1. Sumário do documento
Dois documentos do Chefe da I.R.5 do SPI (Coronel Nicolau Bueno Horta Barbosa), novembro-dezembro de 1946: ofício pedindo testemunho ao Coronel Deoclécio Leite Moreira sobre o Niutaca e seu afluente Alatiligú (“Cebola” em português, nome Kadiwéu em língua “guaiaruri”); e intimação formal à Sociedade Agro-Pecuaria Xatelodo Ltda. para cessar invasão da reserva Kadiwéu (CM-0056, p. 1-2, p. 3-4).
2. Análise e descrição do documento
CM-0056 compõe-se de dois ofícios distintos emitidos no mesmo mês por Nicolau Bueno Horta Barbosa, Chefe da I.R. 5 do SPI em Campo Grande.
Ofício ao Coronel Deoclécio Leite Moreira (pp. 1-2, 29/nov/1946). A Inspetoria acaba de verificar o curso superior do Niutaca por expedição própria, com agentes e índios Kadiwéu (“indios Cadiúos”), e quer o testemunho de Deoclécio Leite Moreira — descrito como o mais antigo conhecedor da região e “o mais afectuoso e devotado amigo dos indios Cadiúes”, com experiência de mais de quarenta anos na área. O documento formula três perguntas específicas:
a) Se o córrego verificado pela Inspetoria é o mesmo Niutaca que Deoclécio conhece há mais de quarenta anos;
b) Se pode testemunhar que os Kadiwéu utilizavam habitualmente a área entre o Niutaca e seu afluente da margem esquerda — o córrego Alatiligú (“Cebola”), que desce da vertente próxima da sede da Fazenda Xatelodo, com nascentes próximas a um velho marco da fazenda, já na encosta da Serra da Bodoquena;
c) Se pode fundamentar esse testemunho em evidências materiais como trilhos, ossadas ou restos de reses que os Kadiwéu costumavam apreender como gado alçado.
Este ofício revela: (1) a estratégia jurídica da Inspetoria — reunir testemunhos para construir prova documental do uso tradicional Kadiwéu; (2) a participação ativa de índios Kadiwéu na expedição de verificação; (3) o nome Kadiwéu do afluente disputado: Alatiligú / Alati-luég (= “Cebola” em português), registrado pela Inspetoria com a nota de que se trata de palavra em “guaiaruri” — nome da língua Kadiwéu, dado linguístico único no corpus.
Intimação à Sociedade Agro-Pecuaria Xatelodo Ltda. (pp. 3-4, 5/dez/1946). Barbosa registra que a Inspetoria tomou conhecimento pleno da invasão das terras da Reserva — desde as nascentes do Córrego Cebola (Alatiligú), afluente da margem esquerda do Niutaca, no local que passa a ser chamado em 1946 de “Rôge do Sotéro”, até os campos da planície. Após inspecionar pessoalmente o local (além do relatório ilustrado com fotografias da expedição de agentes), Barbosa protesta formalmente e intima a Sociedade a:
– Cessar a empreitada contratada com João Lemos para formação de cafusal (plantação de café);
– Cessar qualquer plantação contratada com Benedito Moreira da Silva, vulgo “Sotéro”, nas nascentes do Alatiligú;
– Em caso de descumprimento, a Inspetoria atuaria judicialmente em defesa da propriedade legal dos índios.
O documento encerra exigindo que o destinatário (Sociedade Xatelodo) aporse sua ciência e assinatura na 2ª via — formato de intimação com valor legal. Barbosa assina como “Chefe da I. R. 5”.
A invasão descrita — plantação de café nas nascentes de um afluente do Niutaca, dentro da Reserva, pela Fazenda Xatelodo — é exatamente o “fato novo deste ano entre maio e outubro” já mencionado em CM-0044 (p. 9). CM-0056 fornece agora o nome da empresa legal (Sociedade Agro-Pecuaria Xatelodo Ltda.), os nomes dos contratantes e a designação indígena do curso d’água invadido.
