Data16/11/1942
Autor(a)NENÊ, Deocleciano de Souza
TipologiaRecenseamento / Censo demográfico

1. Sumário do documento

Recenseamento oficial do SPI conduzido em 16 de novembro de 1942 por Deocleciano de Souza Nenê, “Inspetor Especializado do S.P.I.”, listando os 69 indivíduos Kaingang residentes no Toldo de Imbira Branca (Distrito de Juquiá, Município de Guarapuava, PR) em duas sub-comunidades: Rio do Corimbá (33 pessoas, nº 1-33) e Imbira Branca (36 pessoas, nº 34-69); protocolado em 18 de dezembro de 1942 (CM-0073, p. 1-2).

2. Análise e descrição do documento

O documento é um censo demográfico formal, executado por um funcionário graduado do SPI — o título “Inspetor Especializado” denota posição técnica superior à de simples encarregado de posto —, que recenseou pessoalmente todos os membros do Toldo de Imbira Branca em novembro de 1942. O cabeçalho registra o propósito localizador: “Distrito de Juquiá – Guarapuava / Doc. n.?” — a ausência do número do documento sugere que o exemplar preservado no acervo de Cildo F. S. Meireles é uma cópia de trabalho, ainda sem numeração definitiva quando arquivada, protocolada internamente em 18-12-1942 com as iniciais J/M/A (CM-0073, p. 1).

A tabela do censo organiza os residentes em dois agrupamentos territoriais distintos — “RIO DO CORIMBÁ” e “IMBIRA BRANCA” —, que coincidem com a nomenclatura dual da área já identificada em CM-0072 (“LOGAR CHAMADO DO PIQUIRI OU IMBIRA BRANCA”). A seção do Rio do Corimbá, com 33 indivíduos, é encabeçada por Pedro Corimba (= Aiquivái), de 55 anos — a mesma liderança identificada nove anos depois, em 1951, pelo levantamento da 7ª I.R. do SPI como “chefe do toldo do Barreiro” (CM-0065, p. 3; CM-0073, p. 1). A consistência biográfica (Pedro Corimba com ~64 anos em 1951, compatível com os 55 de 1942) confirma a continuidade da liderança ao longo de uma década de disputa territorial (CM-0073, p. 1).

A estrutura familiar da comunidade revela um clã coeso. A família Corimba — Pedro (55), Generozo (45), Benedito (50), Indalecio (40), Gabriel (35), Orcilio (25) e Maria (70) — está presente em ambas as sub-comunidades, com o sobrenome derivando provavelmente do topônimo “Rio do Corimbá”. O nome indígena de cada chefe reforça a presença Kaingang: Aiquivái (Pedro), Goio (Generozo), Acrencôn (Benedito) — todos dentro da fonologia Kaingang, com nasalização, africadas e vogais típicas da língua Jê (CM-0073, p. 1-2).

O censo resolve a questão étnica que o documento CM-0072 (anúncio de venda da mesma área) havia deixado em aberto com a fórmula vaga “os indios de Imbirua Branca”. Os 69 indivíduos recenseados em 1942 são Kaingang. Os nomes indígenas registrados — Aiquivái, Goio, Acrencôn, Crandére, Cávendim, Joancaré, Xuncrivam, Plaém, Dunrôrô, Prequengôro, Fanguê, entre outros — não deixam dúvida quanto à filiação linguística Jê/Kaingang (CM-0073, p. 1-2).

A cronologia dos dois documentos é reveladora. A transferência da área de Imbira Branca ao Dr. Luiz Wolzki via “decretos de nacionalização” ocorreu durante a era Vargas (c. 1938-1945); o censo do SPI data de novembro de 1942, no auge desse processo. É altamente provável que o recenseamento tenha sido conduzido precisamente para documentar a presença indígena e embasar eventual reivindicação territorial do SPI — a prática de “pedir terras” para indígenas já estabelecidos, explicitamente enunciada nas notas manuscritas de CM-0072 (“Terras a pedir para os indios de Imbirua Branca”), pressupõe um levantamento populacional como este (CM-0072, p. 2; CM-0073, p. 1).

