Resumo

Família linguística do norte da Amazônia, documentada no corpus exclusivamente em CM-0141 como agente principal do deslocamento e do extermínio dos Máku do Território Federal de Roraima. O autor, Ernesto Migliazza, nota em rodapé que “recentemente, a família linguística Xirianá foi designada também com o termo Yanomami” e que inclui as tribos “comumente chamadas Xiriána, Waiká, Guaiká, Guaharibo, Xamatari, etc.” (CM-0141, p. 2, nota 7). O artigo usa “Xirianá” como designação principal, mantida aqui como forma canônica do corpus para o período documentado (c. 1900-1964). (CM-0141, p. 2)

Presença no corpus

Como agente histórico — extermínio dos Máku (CM-0141)

Migliazza reconstrói os Xirianá como o vetor primário do colapso demográfico e territorial Máku ao longo de dois séculos. A invasão Xirianá proveniente do sul (entre os rios Branco e Negro) deslocou os Máku para leste e interrompeu o movimento norte-sul dos Karíb no Uraricuera (CM-0141, p. 3). No início do século XX, “subseqüentes incursões hostis e ataques de tribos Xirianá (Wayka ‘gente que não planta’, Guaharibo, etc.) forçaram os Máku a mudar pouco a pouco o seu habitat rio abajo” — algumas mulheres e crianças Máku foram então incorporadas às tribos Xirianá (CM-0141, p. 3).

O episódio mais violento documentado no artigo é o ataque dos Kasrapai — subgrupo Xirianá do médio rio Mucajaí, chamados “lábio comprido” — no início da década de 1930: “atacaram e exterminaram os moradores Máku e Mayongong da cachoeira Kulekuleima, levando para o Mucajaí algumas crianças e mulheres jovens” (CM-0141, p. 3). O quadro de sobreviventes (p. 18) registra a consequência humana desse ataque: a sobrevivente Iwazoló, de 45 anos, teve o marido morto pelos Kasapai na cachoeira Kulekuleima; outros descendentes Máku — Moacir, Kaxira — têm pai ou são irmãos de pessoas que passaram a viver com os Xirianá após 1935.

Subgrupos identificados no documento: Kasrapai (médio Mucajaí), Wayka, Guaharibo, Aywatâteri (rio Uraricaá — incorporaram parte dos Máku por volta de 1932). (CM-0141, p. 3-4)

Como sujeito etnográfico — organização social (CM-0142)

CM-0142 é o primeiro estudo sistemático sobre a organização social dos Xirianá do rio Uraricaá (Brasil) e Parágua (Venezuela), publicado um ano antes de CM-0141. O grupo de parentesco específico estudado por Migliazza reúne aproximadamente 200 pessoas auto-denominadas xirianpuk, divididas em dois bandos semi-nômades numa área de 180 km². Três gerações antes da pesquisa, os ancestrais fugiram da área Parima e se instalaram no território dos Awáke — contato que os transformou de nômades em semi-nômades (CM-0142, p. 2-3).

A terminologia de parentesco é de fusão bifurcada — doze termos vocativos classificatórios. “A família lingüística Xirianá tem cêrça de 5.000 falantes vivendo numa área aproximadamente circular em cujo centro fica a serra de Parima, no limite entre o Brasil e a Venezuela, num raio de 250 km.” (CM-0142, p. 1). O artigo documenta rituais de ciclo de vida detalhados: nascimento (ato de limpar a boca do recém-nascido com sangue da placenta “garante a capacidade de falar a língua Xiriâna”), puberdade feminina (isolamento txaa), masculina (escarificação com dente de cascavel), casamento (prestação de serviços ao sogro, comércio com os Makuxí para obter artefatos industriais), e morte com endocanibalismo funerário (pó de ossos misturado à bebida “para garantir saúde e habilidade no falar”) (CM-0142, p. 10, 13, 15, 18). O documento registra um único caso de poliginia no grupo: um xamã com três esposas vivas e duas mortas (CM-0142, p. 7; Fig. 4, p. 24).

A posição terminológica de Migliazza em 1964 — mantendo “Xirianá” contra a proposta de Hans Becher de adotar “Yanomami” — foi superada: o termo Yanomami hoje é universal. CM-0142 documenta o momento de transição. (CM-0142, p. 1, nota 2)

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0141 1965-03 p. 2-4, 18 antagonista principal; agente de deslocamento e extermínio dos Máku análise
CM-0142 1964-06-30 p. 1-18, passim sujeito principal; organização social, parentesco, rituais de ciclo de vida análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0141_pagina_001.md a CM-0141_pagina_019.md (19 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — MIGLIAZZA, Ernesto. “Fonologia Máku”. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova Série, Antropologia N.º 25. Belém: MPEG/CNPq/INPA, março 1965. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0142_pagina_001.md a CM-0142_pagina_024.md (24 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — MIGLIAZZA, Ernesto. “Notas Sôbre a Organização Social dos Xiriâna do Rio Uraricaá”. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova Série, Antropologia N.º 22. Belém: CNPq/INPA/MPEG, 30 jun. 1964. Acervo Cildo F. S. Meireles.