3. Análise por entidade
- trechos extraídos:
- p. 2: “C. N. Barbosa / Col. Nicolau Bueno Horta Barbosa / CHEFE DA I. R. 5”
- p. 2: “pela Inspectoria e pessoalmente reitéra o infra-assinado seus protestos da mais leal emizade”
- p. 3: “quis esta Chefia por si própria constatar o efeito da invasão como em verdade acaba de fazer”
- p. 4: “providenciará por via judicial na defesa da propriedade legal dos indios referidos”
- fatos detectados: em 29/11/1946 solicita testemunho; em 5/12/1946 intima formalmente a Sociedade Xatelodo; inspecionou pessoalmente o local da invasão; conduziu expedição com agentes e índios
- trechos extraídos:
- p. 1: “Ao Cel. Deoclécio Leite Moreira”
- p. 1: “o mais antigo conhecedor, que se saiba, da região”
- p. 1: “há mais de quarenta (40) anos como tal”
- p. 1-2: “apesar da vossa adiantada idade provecta e prejuízo dos afazeres habituais”
- p. 2: “actualmente o mais afectuoso e devotado amigo dos indios Cadiúes”
- fatos detectados: Coronel; conhece a região do Niutaca há mais de 40 anos (desde c. 1906); amigo dos Kadiwéu; idoso em 1946; a Inspetoria o convida a inspecionar pessoalmente o curso superior do Niutaca e testemunhar sobre o uso Kadiwéu da área
- trechos extraídos:
- p. 3: “toda e qualquer plantação contratada com Benedito Moreira da Silva, vulgo Sotéro, nas nascentes do Cêbola ou Alati luég em lingua indigena, o guaiaruri”
- p. 3: “no local começado a chamar-se este ano de Rôge do Sotéro”
- fatos detectados: apelido “Sotéro”; contratado pela Sociedade Xatelodo ou Fazenda Xatelodo para plantar nas nascentes do Alatiligú dentro da Reserva; deu seu apelido ao local onde atuava (“Rôge do Sotéro” — “roge” possivelmente variante de “roça”)
João Lemos — contratante; formação de cafusal na reserva
- trechos extraídos:
- p. 3: “empreitada contratada por essa Sociedade, ou pela Fazenda Xatelodo com João Lemos para formação de cafusal”
- fatos detectados: contratado pela Sociedade Agro-Pecuaria Xatelodo Ltda. / Fazenda Xatelodo para plantar café dentro da Reserva Kadiwéu
Kadiwéu — povo cuja reserva é invadida; agentes da verificação
- trechos extraídos:
- p. 1: “por seus Agentes e indios Cadiúos como sendo o Niutéca”
- p. 1: “a região comprehendida entre aquelle córrego e seu afluente da márgen esquerda […] conhecido dos indios pelo nome de Alatiligú que se traduz por Cebola”
- p. 3: “o guaiaruri, que é afluente da márgen esquerda do Niutúca” — [“o guaiaruri” aqui refere-se à língua Kadiwéu, não ao córrego: “em lingua indigena, o guaiaruri [= língua Kadiwéu]”]
- p. 1-2: “indios Cadiúes, tão malsinada e caluniada quanto estimável e digna de ser defendida”
- fatos detectados: índios Kadiwéu participaram da expedição de verificação do Niutaca como guias/peritos; a língua Kadiwéu é chamada “guaiaruri” no documento — único registro deste nome no corpus; o córrego Alatiligú (“Cebola”) é identificado pelo nome indígena como parte do território habitual
- trechos extraídos:
- p. 1: “afluente da márgen esquerda [do Niutaca], que descê da vertente mais próxima da séde da fazenda Xatelodo, o qual afluente é conhecido dos indios pelo nome de Alatiligú que se traduz por Cebola”
- p. 1: “cujas nascentes ficam logo adiante e abaixo de um velho marco reputado como sendo dessa fazenda, já na encosta da serra Bodoquena”
- p. 3: “desde as nascentes do córrego Cebola ou Alati-luég”
- p. 3: “o guaiaruri [língua Kadiwéu], que é afluente da márgen esquerda do Niutúca, decretado limite ao Norte da Reserva dos Indios Cadiúfos”
- fatos detectados: afluente da margem esquerda do Niutaca; nasce na encosta da Serra da Bodoquena, próximo à sede e a um marco da Fazenda Xatelodo; nome português: Cebola; nome Kadiwéu: Alatiligú / Alati-luég; é DENTRO da reserva Kadiwéu (Niutaca = limite norte da reserva; Alatiligú é afluente do Niutaca pelo interior); invadido pela Sociedade Xatelodo em 1946
- trechos extraídos:
- p. 1: “um velho marco reputado como sendo dessa fazenda, já na encosta da serra Bodoquena”
- p. 3: “Ao Chefe da 5a. Inspetoria Regional do Serviço de Proteção aos Indios / Sociedade Agro-Pecuaria Xatelodo Ltda.”
