Nascimento10/08/1823
Morte03/11/1864
Nacionalidadebrasileira

Resumo

Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) foi poeta lírico do Romantismo brasileiro, nascido em Caxias, Maranhão. Sua obra indianista — notadamente “I-Juca Pirama” e “Os Timbiras” — o consagrou como um dos principais poetas da literatura brasileira do século XIX. No contexto do corpus, é evocado pelo governador Newton de Barros Bello como autoridade literária e moral para um apelo em defesa dos indígenas maranhenses em 1964, ano do centenário de sua morte (CM-0036, p. 1, linha 66).

O governador o chama de “Cantor dos Timbiras”, “Poeta da Raça” e “maior poeta lírico das Américas” — e descreve 1964 como “neste ano votado ao Poeta da Raça” (CM-0036, p. 1, linha 40, 66). A evocação do poeta serve como âncora retórica para a denúncia da violência contra indígenas cem anos depois de sua morte.

Três anos antes, em carta de 7 de abril de 1961 sobre a Craolândia, o autor invocara Gonçalves Dias no panteão dos defensores históricos dos indígenas: a causa indígena foi “defendida com tanto ardor por TEIXEIRA MENDES, GONÇALVES DIAS, COUTO MAGALHÃES…” (CM-0037, p. 4). A menção insere o poeta no rol dos “paladinos” — ao lado de pensadores positivistas e indigenistas do Império — como referência moral para a defesa dos povos indígenas ainda no século XX. O gesto retórico é o mesmo empregado por Newton de Barros Bello em 1964: ancorar a política indigenista contemporânea na autoridade literária e histórica de figuras do século XIX.

Trajetória

Obra indianista

Gonçalves Dias é definido na declaração como “o apaixonado apologista das virtudes do nosso índio, cujos sofrimentos e cujo heroísmo celebrou em versos imortais, jóias caríssimas da literatura pátria” (CM-0036, p. 1, linha 67-68). A referência mobiliza o repertório do indianismo romântico — que idealizou o indígena como herói nacional — para fundamentar uma denúncia contemporânea de violência.

O poema “Os Timbiras” (1857, inacabado) é evocado pelo epíteto “Cantor dos Timbiras”, que remete ao povo indígena maranhense homônimo. “I-Juca Pirama”, seu poema indianista mais conhecido (publicado em 1851 nos Últimos Cantos), tematiza precisamente o heroísmo e o sofrimento indígena que Bello invoca (CM-0036, p. 1, linha 67-68).

Atuação principal

Bello articula a obra de Gonçalves Dias à tese de que a história nacional “não se escreveria sem o ingente papel representado pelo aborígene na sua formação e no seu desenvolvimento” (CM-0036, p. 1, linha 47). O poeta é apresentado como a voz literária que conferiu “glória suprema que reside na imortalidade” à “figura humana do índio maranhense” (CM-0036, p. 1, linha 40).

O governador atribui à obra de Gonçalves Dias duas funções na memória nacional: “têm sido, também, o doce enlêvo de sucessivas gerações” — prazer estético — e simultaneamente fundamento de uma consciência histórica sobre a dívida nacional com os povos indígenas. O centenário de sua morte, comemorado em 1964, serve como ocasião cívica para esse duplo apelo (CM-0036, p. 1, linha 40).

Páginas relacionadas

A pesquisar
  • Conexão entre a obra de Gonçalves Dias e a política indigenista do SPI — o indianismo romântico influenciou a retórica oficial de proteção aos índios?
  • Referências a Gonçalves Dias em outros documentos do corpus — há menções em relatórios do SPI, discursos de Rondon ou textos de outros indigenistas?
  • A comemoração do centenário de 1964 gerou outras manifestações oficiais ou publicações sobre a questão indígena no Maranhão.

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0036 1964-08-11 p. 1 homenageado — centenário de morte evocado como motivo da declaração análise
CM-0037 1961-04-07 p. 4 citado no panteão dos defensores históricos dos indígenas análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0036 - 0001_f.txt — BELLO, Newton de Barros. “Dê-se ao índio o tratamento que ele merece” [título inferido]. São Luís, 1964-08-11. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0037 - 0001_f.txt a CM-0037 - 0004_f.txt (4 páginas) — [s.a.]. Carta ao Diretor do SPI sobre a situação da Craolândia. Brasília, 1961-04-07. Acervo Cildo F. S. Meireles.