A Fundação Brasil Central aparece no corpus como beneficiária de uma reserva de 430 km² na Ilha do Bananal, concedida pelo Decreto Nº 50.192, de 28 de janeiro de 1961. O decreto não especifica para que “atividades” a área foi reservada, nem menciona os povos Karajá e Javaé, habitantes tradicionais da ilha (CM-0092, p. 1).
O único documento do corpus que menciona diretamente a Fundação Brasil Central como instituição é o Decreto 50.192/1961 (CM-0092). A finalidade das “atividades” previstas não é descrita no texto do decreto — o instrumento limita-se a fixar a área geográfica reservada e a declarar sua vigência imediata (CM-0092, p. 1).
Em outro contexto, a FBC é documentada no artigo de Galvão e Simões (1965) como executora da Expedição Roncador-Xingu. “Com o amplo contato iniciado em 1946 pela vanguarda da Expedição Roncador-Xingu (Fundação Brasil-Central), chefiada pelos irmãos Vilas-Boas, redundou a atração e pacificação por êsses sertanistas de alguns dêsses grupos periferais como os Jurúna (1948), Kayapó-Txukahamãe (1953) e Suyá (1959)” (CM-0139, p. 2). A FBC possuía o avião Cessna utilizado no contato de outubro de 1964 com os Txikão no rio Jatobá, pilotado por Genário (FBC) (CM-0139, p. 6).
A reserva de 430 km² integra uma sequência de atos sobre o território da Ilha do Bananal: a Lei estadual goiana 2.570/1958 havia autorizado a doação da ilha à União para criação do Parque Nacional do Araguaia (CM-0047), e um decreto federal de 1959 havia criado formalmente esse parque sobre os 20.000 km² da ilha (CM-0093). O Decreto 50.192/1961, assinado às vésperas da transição presidencial, reserva uma fração específica (430 km²) sem articular sua relação com os instrumentos anteriores.
As defesas de Cildo Meireles de 1953 revelam uma faceta da FBC relacionada à conduta interna. Segundo Cildo, o Padre Antônio Cobalchini, capelão da FBC em Xavantina, denunciou o “procedimento libidinoso” do sertanista Leonardo Villas-Boas com índias do Xingu (CM-0162, p. 12; CM-0159, p. 13-14). O Marechal Cândido Rondon solicitou ao presidente da FBC a abertura de inquérito, que resultou na dispensa dos irmãos Villas Boas — Orlando e Leonardo — da Fundação (CM-0162, p. 12; CM-0159, p. 13-14). Na versão de Cildo, o presidente da FBC também exigiu que um funcionário envolvido num episódio similar com a índia Diacuí “legalizasse sua situação conjugal” como condição para permanência no serviço (CM-0162, p. 13). O corpus registra exclusivamente a perspectiva de Cildo sobre esses eventos; a versão da FBC não está documentada no acervo.
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0092 |
1961-01-28 | p. 1 | beneficiária da reserva de 430 km² na Ilha do Bananal | análise |
CM-0139 |
1965-02 | p. 2, 6 | executora da Expedição Roncador-Xingu (1946); avião Cessna no contato Txikão (1964) | análise |
CM-0144 |
1964-10 | p. 10 | presente em Jacaréacanga junto com base da FAB (1959/60) | análise |
CM-0159 |
1953-04-13 | p. 11-14 | Noel Nutels cedido à FBC antes do SPI; Vilas Boas (Orlando e Leonardo) demitidos da FBC após inquérito de Cândido Rondon por conduta com índias do Xingu; Padre Cobalchini (capelão FBC em Xavantina) foi o denunciante | análise |
CM-0162 |
1953-04-17 | p. 11-13 | Padre Antônio Cobalchini (Capelão da FBC em Xavantina) denunciou comportamento de Leonardo Villas Boas com índias do Xingu; inquérito na FBC a pedido de Rondon resultou na dispensa dos irmãos; Presidente da FBC exigiu casamento de funcionário com Diacuí (perspectiva controversa de Cildo) | análise |
CM-0159_pagina_001.md a CM-0159_pagina_021.md (21 páginas, source_md_only) — MEIRELES, Cildo Furtado Soares de. Defesa no Processo Administrativo SPI (Portaria 57/1952). Goiânia, 1953-04-13. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0162_pagina_001.md a CM-0162_pagina_022.md (22 páginas, source_md_only) — MEIRELES, Cildo Furtado Soares de. “DEFESA” — peça de defesa no Processo Administrativo (Portaria 57/1952). Goiânia, 1953-04-17. Acervo Cildo F. S. Meireles.