Primeira tentativa documentada de grilagem das terras Kadiwéu no período republicano, anterior à grilagem de 1943 (arrematação judicial da Fomento Argentino). A Inspetoria do SPI combateu e suspendeu a demarcação grileira três vezes. O expediente consistia em usar a última linha da polígona auxiliar inscrita no Rio Aquidauana como se fosse o limite sul oficial, construindo uma “linha seca” que empurrava a fronteira para dentro do território indígena (CM-0051, p. 3). O Memorial de N. Barbosa ao Interventor Federal (6 mar 1931) é a resposta institucional a esta ameaça.
O sucesso do Posto Presidente Alves de Barros — instalado desde 1927 com ~1.000 reses, aramados extensos e estrada de automóvel — atraiu cobiça: “a quietude e o progresso dos Índios passaram a inspirar confiança e a chamar a atenção do público; paralelamente, também a cobiça de alguns, para quem a ‘bravura’ dos Cadiuços deixou de ser um temor” (CM-0051, p. 3).
“Tentaram fazer passar a ultima linha da polygonal auxiliar inscripta no rio Aquidauana, por linha de limite; e, assim inventada uma linha seca, faziam della o ponto de partida para a consumação do esbulho.” (CM-0051, p. 3)
O grilo usou, portanto, uma confusão técnica: a polígona auxiliar inscrita no Aquidauana era um recurso de medição (as últimas linhas de medição antes de se atingir o rio como limite natural), não o limite em si. Ao tratar essa linha como fronteira, o grileiro empurrava a borda sul do território vários metros ou léguas para dentro, permitindo requerer ao Estado uma área como “sobrante” quando era território indígena.
Paralelamente à tentativa jurídica, uma campanha pública argumentava que as “100 léguas” dos Kadiwéu eram “enormidade” que justificava o “assalto” (CM-0051, p. 3). Quando a Inspetoria fez frente e suspendeu a demarcação, os mesmos interessados voltaram a grita contra o próprio SPI, tentando desmontar o órgão para abrir “brecha para suas ambições” (CM-0051, p. 3).
A Inspetoria suspendeu a tentativa três vezes. N. Barbosa respondeu com o Memorial de 1931, propondo decreto de ratificação para blindar juridicamente a reserva. O Decreto-Lei nº 53 de 9 de abril de 1931 — provavelmente resultado direto do Memorial — confirmou e ratificou o ato governamental de 1903 (CM-0051, p. 5-7).
Este evento (c. 1928-1931) foi derrotado pela Inspetoria e resolvido pelo Decreto-Lei de 1931. A grilagem de 1943-1947 (arrematação judicial das terras da Fomento Argentino S/A) foi uma ameaça diferente, envolvendo mecanismo judicial distinto e avançando mais longe antes de ser combatida.
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0051 |
1931-03-06 | p. 3 | tentativa de grilagem via polígona auxiliar do Aquidauana; suspensa três vezes pela Inspetoria | análise |
CM-0051_pagina_001.md a CM-0051_pagina_014.md (14 páginas, transcrição limpa) — N. BARBOSA. Memorial ao Interventor Federal. Guazará, 1931-03-06. Acervo Cildo F. S. Meireles.