Resumo

No corpus, “autodeterminação” é o conceito que o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) operacionalizou em 1962 para designar uma política de transferência da administração comunitária aos próprios indígenas. Aplicado como projeto-piloto com os Terena no Posto Indígena Buriti, o conceito se desdobrava em três dimensões práticas: autogestão (“os índios assumirão a administração e o governo de si mesmos”), propriedade coletiva (“disporão, pelo colégio comum, dos bens seus”) e educação ativa (“Escola ativa”) (CM-0038_f, p. 1).

O uso do termo pelo SPI em 1962 é significativo: “autodeterminação” era vocabulário associado à descolonização afro-asiática no pós-guerra e à autodeterminação dos povos consagrada na Carta da ONU (1945). Sua mobilização no contexto indigenista brasileiro — ainda sob regime tutelar — revela uma corrente interna do órgão que propunha autonomia como horizonte de política, fundada nos “princípios doutrinários de Assis” (CM-0038_f, p. 1).

Uso no corpus

O termo encabeça a manchete do documento: “AUTODETERMINAÇÃO” (CM-0038_f, p. 1). O parágrafo seguinte detalha sua operacionalização:

“os índios assumirão a administração e o governo de si mesmos, nos trabalhos rurais da comunidade, e nas outras atividades relativas à vida do campo, inclusive disporão, pelo colégio comum, dos bens seus adquiridos pelo esforço próprio” (CM-0038_f, p. 1)

O documento também se refere aos “objetivos de autodeterminação” como meta do programa, enumerando os meios: “o S.P.I. se empenhará vivamente para que o grupo tribal se recupere com brevidade do seu estado sanitário” e a escola primária “elevará tanto quanto possível a mentalidade das crianças” (CM-0038_f, p. 1).

O conceito aparece associado à “Escola ativa” como método pedagógico: “desenvolvendo cada vez mais, pela Escola ativa, as faculdades mentais, nas diversas profissões obreiras” (CM-0038_f, p. 1).

Quem usa, com que sentido

Uso institucional / oficial

  • Moacir Ribeiro Coelho / SPI — mobiliza “autodeterminação” como política oficial: administração comunitária + gestão coletiva de bens + educação ativa + apoio técnico externo. O termo é tratado como projeto concreto (“a título de experiência”), não como retórica vazia (CM-0038_f, p. 1)
  • José Fernando da Cruz — executor local, “inteiramente integrado no pensamento do Sr. Diretor” (CM-0038_f, p. 1)

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A pesquisar
Origem do conceito de autodeterminação no pensamento indigenista brasileiro — há influência da Carta da ONU (1945), dos movimentos de descolonização ou de correntes filosóficas específicas? Os “princípios doutrinários de Assis” como fundamento teórico. Evolução do conceito no SPI e na FUNAI nos anos seguintes. Relação com o regime tutelar — a autodeterminação implicava o fim da tutela?

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0038_f 1962-08-30 p. 1 conceito central — definido operacionalmente pelo SPI análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0038_f.txt — [s.a.]. “Autodeterminação — Os índios do Buriti”. [s.n.], Campo Grande, 1962-08-30. Acervo Cildo F. S. Meireles.