Os Xerente são um povo indígena do tronco Jê, descritos por Bernardo Élis como “ramo dos Xavante”, habitantes da região de Tocantínia (Tocantins, antigo Goiás) “desde há mais de século” (CM-0035, p. 2, parágrafo 9). Em fevereiro de 1963, eram o alvo principal de uma ofensiva de grilagem: suas terras estavam sendo “divididas em porções de 2.000 alqueires a ricos homens de São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso” (CM-0035, p. 2, parágrafo 9). O colunista retrata os Xerente como “pessoas mais produtivas da área” — agricultores que abasteciam mercados regionais com milho, arroz, feijão, frutas e babaçu — e como exemplo da doutrina do SPI de que território + assistência geram prosperidade indígena (CM-0035, p. 2, parágrafos 12, 15).
Os Xerente habitavam a região de Tocantínia, no vale do Rio Tocantins, há mais de um século em 1963 (CM-0035, p. 2, parágrafo 9). Sete parágrafos do artigo de Élis são dedicados à sua situação, o que faz dos Xerente o povo mais detalhadamente documentado neste registro do corpus até o momento.
Sua economia combinava agricultura — “roças de milho, arroz, feijão, algumas frutas” e coleta de babaçu, cujos produtos “levam ao mercado para manutenção de parte da população regional” — com práticas tradicionais de caça, pesca e coleta “ligadas a práticas de cunho religioso, os quais exigem uma certa extensão territorial e livre trânsito pelos rios e campos” (CM-0035, p. 2, parágrafo 12). Esta descrição é notável: Élis reconhece que a territorialidade indígena não se limita à área de cultivo, abrangendo espaços de caça, pesca e rito que pressupõem “livre trânsito” — argumento que antecipa em décadas o conceito de terra indígena como espaço integral de reprodução física e cultural.
À época do artigo (1963), os Xerente eram uma população “reduzida, composta de algumas centenas de indivíduos, minados pelas doenças que lhes pregam os ‘brancos'” (CM-0035, p. 2, parágrafo 9). Apesar de sua “índole pacífica”, estavam sob ataque de grileiros que loteavam suas terras. Bernardo Élis faz um apelo direto ao SPI — chefiado em Goiás por Francisco Meireles — para que tomasse providências (CM-0035, p. 2, parágrafo 13-14). Defende que a política do SPI — “território privativo, com garantia de sossego e com uma relativa assistência material e moral” — era a que permitiria aos Xerente prosperar, citando-os como exemplo de que essa política funcionava (CM-0035, p. 2, parágrafo 15).
Nenhuma liderança Xerente é nomeada no documento.
Cildo F. S. Meireles atuou na mesma região e período. Embora o artigo de Bernardo Élis não o mencione nominalmente, o biografado investigou o massacre Krahô (ocorrido na mesma região, décadas antes) e integrava o SPI no Brasil Central. A defesa dos Xerente contra a grilagem era precisamente o tipo de ação que indigenistas como Cildo e Francisco Meireles conduziam.
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0035 |
1963-02-01 | p. 2 | vítimas de grilagem em Tocantínia — povo agricultor, “pessoas mais produtivas da área” | análise |
CM-0120 |
1962-11-21 | p. 1, item 27; p. 2, item 1 | mencionado em dois processos: SPI 3913/62 “Terras dos Cherentes” (IR8) e SPI 2.954/62 “Xerente” (IR4) — em poder de Cildo | análise |
CM-0150 |
1972 | p. 16-18 | demarcação de reserva Xerente em Goiás (Decreto 71.107/72); cacique Raimundo em audiência com Médici | análise |
CM-0035 - 0001_f.txt a CM-0035 - 0002_f.txt (2 páginas) — ÉLIS, Bernardo. Coluna de opinião. O Popular, Goiânia, 1963-02-01, p. 2. Acervo Cildo F. S. Meireles.