Povo Karíb do Alto Xingu, documentado no corpus por um único artigo: Galvão e Simões (1965), que relata o primeiro contato amistoso realizado em outubro de 1964 na aldeia do rio Jatobá. O artigo identifica a filiação linguística Karíb dos Txikão e propõe que sejam remanescentes dos “Kabischi” avistados por Herrmann Meyer e Koch-Grünberg no rio Ronuro em 1899 (CM-0139, p. 22-23).
O grupo era notório no Alto Xingu desde pelo menos 1942 por uma série de ataques — raptos, incêndios de malocas, mortes — dirigidos às aldeias Nahuquá, Mehináku, Waurá, Yawalapití e Awetí. Ao longo de duas décadas, os Txikão resistiram a todas as tentativas de “atração e pacificação” pelo SPI e pelos irmãos Claudio e Orlando Vilas-Boas, permanecendo isolados até 1964 (CM-0139, p. 3-6).
A aldeia dos Txikão foi sobrevoada pelo SPI em 1958-59 no rio Batovi — uma única maloca communal de formato alto-xinguano, com trilhas para a margem do rio e para as roças, e “algumas armações cônicas de varas, possivelmente usadas como gaiolas para xerimbabos” (CM-0139, p. 12, nota 11). Após o revide dos Waurá em 1960, o grupo se deslocou para a confluência Jatobá-Ronuro e subiu o Jatobá, onde foi localizado em outubro de 1964 — aldeia com uma única maloca, duas ranchadas de trabalho e estrutura inacabada, a c. 100 km do Posto Leonardo Vilas-Boas (CM-0139, p. 6, 12).
O grupo recebido no contato de outubro de 1964 somava cerca de 30 indivíduos, a maioria entre 20 e 25 anos, apenas dois homens com mais de 30 anos, e oito mulheres adultas. Os autores acreditam representar “a quase totalidade da aldeia” (CM-0139, p. 11). A dieta documentada é à base de mandioca (confirmada por beijus oferecidos no contato) (CM-0139, p. 13).
A cronologia de incursões fornecida por Claudio Vilas-Boas a Galvão e Simões começa c. 1942 com um ataque aos Nahuquá no Culiseiu, matando 12 homens e raptando 3 crianças. Em 1944, novo ataque à aldeia Nahuquá matou 4 homens — dado confirmado pelo relatório da 1.ª Expedição do SPI ao Culiseiu (CM-0139, p. 4, nota 6). Em 1945, os Waurá juntaram-se à 2.ª Expedição do SPI e contra-atacaram a aldeia Txikão (CM-0139, p. 4, nota 6). Em 1948, um grupo de Mehináku foi atacado enquanto auxiliava a expedição do missionário Thomas Young (CM-0139, p. 4, nota 6).
O SPI, a partir da Inspetoria Regional de Cuiabá, tentou a “atração e pacificação” em 1958, denominando os Txikão de “Kajabi brabos” (confundindo-os com os Kayabí). Com auxílio do avião da South America Indian Mission, localizou a aldeia no Batovi (~195 km do Posto Culiseiu), e fundou o Posto de Atração José Bezerra, a c. 50 km a montante — os Txikão rondavam o posto e recolhiam presentes, mas não estabeleciam contato. Por falta de recursos, o posto foi abandonado em 1959 (CM-0139, p. 5, nota 8).
Em 16 de outubro de 1964, Orlando e Claudio Vilas-Boas localizaram em voo a nova aldeia Txikão no rio Jatobá. Em 18 de outubro, o grupo de contato — Vilas-Boas, Jesko von Puttkamer, “Leopoldo da Bélgica”, Eduardo Galvão, o índio Pioni e o trabalhador Dico (PNX), nos aviões Cessna (FBC) e Helio Courrier (UNB) — pousou em várzea próxima. Os Txikão aguardavam na orla do cerrado “com os braços abertos segurando arcos e flechas afastados do corpo, em demonstração que não os utilizariam” (CM-0139, p. 6). Em 22 de outubro, na segunda visita, foi coletado um vocabulário e obtidos objetos para permuta (CM-0139, p. 11).
O corpus documenta em detalhe:
– Adornos: colar de fios de algodão com pingentes de capivara (homens); colares de discos de tucum (mulheres); brincos de madrepérola em leque; braçadeiras e pulseiras de algodão pintadas de urucu; coroas emplumadas (CM-0139, p. 11-12, 15)
– Pintura: facial feminina — três traços inclinados paralelos sobre os zigomas (jenipapo); ausência de pintura corporal masculina (contraste com alto-xinguanos) (CM-0139, p. 12)
– Armas: arco simples de 1,86 m; flechas de cana-de-ubá com emplumação cimentada; bordunas tipo clava de siriva (~75 cm) (CM-0139, p. 14)
– Cestaria e fiação: peneiras circulares; cestas de buriti e acuri; sacolas de malhas de algodão; redes de dormir (buriti + algodão) (CM-0139, p. 15-16)
– Instrumentos musicais: buzina de cabaça, colar-apito de tíbias de jaburu, flauta de osso (CM-0139, p. 16)
O documento não menciona Cildo F. S. Meireles. O artigo está presente no acervo pessoal, possivelmente como referência de interesse profissional — a presença do SPI na região Alto Xingu desde 1920 e as expedições ao Culiseiu de 1944-45 (citadas no artigo) coincidem com o período de atuação de Cildo como indigenista. Conexão não documentada no texto.
grafia_pendente_revisao| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0139 |
1965-02 | passim (p. 1-23) | sujeito principal | análise |
CM-0139_pagina_001.md a CM-0139_pagina_055.md (55 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — GALVÃO, Eduardo; SIMÕES, Mário F. “Notícia Sôbre os Índios Txikão — Alto Xingu”. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova Série, Antropologia N.º 24. Belém: INPA/CNPq, fevereiro 1965. Acervo Cildo F. S. Meireles.