Resumo

O Toldo de Imbira Branca é um lugar de longa ocupação indígena que aparece no corpus sob duas perspectivas documentais separadas no tempo, em jurisdições estaduais que divergem. Na data indeterminada de CM-0072, o terreno de 4.684 alqueires conhecido como “LOGAR CHAMADO DO PIQUIRI OU IMBIRA BRANCA” estava situado no Distrito de Juquiá, Município de Guarapuava, Estado do Paraná, à margem esquerda do Rio Piquiri, sendo anunciado à venda por Dr. Luiz Wolski — enquanto os índios ali residentes reivindicavam 100 alqueires de demarcação (CM-0072, p. 1-2). Em 1951, o Levantamento da 7ª I.R. do SPI localizou o Toldo de Imbira Branca dentro das terras cedidas pelo Estado ao “Planta Juquiá” no distrito de Goio-Xim (antigo Juquiá), Santa Catarina, com três comunidades — Barreiro (chefiado por Pedro Corimba Aiquivao), Pinhal e Anta Gorda (chefiados por Generoso Corimba) — sem nenhum documento de terras (CM-0065, p. 3).

Interpretações divergentes
Jurisdição estadual: CM-0072 ([s.d.]) coloca o Toldo de Imbira Branca em Guarapuava, Estado do Paraná. CM-0065 (1951) o descreve em Goio-Xim (antigo Juquiá), Santa Catarina. A coincidência do topônimo “Juquiá” nos dois documentos (Distrito de Juquiá/PR em CM-0072; “antigo Juquiá”/SC em CM-0065) e o nome da “Empresa Colonizadora ‘Planta Juquiá'” sugerem que se trata da mesma área histórica, possivelmente reclassificada entre estados após a resolução dos conflitos territoriais PR-SC do século XX (Contestado, 1912-1916, e demarcações subsequentes). Confirmar por cartografia histórica.

Localização e contexto geográfico

Conforme CM-0072 ([s.d.]): margem esquerda do Rio Piquiri, Distrito de Juquiá, Município de Guarapuava, Estado do Paraná; a 90 km da sede municipal. O lugar era conhecido por dois nomes: “Piquiri” (pelo rio) e “Imbira Branca” (pelo toldo). Área total do terreno: 4.684 alqueires (aprox. 113.354.043 m²) (CM-0072, p. 1).

Conforme CM-0065 (1951): dentro das terras medidas e cedidas pelo Estado de Santa Catarina à Empresa Colonizadora “Planta Juquiá”, distrito de Goio-Xim (antigo Juquiá). O Barreiro fica no caminho de saída de Goio-Xim; o Pinhal, a 5-6 km; Anta Gorda, a mais 2 km do Pinhal (CM-0065, p. 3).

Histórico documentado

Censo de 1942: 69 Kaingang em duas sub-comunidades (CM-0073)

O recenseamento de 16 de novembro de 1942, conduzido por Deocleciano de Souza Nenê (“Inspetor Especializado do S.P.I.”), documentou 69 indivíduos Kaingang em duas sub-comunidades: Rio do Corimbá (33 pessoas, nº 1-33) e Imbira Branca (36 pessoas, nº 34-69). O chefe do Rio do Corimbá era Pedro Corimba (= Aiquivái), 55 anos — o mesmo que, nove anos depois, lideraria o “toldo do Barreiro” de CM-0065. O clã Corimba dominava as chefias de ambas as comunidades, com seis membros identificados: Pedro (55), Generozo (45), Benedito (50), Indalecio (40), Gabriel (35) e Orcilio (25), além de Maria Corimba (70), a mais velha do censo (CM-0073, p. 1-2).

A comunidade era sedentária com pecuária estabelecida: o maior rebanho era de Generozo Corimba (10 bovinos, 10 suínos), seguido por Benedito Corimba (6 bovinos, 4 cavalos, 8 suínos). Os 25 menores de 14 anos (36% da população) indicavam comunidade reprodutiva. Os nomes indígenas documentados — Aiquivái, Goio, Acrencôn, Xuncrivam, Plaém, Cávendim, Dunrôrô, Fanguê, entre outros — são de fonologia inequivocamente Kaingang (família Jê). O censo resolve definitivamente a questão étnica levantada em CM-0072: os “indios de Imbirua Branca” são Kaingang (CM-0073, p. 1-2).

Cadeia proprietária anterior a 1951 (CM-0072)

O documento CM-0072, de data indeterminada, registra que a área de Imbira Branca passou por pelo menos três proprietários antes de chegar ao Dr. Luiz Wolski: o Estado vendeu-a ao General Polonês Estefano Chamunski, que a transferiu à Empresa Liga-Mapítima e Colonial; os “decretos de nacionalização” — provavelmente do período Vargas (c. 1938-1945) — fizeram passar a área para o nome de Dr. Luiz Wolzki, residente em União da Vitória (PR). Em algum momento, Wolzki anunciou à venda os 4.684 alqueires integrais, prometendo demarcar apenas 100 alqueires para os índios já ali estabelecidos (CM-0072, p. 2).

