Ponto geográfico no percurso da medição das terras Kadiwéu (1899-1900), situado no rumo 75° NE a 16.000 m do Morro Niutaca. Ficou historicamente conhecido pelo marco de demarcação que os próprios Kadiwéu instalaram ali em 1896 — três anos antes da medição oficial — para demarcar seus campos: “No Xatelodo vimos um grande marco que os Cadiueos fincaram em 1896 para demarcar os seus campos” (CM-0049, p. 1-2). Do Xatelodo ao leste fica a Serra da Bodoquena, com terreno acidentado mas de excelentes pastagens (CM-0049, p. 2). A Fazenda Xatelodo — que mais tarde invadiria a reserva Kadiwéu — provavelmente deriva seu nome deste topônimo.
O Xatelodo situa-se na parte leste da área Kadiwéu, no percurso entre o Morro Niutaca e a Serra da Bodoquena. Da narrativa de Maciel: no rumo 75° NE a partir do Morro Niutaca, medindo 16.000 m, chega-se ao Xatelodo; a partir daqui tomou-se o rumo Leste até à Serra da Bodoquena (CM-0049, p. 1-2). O topônimo passou à Fazenda Xatelodo, que nas décadas de 1940 era o principal agente de invasão das terras Kadiwéu.
CM-0051 revela que o Xatelodo (“Chat-Ledo”) era posse registrada do Coronel Malheiros (Valheiros), “porém a excepção de um ranchinho vazio, nenhum outro vestigio apresenta de habitação humana” (CM-0051, p. 10). Malheiros registrou a área pela lei de 1892 sem jamais habitá-la. Os Kadiwéu iam ao Chat-Ledo periodicamente para cultivar “bocaya” (uma planta que chamavam “mocuiabôle”, de ciclo curto) — prática paralela à posse formal mas desocupada de Malheiros.
O mesmo Malheiros foi responsável pelo incêndio da aldeia Kadiwéu de Malique em 1896 e pela expulsão de Pedro de Souza Benevides do Tigre. O Xatelodo era, portanto, uma das peças de um padrão de registro fraudulento de terras dentro do território Kadiwéu.
O marco Kadiwéu instalado em 1896 — três anos antes da medição de Maciel — é evidência direta de que o povo exercia territorialidade autônoma e criava marcos de demarcação próprios antes que o Estado brasileiro formalizasse qualquer limite. O memorial de Maciel registra o marco como parte da paisagem natural da área, sem qualquer comentário sobre sua legalidade — o engenheiro simplesmente o viu e o registrou (CM-0049, p. 1-2).
A invasão da Fazenda Xatelodo nas décadas de 1940 é documentada em CM-0044 (p. 9): “as terras da Reserva indígena […] são, pelo lado Norte, ‘invadidas’ pela Fazenda Xatelodo”. O nome da fazenda provavelmente derivou do topônimo do ponto geográfico onde os Kadiwéu tinham seu marco, indicando que colonizadores não-indígenas se instalaram precisamente nesta área estratégica.
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0049 |
1900-02-23 | p. 1, 2 | ponto da medição onde os Kadiwéu tinham marco de demarcação própria (1896) | análise |
CM-0051 |
1931-03-06 | p. 10, 11, 14 | “Chat-Ledo” = posse registrada de Malheiros, nunca habitada; Kadiwéu cultivavam bocaya ali; rumos da medição confirmados | análise |
CM-0052 |
1925-05-22 | p. 4, 5, 8 | “Chat-Lodo”; Kadiwéu fazem “farinha de bacaiuva” (mecaia libeli) sazonalmente; marco de 1896 confirmado | análise |
CM-0056 |
1946-11/12 | p. 1, 3 | sede da Fazenda Xatelodo referenciada; Sociedade Agro-Pecuaria Xatelodo Ltda. opera a fazenda e invade a Reserva pelo afluente Alatiligú | análise |
CM-0049 - 0001_f.txt e CM-0049 - 0002_f.txt (2 páginas) — MACIEL, José de Barros. Memorial descritivo da medição das terras concedidas em usufruto aos índios Cadiuéos. Cuiabá, 1900-02-23. Acervo Cildo F. S. Meireles.