Resumo

Povo indígena dos rios Uraricuera e Uaris (Território Federal de Roraima), documentado no corpus em estado de extinção iminente: quando Ernesto Migliazza pesquisou em março-abril de 1964, restavam apenas dez descendentes, dos quais somente três falavam a língua. A língua Máku é classificada como “isolada” — sem filiação linguística conhecida, com base apenas num pequeno vocabulário recolhido por Koch-Grünberg no início do século XX. O artigo de Migliazza, publicado no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi em março de 1965, é a única fonte do corpus que documenta o povo Máku. (CM-0141, p. 1)

Trajetória e contexto histórico

Origem e migrações (até c. 1900)

A tradição oral Máku situa seu habitat original na serra Maluwaka (atual Venezuela), entre o alto Padamo e o Cunucunuma, afluentes do Orinoco, onde viviam essencialmente de caça e coleta. De lá foram empurrados para o nordeste pelos Xirianá (família linguística hoje designada Yanomami), espalhando-se pela área do alto Orinoco, Ventuari, e depois, pela Parima, até atingirem o vale dos rios Uaris e alto Uraricuera, no atual Roraima. As relações com os Mayongong (Karíb, conhecidos na Venezuela como Maquiritare) eram amistosas — trocavam artefatos, compartilhavam técnicas (a zarabatana Máku era de origem Mayongong); os contatos com os Xirianá eram sistematicamente hostis (CM-0141, p. 2-3).

Colapso demográfico (1920-1964)

No início do século XX, os Máku ainda viajavam do Uaris ao baixo Uraricuera para trocar artefatos com os Karíb e “civilizados”. Entre 1920 e 1930, havia aldeias no alto Uraricuera e um acampamento na cachoeira Kulekuleima. No início da década de 1930, os Kasrapai — subgrupo Xirianá do médio rio Mucajaí — “atacaram e exterminaram os moradores Máku e Mayongong da cachoeira Kulekuleima, levando para o Mucajaí algumas crianças e mulheres jovens, quatro das quais estão ainda vivas” (CM-0141, p. 3). O ataque obrigou os sobreviventes a descer o rio: parte foi em sete canoas até o furo Maracá, formando o que Migliazza chama de “o último aldeamento Máku autóctone cuja comunidade era ainda ‘isolada'” (categoria de Ribeiro, 1957); parte subiu o Uraricaá e foi incorporada aos Aywatâteri (Xirianá daquele rio).

A aldeia do furo Maracá tampouco sobreviveu. Em contato com a “frente pioneira nacional”, o grupo foi dizimado por gripe e “tosse guariba”: “o contato com a ‘civilização’ causou, por força da gripe, ‘tosse guariba’ e consequentes complicações, a morte de quase todos os adultos da aldeia.” Os órfãos foram transferidos, “por intermédio do responsável pelo S.P.I.”, para as fazendas Boa Esperança e Santa Rosa, onde foram criados junto aos Makuxí (Karíb), “passando consequentemente de uma economia de caça e coleta para uma de tipo pastoril” (CM-0141, p. 4).

Sobreviventes em 1964

Em março de 1964, Migliazza encontrou dez descendentes Máku no Território Federal de Roraima. O quadro completo (p. 18):

Nome Sexo Idade Local de nascimento Domicílio Línguas
Sinfrônio M 45 Alto Uraricuera Mal. Mangueira Máku e pouco Português
Maria F 50 Alto Uraricuera Boa Esperança Máku e pouco Português
Conceição F 13 Boa Esperança Boa Esperança Português
Júlia F 40 Alto Uraricuera Alto Uraricuera Português e Máku
José M 25 Furo Maracá Maracá Português
Avelino M 30 Furo Maracá Maracá Português
Mâku M 35 Santa Rosa Boa Vista Português
Moacir M 25 Rio Uraricá Rio Uraricá Português
Kaxira F 20 Rio Uraricá Alto Uraricá Xiriana
Iwazoló F 45 Alto Uraricua Rio Mucajaí Xiriana e Máku (pouco)

Oito dos dez trabalhavam como “braçal, fazenda e roça”. Apenas Sinfrônio, Maria e Júlia preservavam o Máku; Kaxira e Iwazoló — ambas casadas com Xirianá — já falavam predominantemente Xiriana. A observação sobre Iwazoló registra: “casada (quando mais nova) com Máku morto pelos Kasarapai. Kulekuleima” — vítima direta do ataque dos anos 1930. O mapa de migração (p. 19) condensa o processo em quatro pontos: Serra Malowaka (? — 1600) → rio Uraricuera (1700-1900) → Maracá (1920-1930) → “X 1964”.

Traços culturais e linguísticos

O artigo registra traços culturais dos Máku do alto Uraricuera antes de 1953: casas de planta circular ou oval (c. 20 m de diâmetro), teto cônico, paredes de estacas — em alguns casos de taipa, como os Mayongong; rede /tsilaka/ de cipó (viagens) ou algodão (maloca); cestas globulares de carga; cerâmica limitada a panelas de barro; canoas monoxílicas; cultivo de mandioca, banana, cará, batata doce, abacaxi e fumo; caça com arco e flecha e zarabatana Mayongong; pesca com anzol, flecha e veneno; inumação dentro de cestas. O sistema de numeração aproximava-se do Karíb. (CM-0141, p. 5)

A terminologia de parentesco compreende 14 termos vocativos, 9 do tipo classificatório, do tipo “fusão bifurcada” (CM-0141, p. 6). A fonologia da língua apresenta 15 consoantes, 6 vogais e nasalização fonêmica, em cinco padrões silábicos (CM-0141, p. 7-15).

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0141 1965-03 p. 1-19, passim sujeito principal; história, fonologia, sobreviventes análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0141_pagina_001.md a CM-0141_pagina_019.md (19 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — MIGLIAZZA, Ernesto. “Fonologia Máku”. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova Série, Antropologia N.º 25. Belém: MPEG/CNPq/INPA, março 1965. Acervo Cildo F. S. Meireles.