal — mas se referem à mesma pessoa ou à mesma linhagem de chefes é incerto

Pedro de Souza Benevides — guia; aliado dos Kadiwéu

  • trechos extraídos:
  • p. 2: “foi-me presente o cidadão Pedro de Souza Benevides, conhecedor desses sertões que convivu muito com esses selvagens, o qual assegurou-me conduzir-me aquele resultado, enviando a aldeia seus dois filhos maiores.”
  • p. 4: “os Cadiúcos foram-se alojar no Tigre, estabelecimento de Pedro de Souza Benevides, a margem do Nútaca.”
  • p. 4: “os Cadiúeos despacharam Benevides a pedir providencias em Miranda e nada obtendo dali, o enviaram de novo ao Rio para representa-los perante o Governo Federal”
  • fatos detectados: “filhos maiores” (não “menores” como CM-0051) — variante textual; nome e papel confirmados

José de Siqueira Braga — “maquinista reformado da Armada”

  • trechos extraídos:
  • p. 3: “fundado pelo portuguez José de Siqueira Braga, maquinista reformado da Armada”
  • p. 3: “ali mantem uma fazenda de criação com mais de mil cabeças de gado, alem dos animais cavalaes”
  • fatos detectados: “maquinista reformado da Armada” — cargo naval distinto de “naufirante” (CM-0051); CM-0052 é provavelmente mais fiel ao original neste ponto; pediu legitimação do Sítio S. António a Maciel; Maciel reconheceu a pretensão como justa mas remeteu ao Presidente do Estado

Emilio Bivasseau — agrimensor

  • trechos extraídos:
  • p. 3: “nomeasse o agrimensor Emilio Bivasseau para fazer a sua medição.”
  • fatos detectados: sobrenome completo — Bivasseau; agrimensor indicado por Siqueira Braga para medir o Sítio S. António; não identificado além desta menção

Joanini Galachi — posseiro no Jacadigo

  • trechos extraídos:
  • p. 5: “O cidadão Joanini Galachi apresentou-me um registro de posse dentro daquela area, porem nem ele nem o suposto posseiro ali não residem e nem possuem qualquer requisitivos legaes.”
  • fatos detectados: apresentou a Maciel um registro de posse dentro da área de Jacadigo; não residia nem o suposto posseiro que representava; Maciel indeferiria qualquer pretensão sobre a campanha

Kadiwéu — povo demarcado; 500 pessoas em 1899

  • trechos extraídos:
  • p. 4: “Existem na aldeia quinhentos indios, sendo duzentos homens de armas e trezentos mulheres e crianças.” [500 = 200+300 — aritmética correta]
  • p. 4: “Entricheiraram e sendo atacados mais tarde, rechaçaram a gente de Malheiros em numero de secenta e os perseguiram até longe.”
  • p. 5: “Chat-Lodo é o lugar onde vão os Cadiueos fazer farinha de bacaiuva, a que chamam mecaia libeli, e que se dá em certa estação do ano.”
  • p. 8: “No Chat-Lodo vimos um grande marco que os Cadiueos fincaram em 1896 para demarcar os seus campos”
  • fatos detectados:
  • 500 pessoas em 1899 (CM-0052, aritmeticamente consistente)
  • No Tigre: os Kadiwéu se entrincheiraram e rechaçaram 60 homens de Malheiros e os perseguiram — detalhe de resistência ativa
  • No Chat-Lodo fazem farinha de bacaiuva, que chamam “mecaia libeli” — nome em língua Kadiwéu (variante de “mocuiabôle” em CM-0051)
  • Aldeia Nova próxima à “fralda da Serra de Nabodoquena”
  • Destruição de Malique datada em Maio de 1896 (novo dado específico)

Nabileque — braço do Paraguai; morrinho de Nanila

  • trechos extraídos:
  • p. 3: “O Canal chamado Nabileque sai defronte do morro do Puga, um tanto estreito, alarga-se mais tarde, recebe varios outros tributarios e entra de novo no Paraguay duas leguas acima do rio Branco.”
  • p. 7, tabela: “Bahia e morrinho de Nanila” [ponto geográfico no Nabileque]
  • p. 8: “Barra do Nabileque no Paraguai”
  • fatos detectados: “Canal chamado Nabileque sai defronte do morro do Puga” — localização mais precisa do início do Nabileque; recebe afluentes, entra no Paraguay 2 léguas acima do “rio Branco”; o morrinho de Nanila é um ponto geográfico no Nabileque (topônimo confirmado no survey)

Xatelodo (“Chat-Lodo”) — posse de Malheiros; farinha de bacaiuva

  • trechos extraídos:
  • p. 4-5: “Mais abaixo está o Chat-Lodo, outra posse do Coronel Malheiros, porem a excepção de um ranchinho Nanilla [sic], nenhum outro vestigio apresenta de habitação humana.”
  • p. 5: “Chat-Lodo é o lugar onde vão os Cadiueos fazer farinha de bacaiuva, a que chamam mecaia libeli”
  • p. 8: “Tomamos depois o rumo 75º N.E. e medimos ate o Chat-Lodo 16.000 metros.”
  • fatos detectados: “Chat-Lodo” = Xatelodo; posse registrada de Malheiros mas desocupada; os Kadiwéu o usam sazonalmente para produzir “mecaia libeli” (farinha de bacaiuva); “ranchinho Nanilla” — texto parcialmente ilegível (possivelmente “um ranchinho [vazio,] nenhum outro…”)