A atividade econômica registrada no censo indica uma comunidade sedentária com pecuária estabelecida. As famílias com maior patrimônio em gado: Generozo Corimba (10 bovinos, 10 suínos), Benedito Corimba (6 bovinos, 4 cavalos, 8 suínos), Indalecio Corimba (2 bovinos, 2 cavalos, 8 suínos), Geniplo Luiz Oliveira (1 bovino, 20 suínos), Avelino (2 bovinos, 10 suínos). Esses números contrastam com a caracterização corrente dos índios como “nômades” ou sem pertencimento fundiário — eles tinham raízes produtivas na terra havia gerações (CM-0073, p. 1-2).

O resumo estatístico na última página confirma o equilíbrio demográfico da comunidade: 40 homens e 29 mulheres, com 25 crianças abaixo de 14 anos e 44 adultos acima de 15. A proporção de menores (36% da população) indica uma comunidade reprodutiva, não em declínio (CM-0073, p. 2).

3. Análise por entidade

Deocleciano de Souza Nenê — autor; Inspetor Especializado do SPI

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “Recenseamento dos Indios do Toldo de Imbira Branca, Distrito de Juquiá, municipio de Guarapuava, em 16 de Novembro de 1942, pelo Snr. Deocleciano de Souza Nenê, Inspetor Especializado do S.P.I.”
  • fatos detectados:
  • Em novembro de 1942, era “Inspetor Especializado do S.P.I.” — posição anterior à chefia da I.R.5 (Campo Grande, 1953) documentada em CM-0062
  • Conduziu o recenseamento pessoalmente no Toldo de Imbira Branca (PR) — sua atuação geográfica em 1942 é o sul/PR, não o Mato Grosso do Sul da I.R.5 de 1953
  • O cargo “Inspetor Especializado” denota função técnica superior; conduzia levantamentos demográficos em campo

Pedro Corimba (= Aiquivái) — nº 1; chefe da sub-comunidade Rio do Corimbá

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “1 Pedro Corimba Cél Aiquivái [55] M C 2 1 8”
  • p. 1: (encabeça a lista da seção “RIO DO CORIMBÁ”)
  • fatos detectados:
  • Nome indígena: Aiquivái (confirma o “Aiquivao” de CM-0065 — grafia fonética variante)
  • 55 anos em novembro de 1942 → ~64 anos em 1951 (consistente com sua presença como líder em CM-0065)
  • Casado (“C”); pecuária: 2 bovinos, 1 cavalo, 8 suínos (aprox.)
  • Posição de abertura da lista = chefe da sub-comunidade do Rio do Corimbá
  • “Cél” no nome pode ser abreviatura de “Celestino” ou similar [OCR incerto]

Generozo Corimba (= Goio) — nº 5; chefe; irmão ou primo de Pedro Corimba

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “5 Generozo Corimba Goio [45] M V S 10 10”
  • fatos detectados:
  • Nome indígena: Goio
  • 45 anos em novembro de 1942 → ~54 anos em 1951 (consistente com liderança em CM-0065)
  • Viúvo/Solteiro (“V S”); pecuária: 10 bovinos, 10 suínos — maior rebanho bovino do Rio do Corimbá
  • Na família Corimba, é 10 anos mais novo que Pedro; provável irmão ou primo
  • Em CM-0065, liderava os toldos do Pinhal e Anta Gorda — dois dos três poblados de Imbira Branca

Benedito Corimba (= Acrencôn) — nº 7; cabeça de família; sub-comunidade Rio do Corimbá

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “7 Benedito Corimba Acrencôn [50] M V S 6 4 8”
  • fatos detectados:
  • Nome indígena: Acrencôn
  • 50 anos em novembro de 1942; Viúvo ou Solteiro (“V S”)
  • Pecuária: 6 bovinos, 4 cavalos, 8 suínos — segundo maior rebanho da sub-comunidade; 4 cavalos é número significativo, indicando mobilidade/transporte
  • Posição na lista (nº 7, entre Pedro e Indalecio) sugere papel de liderança familiar

Indalecio Corimba — nº 17; cabeça de família; Rio do Corimbá

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “17 Indalecio Corimba [ilegível] [40] M C 2 2 8”
  • fatos detectados:
  • Nome indígena ilegível; 40 anos; casado
  • Pecuária: 2 bovinos, 2 cavalos, 8 suínos
  • Membros do núcleo familiar incluídos: Maria Francisca (nº 18, 35 anos), Pedro (nº 19, 6 anos)

