Lista manuscrita de vocábulos da língua Kayapó (Kaiapó), fornecidos em janeiro de 1958 pelo intérprete do Serviço de Proteção aos Índios, Snr. Fontenelle, e registrados por Cildo Meireles em Brasília a 7 de outubro de 1959. O documento contém 7 termos para armas e instrumentos e 1 topônimo — “Bom Fruto”, seringal no Rio Kuruá, afluente do Xingú, Pará (CM-0040_f, p. 1).
2. Análise e descrição do documento
Este é o primeiro documento do corpus a registrar Cildo Meireles — o indigenista que o projeto biografa — em atividade substantiva de campo. Não se trata de um registro administrativo (como a certidão de tempo de serviço, CM-0031), mas de trabalho etnográfico/linguístico direto: a coleta de vocabulário de uma língua indígena com auxílio de intérprete do SPI.
O cabeçalho é descritivo e preciso: “Vocábulos KAIAPÓ (Nação dos Indígenas do Pará), fornecidos, em janeiro de 1.958, pelo intérprete do S.P.I., Snr. FONTENELLE, a Cildo Meireles” (CM-0040_f, p. 1, linhas 1-2). A formulação sugere que o documento foi elaborado em dois tempos: a coleta oral em janeiro de 1958, com o intérprete Fontenelle, e o registro escrito em outubro de 1959, quando Cildo já se encontrava em Brasília — a capital seria inaugurada oficialmente em abril de 1960, mas já havia presença de funcionários na cidade em construção.
O vocabulário é breve — oito itens — mas revelador. A quase totalidade dos termos coletados refere-se a armas e instrumentos:
Português
Kayapó (OCR aproximado)
Borduna
Kô – Kangóre
Machado de pedra
Koti – uá – punú
Lança (ponta chata)
Ko – cóp
Arco
Deju – dgê
Corda de arco
Deju – Dge – Dgê
Flexa
Kruá
Capacete
Dió – kó
O oitavo item — “Bom Fruto (+)” — não é um objeto, mas um topônimo: “Nome de um Seringal à margem do Rio KURUÁ, afluente do Rio Xingú, no Estado do Pará” (CM-0040_f, p. 1, linhas 21-22). A inclusão de um topônimo num vocabulário de objetos sugere que a coleta não seguia um questionário padronizado, mas fluía conforme o conhecimento do intérprete Fontenelle — possivelmente um Kayapó ou pessoa com longa convivência com o grupo.
O registro é assinado por Cildo Meireles em Brasília, 7 de outubro de 1959 — data que situa o biografado na nova capital federal antes mesmo de sua inauguração oficial, e quase dois anos após a coleta dos dados. O lapso de 21 meses entre a coleta (janeiro/1958) e o registro (outubro/1959) pode indicar que Cildo manteve os vocábulos em notas de campo e só os passou a limpo posteriormente, ou que o encontro com Fontenelle ocorreu em contexto de viagem e o registro foi feito quando Cildo se estabeleceu em Brasília.
A escolha dos itens lexicais é significativa: armas. Não são termos da vida cotidiana (comida, parentesco, natureza), mas do universo bélico e cinegético. Isso pode refletir o interesse específico de Cildo, o viés do intérprete, ou o contexto do encontro — possivelmente uma situação em que armas Kayapó estavam presentes e foram objeto de descrição.
O documento evidencia que Cildo F. S. Meireles não era apenas um administrador ou investigador do SPI, mas alguém que se envolvia diretamente com as línguas e culturas indígenas — coletando, registrando e preservando conhecimento linguístico. Este dado enriquece substancialmente o perfil do biografado.
p. 1, linha 1-2: “Vocábulos KAIAPÓ… fornecidos… pelo intérprete do S.P.I., Snr. FONTENELLE, a Cildo Meireles”
p. 1, linha 19-20: “BRASILIA, 7 de outubro de 1.959 / Cildo Meireles”
fatos detectados:
Coletou vocabulário da língua Kayapó com o intérprete do SPI Fontenelle em janeiro de 1958 (p. 1, linhas 1-2)
Registrou os dados por escrito em Brasília a 7 de outubro de 1959 (p. 1, linhas 19-20)
A atividade demonstra engajamento direto com documentação linguística indígena — dimensão da atuação de Cildo até agora não documentada no corpus (p. 1)
Grafado como “Cildo Meireles” (sem iniciais F. S.) no documento original — o contexto (SPI, 1958-1959) identifica inequivocamente o pai indigenista (p. 1, linhas 2, 20)
flags específicas:
tipo: grafia_no_documento
detalhe: “Documento original grafa ‘Cildo Meireles’ (sem iniciais F. S.). Conforme regra editorial do projeto, nas páginas do vault grafa-se ‘Cildo F. S. Meireles’ para o pai.”
Cildo Meireles praticava documentação linguística como parte de sua atuação no SPI (p. 1)
A documentação consistia em coleta de vocabulário com auxílio de intérprete e registro escrito (p. 1)
O lapso de 21 meses entre coleta e transcrição sugere que a prática não era sistemática, mas ocasional (p. 1)
4. Citações ambíguas / não atribuídas
p. 1, linha 10: “BOM FRUTO (+)” — o sinal “(+)” pode indicar nota de rodapé, destaque ou marcador de revisão. A nota associada (linhas 21-22) esclarece tratar-se de topônimo.
p. 1, linha 4: “eeBsBMeeBieBW^wwi^www^ww‘«■■■•-““” — sequência de ruído OCR que substitui o que poderia ser uma nota, uma rubrica ou um equivalente Kayapó adicional para “machado de pedra”.
Qualidade do OCR: ruim para os equivalentes Kayapó — os termos indígenas apresentam caracteres espúrios, asteriscos e acentos que provavelmente não pertencem às formas originais. A transcrição linguística exata demandaria consulta ao manuscrito original. Os cabeçalhos e dados factuais (datas, nomes, locais) estão legíveis.
Lacunas: (a) identidade completa do intérprete Fontenelle — apenas o sobrenome é fornecido; (b) formas Kayapó exatas — o OCR corrompeu os equivalentes indígenas; (c) contexto da coleta — onde Cildo e Fontenelle se encontraram em janeiro de 1958.
Importância biográfica: este é o primeiro documento do corpus que mostra Cildo F. S. Meireles em atividade substantiva de campo. Até agora, os documentos o mostravam como signatário de certidão administrativa (CM-0031) ou como residente em Brasília (CM-0031, CM-0033). CM-0040_f revela o indigenista engajado em documentação linguística — coletando vocabulário Kayapó com intérprete do SPI. O dado enriquece significativamente o perfil do biografado.
Cronologia: Cildo coletou os vocábulos em janeiro/1958 e os registrou em outubro/1959. Onde ele estava entre essas datas? O corpus ainda não cobre esse período.
Grafia: “KAIAPÓ” / “Kayapó” — o documento original grafa “KAIAPÓ” (linha 1). A grafia preferida atual é “Kayapó” ou “Mebêngôkre” (autodenominação). O vault registrará ambas como variantes.