O contraste é expresso nos números: 4.684 alqueires à venda; 100 alqueires prometidos — cerca de 2,1% do total. Os limites do território reivindicado para os índios eram: Rio Juti (leste), Rio dos Boços (norte), Rio do Côbre (oeste) e Serra das Araras (sul). Segundo o Sr. Córasilan Kowalski (encarregado das terras, residente em Guarambos), “As terras que os indios se acham atualmente localizados, que são as constantes neste mapa” — confirmando a presença corrente no momento da venda (CM-0072, p. 2).

Situação em 1951 (CM-0065)

No levantamento de maio de 1951, a 7ª I.R. registrou a presença de três comunidades indígenas dentro de terras cedidas à Colonizadora “Planta Juquiá”. Os índios “nada possuem de terras ali” — sem título, sem documentação, sem reconhecimento fundiário (CM-0065, p. 3). A proposta da Inspetoria era relocá-los para o P.I. José Maria de Paula, custando despesas com mudanças, construção de casas e manutenção “até haver plantas e colheita para se manterem” — sem registro de consulta aos índios (CM-0065, p. 3).

A sequência é possível: se a área passou de Wolzki para a “Empresa Colonizadora ‘Planta Juquiá'” (ou se a mesma empresa atuou sob nomes distintos em fases diferentes), CM-0072 e CM-0065 documentariam estágios consecutivos da mesma dispossessão: primeiro a venda ao proprietário titular via decretos de nacionalização; depois a transferência à colonizadora; finalmente a constatação, em 1951, de que os índios viviam sem documentação dentro das terras da empresa.

Pessoas associadas

Povos indígenas associados

  • Kaingang — identidade étnica confirmada pelos nomes indígenas do censo de 1942 (CM-0073). CM-0065 (1951) os descreve como descendentes dos que saíram do Toldo de Marrecas/P.I. José Maria de Paula. CM-0072 se referia a “os indios de Imbirua Branca” sem nomeá-los — flag apagamento_de_agentes resolvida por CM-0073.

Páginas relacionadas

A pesquisar
O remanejamento proposto em 1951 foi efetivado? Qual a etnia dos índios de Imbira Branca? A Colonizadora “Planta Juquiá” sucedeu ao Dr. Luiz Wolzki na propriedade? A “Empresa Liga-Mapítima e Colonial” tem registro cartorário no PR ou SC? A área localiza-se definitivamente no PR ou SC — confirmar por cartografia histórica.

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0065 1951-05-04 p. 3 dentro de terras cedidas pelo Estado à Colonizadora “Planta Juquiá”, distrito de Goio-Xim (SC); três poblados — Barreiro (chefe Pedro Corimba Aiquivao), Pinhal e Anta Gorda (chefe Generoso Corimba); descendentes dos que saíram do Toldo de Marrecas (P.I. José Maria de Paula); sem título de terras análise
CM-0072 [s.d.] p. 1, 2 margem esquerda do Rio Piquiri, Dist. de Juquiá, Guarapuava, PR; anúncio de venda de 4.684 alqueires; notas manuscritas: cadeia Chamunski → Liga-Mapítima → Wolzki via decretos de nacionalização; 100 alqueires prometidos aos índios análise
CM-0073 1942-11-16 p. 1-2 recenseamento de 69 Kaingang: Rio do Corimbá (33) + Imbira Branca (36); clã Corimba (Pedro, Generozo, Benedito, Indalecio, Gabriel, Orcilio, Maria); pecuária estabelecida; identidade Kaingang confirmada pelos nomes indígenas análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0065_pagina_001.md a CM-0065_pagina_003.md (3 páginas) — [s.a.]. Levantamento das terras indígenas pendentes de solução e legalização — 7ª Inspetoria Regional do SPI. Curitiba, 1951-05-04. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0072_pagina_001.md e CM-0072_pagina_002.md (2 páginas, source_md_only) — [s.a.]. Cópia de anúncio imobiliário (terras de Imbira Branca, 4.684 alqueires) e notas manuscritas sobre reivindicação indígena. [s.d.]. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0073_pagina_001.md e CM-0073_pagina_002.md (2 páginas, source_md_only) — NENÊ, Deocleciano de Souza. Recenseamento dos Indios do Toldo de Imbira Branca, Distrito de Juquiá, municipio de Guarapuava. 1942-11-16. Acervo Cildo F. S. Meireles.