Gabriel Corimba (= Cávendim) — nº 20; cabeça de família; Rio do Corimbá

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “20 Gabriel Corimba Cávendim [35] M C [5]”
  • fatos detectados:
  • Nome indígena: Cávendim; 35 anos; casado
  • Pecuária: 5 suínos (apenas)
  • Membros do núcleo: Dulcolia Candida/Ambarcó (nº 21, 30 anos, F, C) e filhos Juvenal/Catãn (nº 22, 17), Maria Francisca/Angrambefam (nº 23, 15), Francisco/Maenquenfrencó (nº 24, 10), Ernestina/Cancrié (nº 25, 6), Antonio/Cré (nº 26, 4), Maria das Dores/Fogõe (nº 27, 4m)

Orcilio Corimba (= Joancaré) — nº 31; jovem adulto; Rio do Corimbá

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “31 Orcilio Corimba Joancaré [25] M C”
  • fatos detectados:
  • Nome indígena: Joancaré; 25 anos; casado
  • Membros: Angelina/Décpran (nº 32, 18 anos, F, S/C)

Maria Corimba (= Xuncrivam) — nº 69; 70 anos; mais velha do censo; sub-comunidade Imbira Branca

  • trechos extraídos:
  • p. 2: “69 Maria Corimba Xuncrivam 70 f v”
  • fatos detectados:
  • Nome indígena: Xuncrivam; 70 anos; viúva
  • Última entrada do censo; sobrenome Corimba = família do clã líder; provavelmente matriarca
  • Em 1951 teria ~79 anos; presença nos documentos posteriores incerta

José Luiz (= Agrenim) — nº 38; 75 anos; mais velho do censo; Imbira Branca

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “38 José Luiz Agrenim [75] M S V”
  • fatos detectados:
  • Nome indígena: Agrenim; 75 anos; Solteiro/Viúvo — mais velho do censo
  • Presença de indivíduo nesta idade indica longevidade e enraizamento histórico da comunidade

Kaingang — povo recenseado

  • trechos extraídos:
  • p. 1: nomes indígenas: “Aiquivái, Crimom, Cafaan, Goio, Fermé, Acrencôn, Quiñoro, Plaém, Crandére, Chânraton, Cranvatain, Cávendim, Ambarcó, Catãn, Angrambefam, Fogõe, Caton, Foiére, Gagré, Joancaré, Décpran, Quemqueam, Agrenim”
  • p. 2: nomes indígenas: “Creimpó, Cófur, Vitan, Moneoxó, Bungré, Póinain, Aranã, Taingó, Garitain, Dunrôrô, Canimprãn, Prequengôro, Fanguê, Xuncrivam”
  • p. 2: “Total: 69”
  • fatos detectados:
  • Fonologia e estrutura dos nomes indígenas (nasalização, africadas, vogais orais/nasais) são consistentes com a língua Kaingang (família Jê)
  • 69 indivíduos em duas sub-comunidades em novembro de 1942
  • Comunidade sedentária com pecuária estabelecida; crianças = 36% da população (25/69)
  • Chefias mantidas pela família Corimba (clã dominante)

Toldo de Imbira Branca — local do censo; sub-comunidade homônima

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “Recenseamento dos Indios do Toldo de Imbira Branca” (cabeçalho)
  • p. 1: seção “IMBIRA BRANCA” (nº 34-54 na p. 1)
  • p. 2: seção “Imbira Branca” continuação (nº 55-69) + “No Rio Imbira Branca 36”
  • fatos detectados:
  • 36 indivíduos na sub-comunidade “Imbira Branca” (nº 34-69)
  • Em 1951 (CM-0065), a área havia sido dividida em 3 poblados (Barreiro, Pinhal, Anta Gorda); em 1942, a divisão é binária (Rio do Corimbá / Imbira Branca)

Rio do Corimbá — sub-comunidade; 33 residentes

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “R I O D O C O R I M B Á” (cabeçalho da primeira seção)
  • p. 2: “No Rio Corimba 33”
  • fatos detectados:
  • Nome da primeira sub-comunidade e provável origem do sobrenome da família Corimba
  • 33 indivíduos em novembro de 1942

Juquiá — Distrito de Guarapuava (PR) — localização do toldo

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “Distrito de Juquiá – Guarapuava” (cabeçalho)
  • p. 1: “Toldo de Imbira Branca, Distrito de Juquiá, municipio de Guarapuava”
  • fatos detectados:
  • CM-0073 reconfirma a localização do Toldo no Distrito de Juquiá, Guarapuava, PR — consistente com CM-0072

