Os Kayapó — grafados como Kaiapó nos documentos mais antigos do corpus, autodenominados Mebêngôkre — são um povo de língua Macro-Jê cujo território tradicional se estende pelo sul do Pará, na bacia do Rio Xingu. No corpus, aparecem em quatro documentos distintos com perspectivas radicalmente diversas: como povo com vocabulário coletado por Cildo F. S. Meireles via intérprete do SPI em 1958 (CM-0040_f); como quatro subgrupos com territórios solicitados no Município de Altamira em 1961 (CM-0098); como etiqueta classificatória num mapa de línguas sul-americanas de 1940 (CM-0133); e — o registro mais denso — como protagonistas de incursões hostis no vale do Rio Tapajós entre 1941 e 1956, incluindo expedição punitiva promovida pelo seringalista local e inquérito do SPI que não resultou em punição (CM-0140, p. 19-25).
“Kayapó” é uma designação ampla que abrange diversos subgrupos — incluindo os Xikrin, Gorotire, Mekrãgnoti e outros. O documento não especifica qual subgrupo foi consultado por Fontenelle, nem o local do encontro. A coleta ocorreu em janeiro de 1958 e o registro escrito em Brasília, outubro de 1959 (CM-0040_f, p. 1).
Os sete termos lexicais documentados pertencem ao campo semântico das armas e instrumentos: borduna, machado de pedra, lança, arco, corda de arco, flecha e capacete. A eles se soma o topônimo “Bom Fruto” — nome de um seringal à margem do Rio Kuruá, afluente do Xingu (CM-0040_f, p. 1, 21-22). A predominância de termos bélicos sugere que o encontro entre Fontenelle e Cildo pode ter ocorrido em contexto onde armas Kayapó estavam presentes para descrição.
CM-0098 — o Ofício nº 88 de Francisco Meireles ao Governador do Pará — é a fonte mais rica do corpus sobre os Kaiapós. Documenta quatro subgrupos no Município de Altamira, com populações e territórios solicitados em 1961:
| Subgrupo | Croquis | Área | População | Rio / Localização |
|---|---|---|---|---|
| Gerotire | nº 9 | 5.710 km² | 350 | Rio Fresco (afluente do Xingu) |
| Kokraimoro | nº 10 | 4.090 km² | 180 | Rio Xingu, margem direita |
| Mekranontires 1º grupo | nº 11 | 3.230 km² | 420 | Rio Iriri, margem esquerda |
| Mekranontires 2º grupo | nº 12 | 7.050 km² | 1.350 | Rio Curuá (afluente do Iriri) |
Total Kaiapó em Altamira: ~20.080 km² para 2.300 índios — “a quarta parte da população rural” do município. Também mencionados: os Kubenkrakeins (Kaiapó), que já ocupavam a reserva cedida pelo Decreto PA nº 304/1945 no Rio Fresco; e os Xicrins, para quem o Croquis nº 9 previa “futura localização” (CM-0098, p. 1, 3-4).
O documento situa os Kaiapós no Pará e associa sua geografia à bacia do Rio Xingu (Gorotire/Rio Fresco), do Rio Iriri e seu afluente Rio Curuá (Mekranontires), e ao Rio Xingu diretamente (Kokraimoro).
A versão de 1959 (CM-0040_f) situa os Kayapó genericamente no Pará e associa sua geografia à bacia do Rio Xingu, por meio da referência ao seringal “Bom Fruto” no Rio Kuruá, afluente do Xingu (CM-0040_f, p. 1, 21-22). CM-0098 provê dados populacionais e territoriais precisos para 4 subgrupos.
Os Kaiapós “viviam em constantes conflitos com seringueiros e castanheiros” na segunda metade dos anos 1950. O SPI, sob a liderança de Francisco Meireles (Chefe da 2ª IR/SPI em Belém), conduziu o processo de “pacificação” entre 1957 e 1961, quando foi dada como “definitiva”. Essa “pacificação definitiva” permitiu ao SPI levantar a população dos diferentes grupos tribais e solicitar ao Governo do Pará a reserva de ~20.080 km² no Município de Altamira para 2.300 índios (CM-0098, p. 1).
O único contato documentado no corpus é a intermediação linguística de Fontenelle, intérprete do SPI, que em janeiro de 1958 forneceu a Cildo F. S. Meireles equivalentes em Kayapó para oito termos do português. O encontro antecede em 21 meses o registro escrito (Brasília, outubro de 1959), sugerindo que Cildo manteve notas de campo antes de passá-las a limpo (CM-0040_f, p. 1).
A presença de um intérprete do SPI atuando como informante linguístico indica que o órgão mantinha relações estabelecidas com os Kayapó — ou com indivíduos que conheciam sua língua — já em 1958.
O documento mais extenso sobre os Kayapó no corpus é o artigo de Roberto Décio de Las-Casas publicado em 1964 com base em pesquisa de campo de 1959/60 no alto Tapajós. Naquele momento, as incursões Kayapó na região haviam cessado há cerca de quatro anos. Las-Casas entrevistou cinco comerciantes intermediários expulsos pelo grupo do Rio Jamaxim.