- p. 3: “empreitada contratada por essa Sociedade, ou pela Fazenda Xatelodo com João Lemos para formação de cafusal”
- p. 3: “toda e qualquer plantação contratada com Benedito Moreira da Silva, vulgo Sotéro”
- fatos detectados: a entidade legal é “Sociedade Agro-Pecuaria Xatelodo Ltda.” (sociedade limitada); opera a Fazenda Xatelodo; tem sede na região; contratou João Lemos para café e Benedito Moreira da Silva para plantação dentro da Reserva em 1946; o marco fronteiriço da fazenda fica na encosta da Serra da Bodoquena
Córrego Niutaca — curso superior verificado; limite norte da reserva
- trechos extraídos:
- p. 1: “constatar o curso superior do Niutéca até sua nascente na serra da Bodoquena, em defesa do patrimônio indígena decretado e demarcado”
- p. 1: “terminado documentadamente a verificação do dito curso superior desde a Sêrra até a Baía das Garças”
- p. 3: “decretado limite ao Norte da Reserva dos Indios Cadiúfos”
- fatos detectados: a Inspetoria verificou o curso do Niutaca desde a Serra da Bodoquena até a Baía das Garças; esta verificação foi documentada com fotografias e relatório
Baía das Garças — ponto final da verificação do Niutaca
- trechos extraídos:
- p. 1-2: “verificação do dito curso superior desde a Sêrra até a Baía das Garças”
- fatos detectados: baía (provavelmente um alargamento ou baia do Pantanal) que marca o ponto a jusante da verificação do curso superior do Niutaca pela Inspetoria
4. Citações ambíguas / não atribuídas
- p. 3: “Rôge do Sotéro” — topônimo local criado em 1946 como local das atividades de Benedito Moreira da Silva; “Rôge” possivelmente variante de “roça” ou corruptela de “roça” (do francês “rouger”? improvável); mais provavelmente grafia de “Roça do Sotéro”.
- p. 1: “gado alçado ou orelha” — gado alçado: animal que escapou das fazendas e vivia solto; “orelha”: gado com a orelha cortada como sinal de propriedade, capturado pelos Kadiwéu — a questão do gado como evidência de posse/uso é central para a estratégia jurídica da Inspetoria.
- p. 3: “o guaiaruri” — na frase “em lingua indigena, o guaiaruri” — o texto se refere à língua Kadiwéu como “guaiaruri”. Esta é a única ocorrência do nome da língua no corpus.
5. Notas de continuidade (multi-página)
- Pp. 1-2: Ofício ao Coronel Deoclécio Leite Moreira (29/11/1946). P.1 termina no meio do item IV; p.2 conclui o IV e o V, e traz as assinaturas.
- Pp. 3-4: Intimação à Sociedade Agro-Pecuaria Xatelodo Ltda. (5/12/1946). P.3 cobre os itens I-V; p.4 conclui o VI e traz a assinatura. A data foi corrigida de “Novembro” para “Dezembro” (risco no original).
- Releituras: 3 passagens integrais (P1, P2, P3) via MD.
- MD como fonte primária: flag
ocr_consultado_md.
- “guaiaruri”: único registro no corpus do nome da língua Kadiwéu. Grafias do texto: “guaiaruri” (p.3, uma vez). Confirmar com fontes etnolinguísticas — a língua Kadiwéu é também chamada “Kadiwéu” ou “Mbayá-Guaicuru” na literatura; “guaiaruri” pode ser um etnônimo ou nome vernacular para o idioma.
- CM-0044 vs CM-0056: CM-0044 (p. 9) mencionava a invasão da Fazenda Xatelodo como “fato novo” de 1946 sem nomear a empresa legal. CM-0056 fornece: nome legal da empresa (Sociedade Agro-Pecuaria Xatelodo Ltda.), nomes dos contratantes (João Lemos, Benedito Moreira da Silva/Sotéro), o afluente específico invadido (Alatiligú/Cebola) e as providências administrativas e judiciais da Inspetoria.
- Estratégia jurídica da Inspetoria: o testemunho de Deoclécio Leite Moreira + o relatório fotográfico da expedição + a intimação formal à Sociedade Xatelodo formam um conjunto de prova documental que a Inspetoria estava construindo para defesa judicial — exatamente a “contestação em juízo apresentada em princípios de julho de 1946” referida em CM-0044 (p. 9).
- Índios como peritos: a participação de “indios Cadiúos” na expedição de verificação do Niutaca é um dado raro de agência indígena ativa no processo jurídico de defesa territorial.