Resumo

Povo de língua Arawak habitante do sul do atual Mato Grosso do Sul. O corpus documenta sua presença no Burity em duas temporalidades separadas por cerca de quatro décadas: um Memorial de c. 1920-1928 (CM-0050) narra a origem da Colônia Terena no córrego Burity, a invasão sistemática de suas terras por especuladores e solicita ao Estado uma reserva de 2.200-2.600 ha; em 1962 (CM-0038_f), os Terena do Posto Indígena Buriti são selecionados pelo SPI para o projeto-piloto de autodeterminação, sob a direção do General Moacir Ribeiro Coelho.

A iniciativa previa que os próprios indígenas assumissem “a administração e o governo de si mesmos, nos trabalhos rurais da comunidade, e nas outras atividades relativas à vida do campo, inclusive disporão, pelo colégio comum, dos bens seus adquiridos pelo esforço próprio” (CM-0038_f, p. 1). O projeto incluía escola primária — dirigida por “duas esforçadas e jovens professoras” — e recuperação sanitária do grupo (CM-0038_f, p. 1).

Origem da Colônia do Burity (c. séc. XIX — c. 1928)

Os Terena se estabeleceram no córrego Burity (formado pelo Cachoeirão, afluente do Aquidauana) como trabalhadores migrantes das fazendas do sul do Estado. Inicialmente contratados como vaqueiros e roceiros pela Fazenda das Correntes, foram aos poucos se deslocando para o Burity, onde já se aldeava um grupo chamado “uaxirys” — descrito como “irmãos” dos Terena (CM-0050, p. 3). Durante as “lutas civis” (final do séc. XIX), o fazendeiro das Correntes entregou seus rebanhos à lealdade dos Terena, que os levaram para o Burity — origem do topônimo “Invernada”; o núcleo também era chamado de “Colônia” (CM-0050, p. 4).

A área do Burity ficou fora da demarcação oficial da Fazenda das Correntes — tanto na demarcação original quanto na posterior “revisão e divisão judiciaria” —, consolidando juridicamente o direito dos Terena ao local. Os Terena habitavam “ambas as margens do Burity” com roças, casas e pomares e foram os construtores da única estrada de automóveis da região (CM-0050, p. 4-5).

A partir da confirmação das “sobras” da fazenda, especuladores fundiários iniciaram uma campanha de intimidação e demarcação fraudulenta dentro das próprias aldeias: Agostinho Rondon, Porphirio de Britto (Cel.) e José de Souza requereram ao Estado as terras indígenas, ocultando a existência das aldeias nas petições e acusando os Terena falsamente de “vadios e ladrões” (CM-0050, p. 4-5). O Memorial que documenta este episódio propõe reserva de 2.200-2.600 ha (CM-0050, p. 6). O Decreto 834/1928 reservou 2.000 ha em Burity — provável desfecho desta demanda.

Terras reservadas — atos fundiários (1904-1928)

A compilação da 6ª Inspetoria Regional do SPI (I.R.6, Cuiabá) de 1937 documenta que os Terena foram o povo mais beneficiado pelos atos de reserva de terras indígenas em Mato Grosso: quatro dos treze atos entre 1894 e 1928 foram destinados a eles (CM-0043, p. 4, 11, 14, 15). O Ato 217 (1904) reservou 10.400 hectares em Miranda, divididos em duas glebas. O Decreto 611 (1922) acrescentou 2.800 hectares no Posto Indígena Capitão Vitorino, em Nioac. A Câmara Municipal de Miranda, pela Resolução 33 (1925), concedeu a área Moreira — única doação municipal na compilação. Por fim, o Decreto 834 (1928) destinou 2.000 hectares em Burity, na divisa entre Campo Grande e Aquidauana. No total, mais de 15.200 hectares foram reservados aos Terena ao longo de 24 anos, concentrados no sul do então Mato Grosso (CM-0043, p. 4, 11, 14, 15).

Território e organização social

O corpus situa os Terena no Posto Indígena Buriti, município de Aquidauana, sul de Mato Grosso, em agosto de 1962 (CM-0038_f, p. 1). O documento não informa população, número de aldeias, organização social ou lideranças. A localização no sul de Mato Grosso é consistente com a presença histórica Terena na região do Pantanal e planalto sul-mato-grossense, mas dados demográficos e territoriais específicos estão ausentes do corpus.

