Nascimento05/05/1865
Morte19/01/1958
Nacionalidadebrasileira

Resumo

Cândido Mariano da Silva Rondon, Presidente do Conselho do Serviço de Proteção aos Índios em 1950, foi a instância superior a quem Francisco José Vieira dos Santos, Encarregado do Posto Indígena Nonoai, apelou diretamente diante da iminência do despejo dos Kaingang da Reserva Florestal criada pelo Decreto 58/1949 do Governo do Rio Grande do Sul (CM-0006, p013-p014). Sua resposta — de que o Conselho já tratava do assunto — marcou a primeira aparição de Rondon no corpus.

Treze anos depois, em 1963, Bernardo Élis referiu-se a Rondon como “grande Rondon”, fundador do SPI, em artigo que denunciava o genocídio indígena em Goiás e Mato Grosso: “ao Serviço de Proteção ao Índio cabe a ingente tarefa de defendê-los e assisti-los, como vem fazendo, com muito acerto e relativa eficiência desde sua fundação pelo grande Rondon” (CM-0035, p. 2). Dois anos antes, em abril de 1961, o autor da carta de Brasília ao Diretor do SPI também invocara Rondon, referindo-se ao SPI como “a gloriosa repartição do Marechal Rondon” (CM-0037, p. 4) — expressão que revela a permanência do nome do marechal como lastro simbólico do órgão. A menção — no corpus — revela a permanência do nome de Rondon como referência moral e institucional do indigenismo brasileiro, mesmo décadas após sua morte em 1958 (CM-0035, p. 2; CM-0037, p. 4).

Trajetória

Presidente do Conselho do SPI (1950)

Em ofício de 27 de novembro de 1950, Vieira dos Santos comunicou ao Chefe da 7ª I.R., Lourival da Mota Cabral, que levara o caso ao “Sr. Presidente do Conselho, Gal. Rondon” (CM-0006, p013). O general respondeu: “O caso não é da competência do Posto, o Conselho já está tratando do assunto” (CM-0006, p014). Vieira dos Santos acrescentou que Rondon determinara que se oficiasse ao SPI sobre a questão, e concluiu sugerindo “legalizar as terras ocupadas pelos índios, ou pelo menos as áreas sob a direção do SPI, nos termos dos Arts. 8 e 10 do Decreto nº 5.484” (CM-0006, p014).

A resposta de Rondon — embora não resolvesse a urgência da situação denunciada por Vieira dos Santos — confirmava que o conflito de Nonoai alcançara a instância máxima do SPI.

Correspondência com o Governador de Mato Grosso (1953)

Em setembro de 1953, Deocleciano de Sousa Nené, Chefe da I.R.5 (Campo Grande), informou ao Chefe da S.O.A. do SPI que havia recebido via memorando nº 556 “a copia da correspondência trocada entre os Exmos. Srs. Governador deste Estado e General Rondon” — correspondência relacionada ao contexto da mobilização da I.R.5 contra requerimentos ilegais de terras sobre reservas indígenas em Amambai (CM-0062, p. 2). O conteúdo específico da troca epistolar não consta no dossiê, mas sua menção indica que Rondon permanecia como interlocutor ativo em assuntos indígenas no Mato Grosso, aos 88 anos.

Fundador do SPI — menção de Bernardo Élis (1963)

Em 1º de fevereiro de 1963, o escritor Bernardo Élis publicou no jornal O Popular (Goiânia) uma coluna de denúncia do genocídio indígena no Brasil. No texto, Rondon é evocado como o fundador do SPI e referência moral da instituição: “ao Serviço de Proteção ao Índio cabe a ingente tarefa de defendê-los e assisti-los, como vem fazendo, com muito acerto e relativa eficiência desde sua fundação pelo grande Rondon” (CM-0035, p. 2, parágrafo 13). A menção ocorre no contexto de um apelo para que o SPI — então chefiado em Goiás por Francisco Meireles — tomasse providências contra a grilagem de terras e a violência que atingiam simultaneamente Krahô, Xerente, Xavante e Tapirapé (CM-0035, p. 2). O epíteto “grande Rondon” e a invocação de seu nome como fiador da credibilidade do SPI indicam que, em 1963, a figura do marechal permanecia como capital simbólico da política indigenista brasileira — mesmo após sua morte em 1958 (CM-0035, p. 2).

Atuação principal

  • Presidente do Conselho do SPI em 1950, consultado sobre o conflito fundiário de Nonoai (CM-0006, p013-p014)
  • Interlocutor do Governador de Mato Grosso em 1953, em correspondência relacionada às reservas indígenas do Sul de MT (CM-0062, p. 2)
  • Fundador do Serviço de Proteção aos Índios, referido como “grande Rondon” por Bernardo Élis em 1963 (CM-0035, p. 2) e como “Marechal Rondon”, fundador da “gloriosa repartição”, em 1961 (CM-0037, p. 4)

Centenário e Ata de Instalação do SPI (1965)

