Resumo

O corpus documenta o povo Guarani em três contextos distintos no Paraná, entre 1918 e 1960. O mais antigo (CM-0067) é o título fundiário da gleba nº 45 da Fazenda Jaboticabal da Barra Grande — 267,6 alqueires (6.475.920 m²) em Thomazina/Santo Antônio da Platina (PR) —, onde os “INDIOS GUARANYS” foram reconhecidos pelo Juízo Federal como condôminos legítimos em 1918 e receberam o território que o SPI chamaria de Posto de Indios do Pinhalzinho. O segundo contexto (CM-0065, 1951) registra os Guarani do Toldo de Rio da Areia, na comarca de Guarapuava, sem qualquer documentação fundiária. O terceiro (CM-0022, 1960) documenta uma segunda tribo Guarani no PI Mangueirinha, com gleba de 3.300 ha.

Território e organização social

Gleba nº 45 — Fazenda Jaboticabal da Barra Grande / Posto de Indios do Pinhalzinho (1918)

CM-0067 é o título fundiário primário do território Guarani em Thomazina e Santo Antônio da Platina (PR). A divisão judicial da Fazenda Jaboticabal da Barra Grande, homologada pelo Juízo Federal da Seção do Paraná em 5 de fevereiro de 1918, reconheceu os “INDIOS GUARANYS” como condôminos da fazenda e lhes atribuiu a gleba nº 45: 267,6 alqueires (6.475.920 m²), avaliada em 10:704$000 (CM-0067, p. 1). O vocabulário do documento — “pagamento da gleba […] aos condominios INDIOS GUARANYS” — diferencia esta situação de uma concessão administrativa: os Guarani eram reconhecidos como titulares de direito na partilha judicial. A planta cartográfica (1:4.000) registra “Posto de indios do Pinhalzinho / Pertencente aos indios Guaranys”, confirmando a presença de um posto do SPI na área (CM-0067, p. 4). O mesmo território é registrado em 1951 como Toldo de Pinhaisinho — sem registro em cartório, com linha sul invadida por Edmundo Douglas Hawthorne (CM-0065, p. 1).

Toldo de Rio da Areia (1951)

O levantamento da 7ª Inspetoria Regional de 1951 registrou “Os indios da tribo Guarani” em área de “mais ou menos 50 alqueires” no Toldo de Rio da Areia — na margem esquerda do Rio da Areia, perto da barra no Rio Concórdia ou Putinga, comarca de Guarapuava (PR), na divisa entre Guarapuava e União da Vitória. A Inspetoria “não possuía nenhum documento de terras” para essa área — o caso mais precário entre as onze áreas do levantamento (CM-0065, p. 3).

PI Mangueirinha (1960)

Em 1960, um documento relacionado ao PI Mangueirinha (PR) registrou uma “segunda tribo” Guarani no posto, com gleba de 3.300 Ha na Palmeirinha, às margens do Rio Iguaçu (CM-0022, p. 3, 7-8).

Litoral paulista — Santos, São Vicente, Itanhaém (1962)

CM-0097 documenta um quarto contexto: o SPI reconhecia em 1962 que índios Guaranis ocupavam terras nos municípios de Santos, São Vicente e Itanhaém, no litoral paulista, desde pelo menos 1925. O memo interno da Seção de Orientação e Assistência reconhece que o órgão “nunca se dispusera” a fazer um estudo sistemático sobre essas terras. O Governo de SP havia cedido terras em outubro de 1925 e em 1929 (com medição pelo Departamento de Colonização); o SPI fundou o Posto José de Anchieta em 1947-1948; e em 1957 o Governador Jânio Quadros ordenou nova cessão de terras. Em 1962, a situação fundiária ainda não estava regularizada (CM-0097, p. 1, 3).

Páginas relacionadas

A pesquisar
Como os Guarani se tornaram condôminos da Fazenda Jaboticabal da Barra Grande — posse anterior, compra, herança? O Toldo de Rio da Areia foi regularizado após 1951? Relação entre as três comunidades documentadas (Pinhaisinho, Rio da Areia, Mangueirinha).

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0017 1934-12-31 p005 Art. 15: “índios guaranis” na comarca de Tomazina (PR) — área a ser medida para patrimônio de cem famílias; povo não identificado além do gentílico análise
CM-0067 1919-01-03 p. 1, p. 4 “INDIOS GUARANYS” = condôminos da Fazenda Jaboticabal; gleba nº 45 = 267,6 alqueires = 6.475.920 m²; avaliação 10:704$000; sentença 5/2/1918; Posto de Indios do Pinhalzinho na planta análise
CM-0022 1960-06-20 p. 3, 7-8 segunda tribo no PI Mangueirinha (PR); gleba de 3.300 Ha na Palmairinha, às margens do Rio Iguaçu análise
CM-0065 1951-05-04 p. 3 tribo Guarani no Toldo de Rio da Areia (Guarapuava, PR / divisa com União da Vitória); aprox. 50 alqueires sem documentação fundiária na 7ª I.R. análise
CM-0076 1943-03-01 e 1950-03-15 p. 1, p. 5 100 Guarani no PI Rio das Cobras (1950); subgrupos em Mato Guarnado (~80), localidade indeterminada (~300), Guairú (~150), outra área (~20); transferência dos “guaranis do Lopez” para Mato Guarnado análise
CM-0079 1943-12 p. 15 73 Guarani no PI Xapecó (censo dez. 1943, Coronel Leodônio de Quadros) análise
CM-0097 1962-05-28 p. 1, p. 3, p. 4 Guaranis do litoral paulista (Santos, São Vicente, Itanhaém); cessões estaduais SP 1925 e 1929; Posto José de Anchieta 1947-1948; missão SPI 1957; situação não regularizada em 1962 análise
CM-0133 1940 p. 1 nomeados no mapa (“GUARANI” e “GUARANI?”) — família Tupi-Guarani (grupo 6 da legenda); dupla entrada indica incerteza do cartógrafo em pelo menos uma localidade análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0067_pagina_001.md a CM-0067_pagina_005.md (5 páginas) — VALLE, Celso David do; CRUZ, Firmino Ignácio da. Divisão da Fazenda Jaboticabal da Barra Grande — Planta e memorial da Gleba nº 45 / Certidão. Curitiba, 1918–1919 (cópia SPI: 1950-06-28). Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0065_pagina_001.md a CM-0065_pagina_003.md (3 páginas) — [s.a.]. Levantamento das terras indígenas pendentes de solução e legalização — 7ª Inspetoria Regional do SPI. Curitiba, 1951-05-04. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0097_pagina_001.md a CM-0097_pagina_004.md (4 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — Luiz di França. Informação — áreas de terras que índios Guaranis ocupam no litoral paulista. Brasília: SPI/Seção de Orientação e Assistência, 1962-05-28. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0133_f.md — BENDIX, O. Localização dos Círculos Culturais em Grupos Linguísticos na América do Sul. [s.l.], 1940. Acervo Cildo F. S. Meireles.