Serviço de Proteção aos Índios (SPI) — instituição condutora

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “Inspetor Especializado do S.P.I.”
  • p. 1, rodapé: “Prot. 18-12-42 / J/M/A” — protocolo do SPI
  • fatos detectados:
  • O SPI conduziu o censo através de Inspetor Especializado — nível técnico elevado
  • O protocolo de dezembro de 1942 confirma incorporação do documento nos arquivos institucionais
  • A iniciativa do censo em 1942 é contemporânea ao processo de transferência fundiária de Imbira Branca (CM-0072)

Demarcação de terras indígenas — censo como instrumento de reivindicação

  • trechos extraídos:
  • p. 1: “Recenseamento dos Indios do Toldo de Imbira Branca” — levantamento demográfico formal
  • p. 2: “Soma: 69” (total populacional documentado)
  • Relação com CM-0072, p. 2: “Terras a pedir para os indios de Imbirua Branca” — iniciativa de reivindicação territorial que pressupõe levantamento populacional
  • fatos detectados:
  • O recenseamento de 1942 serve como evidência documental da ocupação indígena da área
  • A proximidade temporal com os “decretos de nacionalização” mencionados em CM-0072 sugere que o censo foi parte de uma estratégia do SPI para documentar a presença indígena durante a disputa fundiária

4. Citações ambíguas / não atribuídas

  • p. 1: “Prot. 18-12-42 / J/M/A” — iniciais do funcionário que protocolou o documento; identidade desconhecida
  • p. 1: “Doc. n.?” — número do documento em branco; exemplar pode ser cópia de trabalho sem numeração definitiva
  • p. 1: “Pedro Corimba Cél” — “Cél” pode ser abreviatura de “Celestino” ou outro nome de família/título [OCR incerto]
  • p. 1, nº 33: “Airnstides” — provável leitura OCR de “Aristides”

5. Notas de continuidade (multi-página)

Documento de 2 páginas com tabela contínua. A seção “IMBIRA BRANCA” começa na p. 1 (nº 34-54, 21 indivíduos) e termina na p. 2 (nº 55-69, 15 indivíduos). A tabela de resumo estatístico (p. 2) encerra o documento e confirma a integridade do censo: 33 + 36 = 69 total. Não há parágrafos cortados.

6. Notas do extractor

Releituras: 3 passagens completas realizadas (P1 ampla, P2 detalhada por todos os 69 indivíduos, P3 focal com análise das colunas de criação e conexão com CM-0072).

OCR e leitura: Ambas as páginas são transcrições .md (source_md_only); sem .txt de comparação. A tabela do censo é de complexa leitura por OCR — colunas desalinhadas, nomes indígenas com fonemas não-convencionais, abreviações de estado civil não padronizadas.

Colunas de estado civil: C = Casado, S = Solteiro, V = Viúvo, M = Menor (provavelmente), F = ? (ocorre em nomes muito jovens, possivelmente “falecido” ou “filhação”). Algumas entradas têm dois caracteres (e.g. “V S”, “M S”), sugerindo dois campos distintos ou ambiguidade OCR.

Colunas de criação (pecuária): O alinhamento OCR das colunas de livestock é incerto. Os números foram transcritos conforme aparecem no original, sem atribuição definitiva a cada coluna (bovinos/suínos/cavalos/aves). A presença de cavalos é incomum e indica comunidade com necessidade de transporte ou tropeirismo.

Identificação étnica: Os nomes indígenas confirmam inequivocamente a etnia Kaingang. Fonemas nasais, consoantes africadas e a estrutura de sílabas CV(N) são marcadores da língua Kaingang (família Jê-Meridional). Esta identificação resolve o apagamento_de_agentes registrado em CM-0072.

Conexão com CM-0072: CM-0073 (novembro 1942) documenta os índios Kaingang de Imbira Branca durante o mesmo período em que o Dr. Luiz Wolzki recebia a propriedade via decretos de nationalização (CM-0072, data inferida c. 1938-1945). O censo representa muito provavelmente a resposta institucional do SPI à ameaça fundiária.

Conexão com CM-0065: Pedro Corimba Aiquivao (55 anos em 1942) corresponde ao “chefe do toldo do Barreiro” de 1951 (CM-0065, p. 3). Generoso Corimba (45 anos em 1942) corresponde ao “chefe dos toldos do Pinhal e Anta Gorda” de 1951. A continuidade de lideranças ao longo de nove anos confirma a permanência da comunidade.