Em maio de 1965, o SPI publicou um “número especial em homenagem ao Marechal Rondon” — o Boletim Interno nº 1 da “Nova Fase” — reproduzindo a Ata de Instalação do SPILTN de 7 de setembro de 1910. O documento original registra a posse de “o Tenente-Coronel de Engenharia CÂNDIDO MARIANO DA SILVA RONDON” como “Director geral” do serviço recém-criado pelo Decreto nº 8.072 de 20/6/1910, no Ministério da Agricultura, com o Ministro Rodolpho Nogueira da Rocha Miranda presente (CM-0083, p. 6). O BI de 1965 também reproduz o discurso que Rondon proferiu em 19 de abril de 1944, como Presidente do CNPI, na primeira celebração do Dia do Índio Americano no Brasil — discurso de tom fortemente crítico à conquista (“destruíram uma grande população em franca evolução social”) e de justificação doutrinária do indigenismo como política de “civilização gradual e metódica” (CM-0083, p. 7-12). O “centenário” comemorado em 1965 confirma a data de nascimento de Rondon como 1865.

Relações

Páginas relacionadas

A pesquisar
Datas de nascimento e morte de Cândido Rondon são bem conhecidas (1865-1958) mas não constam nos documentos do corpus. A referência a Rondon como Presidente do Conselho do SPI em 1950 é a primeira aparição do marechal no acervo — sua atuação mais ampla no SPI e sua relação com Cildo F. S. Meireles ainda não estão documentadas no corpus.

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0020 1963-09-24 p001, p002 referência histórica fundadora: “Mal. Cândido Mariano da Silva Rondon, insigne patriota e insuperável protetor dos índios”; “em cuja direção imortalizou-se o venerável e legendário Marechal” análise
CM-0006 1941–1951 p013-p014 Presidente do Conselho do SPI em 1950; Vieira dos Santos apelou a ele em 1947 sobre risco de loteamento — Rondon respondeu “o Conselho já está tratando do assunto” análise
CM-0035 1963-02-01 p. 2 citado como “grande Rondon”, fundador do SPI análise
CM-0037 1961-04-07 p. 4 citado como “Marechal Rondon”, fundador da “gloriosa repartição” (SPI) análise
CM-0062 1953-09-15 p. 2 “General Rondon” — correspondência com o Governador de MT sobre reservas indígenas análise
CM-0083 1965-05 p. 1-12 centenário de nascimento (1865); fundador/primeiro Diretor Geral do SPI (7/9/1910); discurso Dia do Índio como Presidente do CNPI (19/4/1944) análise
CM-0084 1965-05 p. 2-4, 8-10 artigo Visão + histórico BI: bio completa (nascimento 5/5/1865, Mimoso MT; morte 19/1/1958, Copacabana; casamento Francisca Xavier 1892; Expedição Roosevelt-Rondon 1914; Parque Xingu proposto 1952; Marechal 1955); 50 Xavante + 50 Bororo em cerimônia centenária; busto inaugurado por Fernando Correia da Costa análise
CM-0141 1965-03 p. 1 (nota 2), p. 17 coletou vocabulário manuscrito inédito da “Tribo Maco” (rio Branco/Roraima); depositado no Arquivo da Commissão Rondon e Inspecção de Fronteiras, Rio de Janeiro análise
CM-0014 1960-08-27 p011 “inarredouras normas do grande Marechal Rondon de que esta I.R. e essa digna Diretoria são fiéis intérpretes” — referência normativa usada pela 7ª IR para contestar alegação de declaração favorável ao loteamento análise
CM-0152 1964-07 p. 42, item 606 “General de Divisão Candido Mariano da Silva Rondon” como comandante da Campanha do Paraná (1924-1925) — álbum fotográfico à venda no catálogo análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0020_pagina_001.md a CM-0020_pagina_008.md (8 páginas, source_md_only) — WESTPHALEN, Moysés. Representação ao Procurador da República contra abusos de autoridade e ilegalidades praticadas pelas autoridades estaduais do RS em prejuízo dos índios. Porto Alegre, 1963-09-24. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0006_pagina_001.md a CM-0006_pagina_014.md (14 páginas) — CRUZ, Modesto Donatini Dias da; SANTOS, Francisco José Vieira dos; AMBROS, Artur; BAUMEL, Nelson Alcides. “Dossiê de correspondência sobre a transformação da área indígena de Nonoai em Reserva Florestal (1941-1957)”. Nonoai/Curitiba/Rio de Janeiro, 1941-1957. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0035 - 0001_f.txt e CM-0035 - 0002_f.txt (2 páginas) — ÉLIS, Bernardo. Coluna de opinião em O Popular, Goiânia, 1963-02-01. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0037 - 0001_f.txt a CM-0037 - 0004_f.txt (4 páginas) — [s.a.]. Carta ao Diretor do SPI sobre a situação da Craolândia. Brasília, 1961-04-07. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0062_pagina_001.md a CM-0062_pagina_008.md (8 páginas, transcrição limpa) — [s.t.] Dossiê I.R.5 sobre tentativa de esbulho das reservas indígenas de Amambai. Campo Grande, MT: M.A.-S.P.I.-I.R.5, 1953-09-15. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0083_pagina_001.md a CM-0083_pagina_013.md (13 páginas) — SPI/Seção de Divulgação. Boletim Interno do SPI Nº 1, Nova Fase (número especial centenário de Rondon). Brasília, 1965-05. Acervo Cildo F. S. Meireles.