Aldeia Malique / Nalique — destruída em maio de 1896

  • trechos extraídos:
  • p. 4: “Fui a antiga aldeia de Nalique construido em uma colina, cercado de morretes; foi incendiada e destruida em Maio de mil oitocentos e noventa e seis pelos capatazes do Coronel Malheiros. Teria cento e tantas casas, todas em linha”
  • fatos detectados: nome “Nalique” (variante de “Malique”); destruída em Maio de 1896 (mês específico); tinha “cento e tantas casas” (muito mais que “cinco e tantas” de CM-0051 — discrepância de escala entre as cópias)

Destruição da aldeia Malique (1896) — detalhes adicionais

  • trechos extraídos:
  • p. 4: “Entricheiraram e sendo atacados mais tarde, rechaçaram a gente de Malheiros em numero de secenta e os perseguiram até longe.”
  • fatos detectados: após refugiarem-se no Tigre, os Kadiwéu se entrincheiraram e rechaçaram 60 homens de Malheiros, perseguindo-os — resistência ativa documentada; CM-0051 tinha descrito o episódio de forma passiva

4. Citações ambíguas / não atribuídas

  • p. 2: “Coronel Malheiros, confrontante dos terrenos a demarcar” — CM-0051 (p. 8) identifica o confrontante como “Coronel Pinheiros”. CM-0052 aponta Malheiros. São transcripcões diferentes do mesmo texto físico. Dado o contexto global (Malheiros era o agressor documentado dos Kadiwéu e registrou posses no território), “Malheiros” como confrontante é mais coerente. Precisa verificação no original.
  • p. 4: “ranchinho Nanilla” (p. 5, Chat-Lodo) — texto possivelmente corrompido; “Nanilla” pode ser um OC de palavra diferente ou indicar que havia um ranchinho com esse nome.
  • p. 5: “irmãos Barraca” — mencionados como moradores da area de Jacadigo; não identificados além desta referência.
  • p. 3: “morrinho denominado Manilla onde outrora morreu o Capitão do mesmo nome” — “Capitão Manilla” histórico; relação exata com o atual “Capitãozinho” e “Nanilla” é ambígua.
  • p. 1: Carimbo “J P I A” — sigla não identificada; institiição ou classificação de arquivo.

5. Notas de continuidade (multi-página)

  • pp. 1-3: capa + requerimento de Adriano Metello + início da narrativa de Maciel (chegada a Corumbá, Benevides, expedição)
  • pp. 3-5: narrativa de reconhecimento (Manilla morrinho, Santo António, Santa Cecília, São João, Nalique/Malique, Tigre, Aldeia Nova, Chat-Lodo, Jacadigo)
  • p. 6: final da narrativa + início da tabela de rumos do Nabileque
  • pp. 7-8: tabela de rumos do Nabileque + rumos do Paraguai + rumos do Aquidauana
  • p. 9: final do Aquidauana; limites; assinaturas de Maciel, Joseti, Barros; certificação de 1919 (Antonio Pereira da Silva); certificação de 1925 (Miguel Maria Lisboa)

6. Notas do extractor

  • Releituras: 3 passagens integrais (P1, P2, P3) via MD.
  • MD como fonte primária: TXTs com OCR degradado. Flag ocr_consultado_md p. 1-9.
  • CM-0052 = Doc. Nº 2 de CM-0051: Mesma data de certificação (22 mai 1925), mesmo certificador (Miguel Maria Lisboa). Provavelmente o mesmo documento físico ou cópia imediata do mesmo original — preservado separadamente no acervo.
  • Discrepância Malheiros/Pinheiros: Esta é a discrepância mais significativa entre os documentos Kadiwéu. CM-0052 (p. 1-2) diz “Coronel Malheiros” como adversário e confrontante; CM-0051 (p. 8) diz “Coronel Pinheiros”. Toda a documentação circunstante aponta Malheiros como o agressor principal. CM-0052 é provavelmente mais fiel.
  • “cento e tantas casas” (CM-0052, p. 4) vs “cinco e tantas casas” (CM-0051, p. 10) para Malique — diferença de um dígito por OCR; “cento e tantas” é mais consistente com uma aldeia de 500 pessoas.
  • “mecaia libeli” (CM-0052) vs “mocuiabôle” (CM-0051) — dois nomes Kadiwéu para farinha de bacaiuva; variantes de transcrição ou duas produções distintas.
  • Joseti: “3 de Agosto” (p. 9) — confirma CM-0049 e corrige “5 de agosto” de CM-0051 p. 14.
  • “filhos maiores” vs “filhos menores”: mais uma discrepância de transcrição; o contexto (dois rapazes enviados como mensageiros) sugere que eram jovens adultos (“maiores” = mais velhos), o que é coerente com “filhos maiores”.