A documentação linguística indígena consiste na coleta, registro e preservação de vocabulários e outros dados de línguas indígenas. O corpus apresenta o tema em três escalas de sistematização distintas: um registro lexical elementar de vocábulos Kayapó feito por Cildo F. S. Meireles com auxílio do intérprete Fontenelle (CM-0040_f); e duas análises fonológicas completas produzidas pelo Museu Paraense Emílio Goeldi — a do Mura-Pirahã por Arlo L. Heinrichs do SIL (CM-0143) e a do Máku por Ernesto Migliazza (CM-0141). O contraste entre elas ilumina os modos de produção do conhecimento linguístico indígena nos anos 1950-1964: o registro ad hoc por agentes de campo do SPI e a pesquisa acadêmica sistemática promovida por instituições científicas e missões linguísticas evangélicas.
O artigo de Arlo L. Heinrichs (Summer Institute of Linguistics), publicado no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Antropologia N.º 21, em 29 de maio de 1964, descreve sistematicamente o sistema fonológico do Mura-Pirahã: 8 fonemas consonantais, 3 vogais, 3 tons, ritmo e 2 padrões silábicos (CM-0143, p. 1-9). A pesquisa foi realizada no Estirão Grande do Rio dos Marmelos em virtude do convênio Museu Nacional–SIL (CM-0143, p. 1, nota ), com um único informante principal, Bernardo, jovem de c. 15 anos (CM-0143, p. 1). A nota editorial (*) do artigo contextualiza os Mura-Pirahã com referência a Nimuendajú (1922-3: 90 indivíduos) e cita a 1.ª Reunião Brasileira de Anthropologia (1953) como base para a grafia dos etnônimos. A língua pertence à família Mura, junto com o Mura-Torá e o Mura.
A segunda e mais sistemática ocorrência é o artigo “Fonologia Máku” de Ernesto Migliazza, publicado no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi em março de 1965 (CM-0141, p. 1). A pesquisa de campo, realizada em março-abril de 1964 sob os auspícios do Museu, recolheu 629 frases e palavras da língua Máku — “triplicadamente gravadas” em fitas magnéticas, junto com cinco textos mitológicos — depositadas na Divisão de Antropologia do Museu (CM-0141, p. 2). O formulário de coleta seguiu o padrão do Museu Nacional para “estudos comparativos preliminares nas línguas indígenas brasileiras” (CM-0141, p. 1, nota 3), e as grafias dos etnônimos adotaram a proposta da 1.ª Reunião Brasileira de Antropologia de 1953 (CM-0141, p. 1, nota 1).
A urgência da documentação era explícita: a língua estava “em processo de extinção, contando somente com três falantes” (CM-0141, p. 1). Dos dez descendentes Máku encontrados, apenas Sinfrônio, Maria e Júlia falavam a língua — e o mapa de migração (p. 19) condensa o colapso demográfico em quatro pontos cronológicos terminando no “X 1964”. A análise fonológica — quinze consoantes, seis vogais, nasalização fonêmica, cinco padrões silábicos — constitui o único registro científico sistemático da língua Máku. É também a única menção a um vocabulário anterior: Rondon coletara uma lista manuscrita inédita da “Tribo Maco” (rio Branco), depositada no Arquivo da Commissão Rondon e Inspecção de Fronteiras (CM-0141, p. 1 nota 2, p. 17) — dado que antecipa a pesquisa de Migliazza por décadas.
Em janeiro de 1958, Fontenelle — intérprete do SPI — forneceu a Cildo F. S. Meireles equivalentes em língua Kayapó para oito termos do português. Os dados foram registrados por escrito em Brasília a 7 de outubro de 1959, 21 meses após a coleta (CM-0040_f, p. 1).
O vocabulário compreende sete termos para armas e instrumentos — borduna, machado de pedra, lança, arco, corda de arco, flecha, capacete — e um topônimo (“Bom Fruto”, seringal no Rio Kuruá, Pará). A seleção lexical é restrita ao campo semântico bélico-cinegético, sugerindo que a coleta não seguia um questionário padronizado, mas respondia ao conhecimento do intérprete ou às circunstâncias do encontro (CM-0040_f, p. 1, 3-22).
O método empregado — coleta oral com intérprete, seguida de transcrição — é elementar, mas revela iniciativa pessoal de Cildo em registrar conhecimento linguístico indígena. Não há indícios de que a documentação seguisse um programa institucional do SPI; parece antes um esforço individual do biografado.
Em 1961, Migliazza havia publicado “Shiriana Phonology” em coautoria com Joseph Grimes (Anthropological Linguistics, junho 1961), e em 1964 publicou “Notas Sôbre a Organização Social dos Xiriâna do Rio Uraricaá” (CM-0142) — baseado em três anos de campo entre os Xirianá sem intérprete. O artigo de 1964 documenta convenções fonológicas da língua Xirianá em nota de rodapé (p. 3, nota 7): símbolos especiais para fricativa álveo-palatal surda (x = ch de “chá”), africada álveo-palatal surda (tx), vogal alta central (u), vogal média central não-arredondada (â), fricativa glotal surda (h), nasalidade fonêmica marcada por prefixo (n). O diálogo de pedido de casamento transcrito na língua Xirianá (CM-0142, p. 15) é a única fala nativa transliterada com tradução no artigo. (CM-0142, p. 3, nota 7; p. 15)
Não há debates ou tomadas de posição explícitas sobre documentação linguística nos documentos. Todos registram práticas — uma elementar (CM-0040_f), duas sistemáticas (CM-0141, CM-0143). A justaposição no acervo de Cildo F. S. Meireles sugere interesse pela produção científica sobre línguas indígenas: os artigos de Migliazza e Heinrichs, como os de Galvão/Simões e Las-Casas, são literatura indigenista contemporânea ao trabalho do SPI nos anos 1960. O artigo de Heinrichs também documenta a presença do SIL na Amazônia via convênio com o Museu Nacional — um ator institucional com agenda própria na documentação das línguas indígenas.
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0040_f |
1959-10-07 | p. 1 | vocabulário Kayapó coletado com intérprete do SPI; evidência de documentação linguística por Cildo F. S. Meireles | análise |
CM-0142 |
1964-06-30 | p. 3 (nota 7), p. 15 | convenções fonológicas Xirianá; diálogo de casamento transliterado | análise |
CM-0143 |
1964-05-29 | p. 1-9 | análise fonológica completa do Mura-Pirahã (8 consoantes, 3 vogais, 3 tons); convênio Museu Nacional–SIL; informante Bernardo | análise |
CM-0141 |
1965-03 | p. 1-15 | análise fonológica completa da língua Máku; última sistematização antes da extinção; menciona vocabulário anterior de Rondon (inédito) | análise |
CM-0142_pagina_001.md a CM-0142_pagina_024.md (24 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — MIGLIAZZA, Ernesto. “Notas Sôbre a Organização Social dos Xiriâna do Rio Uraricaá”. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova Série, Antropologia N.º 22. Belém: CNPq/INPA/MPEG, 30 jun. 1964. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0143_pagina_001.md a CM-0143_pagina_009.md (9 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — HEINRICHS, Arlo L. “Os Fonemas do Mura-Pirahã”. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova Série, Antropologia N.º 21. Belém: CNPq/INPA/MPEG, 29 mai. 1964. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0141_pagina_001.md a CM-0141_pagina_019.md (19 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — MIGLIAZZA, Ernesto. “Fonologia Máku”. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova Série, Antropologia N.º 25. Belém: MPEG/CNPq/INPA, março 1965. Acervo Cildo F. S. Meireles.