O contato hostil dos Kayapó com o seringal do Tapajós estendeu-se de 1941 a 1956. Las-Casas diz: “As primeiras mortes documentadas por nós, tiveram lugar em 1946” (CM-0140, p. 23). O deslocamento dos Kayapó para o oeste — e seu avanço sobre o Tapajós — foi causado por “conflitos intragrupais e a pressão de habitantes brasileiros do Xingu” (CM-0140, p. 19). O padrão documentado nos depoimentos: os Kayapó apareciam em vários pontos simultaneamente, bloqueavam estradas de seringueiro com cipós, roubavam alimentos e munições, e somente matavam quando atacados. O depoimento de um dos comerciantes descreve: “Os Kayapó roubavam mas não matavam. […] Deles não partia agressão, pelo menos nos casos que registrei. Se atacados matavam, matavam o agressor ou sua família.” (CM-0140, p. 23-24).
A firma seringalista recusou repetidamente apoiar expedições punitivas solicitadas pelos intermediários — por razões econômicas, não por consideração aos Kayapó. Las-Casas é preciso: “Matá-lo não seria um crime mas, um misto de auto-defesa e caçada. Porém, justamente para os donos da firma, estes estereótipos eram menos impositivos. […] mais urbanizados, sem correrem risco de morrer sabiam que o índio era ‘gente’ protegida, inclusive, por leis especiais. Seu problema era mais prático: os prejuízos seriam maiores ou menores com represálias?” (CM-0140, p. 24-25).
Quando a firma decidiu agir — após uma “sortida mais audaciosa” aos seus próprios armazéns — os Kayapó envolvidos foram eliminados. Las-Casas registra com passiva deliberada: “Os índios que realizaram o furto, nunca mais foram vistos vivos e a mercadoria furtada voltou para suas prateleiras.” Três executores são nomeados pelo primeiro nome: Carlos, Augusto e Pedro — “rastejadores de Kayapó” cujos nomes circulavam entre tripulantes da firma embriagados (CM-0140, p. 25). O SPI, inativo durante todo o período de conflito, realizou um inquérito após os fatos mas “nada fez para punir os indigítados culpados” (CM-0140, p. 25).
Las-Casas sintetiza a lógica estrutural: “só é realizada uma expedição punitiva quando o seringalista quer ou autoriza. Isto indica quem funciona na estrutura como elemento decisivo, que determina o extermínio dos índios, quando este ocorre” (CM-0140, p. 28).
Nenhuma liderança Kayapó é nomeada no documento. O texto refere-se ao povo como “Nação dos Indígenas do Pará” (CM-0040_f, p. 1).
Este é o primeiro documento do corpus a registrar Cildo F. S. Meireles em atividade de campo etnográfico. A escolha de coletar vocabulário Kayapó — em vez de produzir um relatório administrativo ou investigativo — revela uma dimensão linguística e documental de sua atuação no SPI até então não evidenciada por outras fontes.
O vocabulário Kayapó é o único registro de documentação linguística direta de Cildo no corpus. A seleção de termos (armas e ferramentas) e o lapso entre coleta e transcrição sugerem uma prática ocasional, não sistemática — mas ainda assim indicam que Cildo se engajava pessoalmente com as línguas indígenas, não se limitando às funções burocráticas ou investigativas do SPI.
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0040_f |
1959-10-07 | p. 1 | povo cuja língua foi documentada por Fontenelle e Cildo F. S. Meireles | análise |
CM-0098 |
1961-06-05 | p. 1, p. 3-4 | 4 subgrupos (Gerotire, Kokraimoro, Mekranontires 1º e 2º grupos) em Altamira; ~20.080 km² solicitados para 2.300 índios; conflito com seringueiros e castanheiros; “pacificação definitiva” (Francisco Meireles) | análise |
CM-0133 |
1940 | p. 1 | nomeado no mapa (“CAIAPO-5”) — classificado como grupo 5 (Gês e Puri-Coroados) na escola Kulturkreise | análise |
CM-0140 |
1964-10 | p. 19-25, 28-29 | incursões hostis no Tapajós (1941-1956); primeiras mortes 1946; expedição punitiva do seringalista; inquérito SPI sem punição; Las-Casas analisa a estrutura econômica que determina o extermínio | análise |
CM-0144 |
1964-10 | p. 20-26, 29 | mesma análise que CM-0140; segunda cópia física no acervo | análise |
CM-0098_pagina_001.md a CM-0098_pagina_005.md (5 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — MEIRELLES, Francisco Furtado Soares de. Ofício nº 88 (cópia). Belém: SPI/2ª Inspetoria Regional, 1961-06-05. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0140_pagina_001.md a CM-0140_pagina_034.md (34 páginas, source_md_only) — LAS-CASAS, Roberto Décio de. “Índios e Brasileiros no Vale do Rio Tapajós”. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova Série, Antropologia, N.º 23. Belém, 1964-10. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0144_pagina_001.md a CM-0144_pagina_031.md (31 páginas efetivas, source_md_only) — LAS-CASAS, Roberto Décio de. Idem. [Segunda cópia, sem inscrição.] Acervo Cildo F. S. Meireles.