Contatos com o indigenismo brasileiro

Projeto-piloto de autodeterminação (1962)

O único contato documentado no corpus é o projeto de autodeterminação lançado pelo SPI em agosto de 1962. Sob a direção do General Moacir Ribeiro Coelho e com supervisão local do Chefe da 1ª Inspetoria Regional José Fernando da Cruz, o PI Buriti foi escolhido “a título de experiência” para uma política baseada nos “princípios doutrinários de Assis” (CM-0038_f, p. 1).

O programa transferia aos Terena a administração da comunidade rural e a gestão coletiva dos bens produzidos, mantendo o SPI como apoio técnico: “os trabalhos técnicos, ou especializados, são ali dirigidos por elementos civilizados, ajudados porém sempre pelos índios que vão aprendendo” (CM-0038_f, p. 1). A “Escola ativa” era o instrumento pedagógico para o desenvolvimento das “faculdades mentais, nas diversas profissões obreiras” (CM-0038_f, p. 1).

Eventos e episódios documentados

  • Invasão das terras Terena do Burity (c. 1910-1928): campanha de especulação fundiária e intimidação; demarcações fraudulentas dentro das aldeias; acusações falsas; o Memorial propõe reserva de 2.200-2.600 ha (CM-0050, p. 3-6).
  • Decreto 834 (1928): reserva de 2.000 ha em Burity para os Terena — desfecho provável do Memorial CM-0050 (CM-0043, p. 15).
  • Projeto de autodeterminação no PI Buriti (1962-08-30): os Terena foram selecionados como grupo para a experiência-piloto de autogestão indígena do SPI, que previa administração comunitária pelos próprios indígenas, gestão coletiva de bens, escola ativa e recuperação sanitária (CM-0038_f, p. 1).

Lideranças e personagens nomeados

Nenhuma liderança Terena é nomeada no documento. O texto refere-se aos indígenas exclusivamente como coletivo — “os índios”, “a tribo dos TERENAS”, “o grupo tribal”, “a comunidade indígena” — sem nomear qualquer indivíduo (CM-0038_f, p. 1).

Relação com a atuação de Cildo F. S. Meireles

Não há menção direta a Cildo F. S. Meireles no documento. A matéria integra seu acervo pessoal, sugerindo interesse na política de autodeterminação do SPI ou no contexto do indigenismo em Mato Grosso. A 1ª Inspetoria Regional, chefiada por José Fernando da Cruz, tinha jurisdição sobre região contígua à área de atuação de Cildo F. S. Meireles no período.

Páginas relacionadas

A pesquisar
População Terena no PI Buriti em 1962. Lideranças e organização social. Histórico do contato com o SPI antes e depois do projeto de autodeterminação. Desfecho da experiência — o projeto foi mantido, expandido ou abandonado? Dados linguísticos e etnográficos dos Terena na região de Aquidauana.

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0050 [c. 1920-1928] p. 3-6 origem da Colônia do Burity; invasão por especuladores; proposta de 2.200-2.600 ha análise
CM-0043 1937 p. 4, 11, 14, 15 4 atos de reserva (1904, 1922, 1925, 1928) — 15.200+ ha em Miranda, Nioac, Campo Grande análise
CM-0038_f 1962-08-30 p. 1 população do projeto-piloto de autodeterminação análise
CM-0061 1924-07-10 p. 1-15, 33-34 sujeito central; 219 pessoas em 1924; migração de Miranda para Nioac c. 1884 liderada por Capitão Victorino; padrão de invasões 1938-1952 análise
CM-0145 1949 p. 8, 10, 48 alunos Terena no P.I.N. Cachoeirinha (IR5, Sul de MT); Leão Vicente — índio Terena expedicionário da FEB análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0050_pagina_001.md a CM-0050_pagina_007.md (7 páginas, transcrição limpa) — [s.a.]. “Memorial sobre as terras do córrego ‘Burity'”. [s.l.], [c. 1920-1928]. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0043 - 0001_f.txt a CM-0043 - 0016_f.txt (16 páginas) — I.R.6 (Cuiabá). Compilação de atos de reserva de terras indígenas em Mato Grosso (1894-1928). Cuiabá, 1937. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0038_f.txt — [s.a.]. “Autodeterminação — Os índios do Buriti”. [s.n.], Campo Grande, 1962-08-30. Acervo Cildo F. S. Meireles.