Resumo

Povo indígena do tronco linguístico Jê (“grupo GE”), cuja autodenominação é “Auen” (CM-0094, p. 2). O corpus os documenta em quatro momentos distintos: no mapa colonial de 1811 da Capitania de Goyaz, quando seu território na confluência Araguaia/Tocantins era chamado “Certão do Gentio Chavante” (CM-0136, p. 2); nos dados genéticos de Salzano (CM-0010); na denúncia de Bernardo Élis sobre o loteamento de suas terras pelo governo de MT em 1963 (CM-0035, p. 2); e na disputa pela reserva em Barra do Garças, com demarcação não cumprida pelo SPI (CM-0094, p. 1-2).

Território e organização social

O corpus não documenta dados sobre o território Xavante, suas aldeias ou organização social. O artigo de Salzano menciona os Xavante do “Mato Grosso” como população de estudo do trabalho de Neel et al. (1963) (CM-0010, p005-p006), mas não fornece descrição etnográfica ou geográfica.

Contatos com o indigenismo brasileiro

No plano da pesquisa genética, Francisco M. Salzano foi coautor do estudo “Studies on the Xavante Indians of the Brazilian Mato Grosso” (Neel et al., 1963), que registrou “31% de Diego positivos entre 78 Xavante” (CM-0010, p005). O dado foi usado por Salzano para contestar a hipótese de Layrisse e Wilbert, que sustentava que as primeiras populações a chegar à América do Sul seriam majoritariamente Diego-negativas (CM-0010, p005). A Tabela 2 do artigo de Salzano registra a frequência do gen Hp1 (haptoglobinas) dos Xavante em 0,455 (CM-0010, p008).

No plano do indigenismo oficial, o contato mais relevante documentado no corpus é a chamada “pacificação dos Xavante”, atribuída por Bernardo Élis a Francisco Meireles — “a quem se deve a pacificação dos Xavante” (CM-0035, p. 2). O feito era, em 1963, a credencial pública de Francisco Meireles como chefe do SPI em Goiás, reconhecida por um colunista de opinião. O termo “pacificação”, vocabulário de época, reflete a doutrina do SPI de contato e fixação territorial dos povos indígenas — no mesmo artigo, Élis defende que “uma vez os selvagens contem com um território privativo, com garantia de sossego e com uma relativa assistência material e moral, suas tribus prosperam” (CM-0035, p. 2).

Apesar da “pacificação”, as terras Xavante estavam sendo loteadas pelo governo de Mato Grosso em 1963 — simultaneamente às dos Tapirapé e outras tribos do Xingu (CM-0035, p. 2). O loteamento inseria-se no que Élis chamou de “articulação inteligente” contra os povos indígenas, “orientados todos no rumo de expulsar de suas áreas êsses últimos remanescentes brasilíndios” (CM-0035, p. 2).

Eventos e episódios documentados

  • Pacificação dos Xavante (data [s.d.]): operação de contato conduzida por Francisco Meireles, que o notabilizou como indigenista. O corpus não registra a data nem os detalhes da operação — apenas o reconhecimento público do feito por Bernardo Élis em 1963 (CM-0035, p. 2). Ver Pacificação dos Xavante.

  • Loteamento de terras Xavante pelo governo de MT (1963): “as terras dos Tapirapé, bem como as habitadas pelos Xavante e outras tribus ribeirinhas do Xingu foram loteadas pelo governo de Mato Grosso” (CM-0035, p. 2). O loteamento ocorreu apesar da “pacificação” e da presença do SPI na região.

Território documentado

A Lei nº 943/1956 de MT define a reserva Xavante no município de Barra do Garças, com limites pelo Rio das Mortes e pelo meridiano 52°. O texto da lei preserva o topônimo Xavante: o Rio Côcos é chamado de “Beracaia” (primeira palavra Xavante documentada no corpus). A lei determinou prazo de 2 anos para demarcação pelo SPI, cujo não cumprimento foi reportado por Alberico em carta de 1963 a Cildo F. S. Meireles (CM-0094, p. 1-2).

Origem e história documentada

O corpus documenta a presença Xavante na bacia Araguaia/Tocantins desde 1811. Naquele ano, o mapa cartográfico da Capitania de Goyaz registra o “Certão do Gentio Chavante” na região da confluência dos rios Maranhão (Tocantins) e Araguaia — exatamente o Bico do Papagaio —, propondo fortins militares para controlar a navegação em seu território (CM-0136, p. 2). A grafia “Chavante” é a forma colonial; os Xavante de 1811 ocupavam assim a faixa leste do Araguaia que inclui o atual norte de Goiás/Tocantins.

O documento CM-0094 registra uma narrativa histórica complementar: habitaram “a principio na regiao entre Amaro Leite e Pedro Afonso” — eixo geográfico mencionado nos “antigos mapas de Goiás” como “Xavante do Pó”, e que se articula com a localização de 1811. Foram aldeados na “Aldeia de Pedro III da Carretão”, de onde fugiram para além do Rio das Mortes, na Serra do Roncador, “isolando-se do mundo civilizado”. O isolamento foi quebrado pela “pacificação” — atribuída em CM-0035 a Francisco Meireles. O texto classifica os Xavante como da “mesma familia dos Xerentes, mesma lingua e costumes […] diferenciando-se em pouco devido ao isolamento” (CM-0094, p. 2).

Lideranças e personagens nomeados

Nenhuma liderança Xavante é nomeada no corpus.

Relação com a atuação de Cildo F. S. Meireles

Cildo F. S. Meireles não é nominalmente vinculado aos Xavante no corpus. Contudo, a “pacificação dos Xavante” foi conduzida por Francisco Meireles — sertanista de mesmo sobrenome, chefe do SPI em Goiás em 1963, e cuja relação familiar com Cildo permanece a confirmar pelos documentos (CM-0035, p. 2). Ambos atuaram no indigenismo do Brasil Central no mesmo período (SPI, décadas de 1940-1960). Caso se confirme o parentesco, a atuação de Francisco Meireles junto aos Xavante integra o contexto familiar e institucional da trajetória do biografado.

A pesquisar
Permanecem lacunas significativas. A “pacificação dos Xavante” por Francisco Meireles é mencionada mas não datada nem detalhada no corpus. O desfecho do loteamento das terras Xavante pelo governo de MT (1963) não é conhecido. Nenhuma liderança Xavante é nomeada. A relação familiar entre Francisco Meireles e Cildo F. S. Meireles carece de confirmação documental. Documentos do SPI sobre o posto indígena Xavante e a cronologia precisa do contato expandirão substantivamente esta página.

Páginas relacionadas

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0136 1811 p. 2 “Certão do Gentio Chavante” — território mapeado na confluência Araguaia/Tocantins; grafia colonial mais antiga do corpus análise
CM-0010 1963 p005, p006, p008 população estudada análise
CM-0035 1963-02-01 p. 2 terras loteadas pelo governo de MT; “pacificação dos Xavante” por Francisco Meireles análise
CM-0094 1963-09-12 p. 1-2 sujeitos principais — reserva em Barra do Garças; Lei 943/1956; demarcação não cumprida; autodenominação “Auen”; topônimo “Beracaia”; história em Goiás/Roncador análise
CM-0139 1965-02 p. 4, nota 6 menção passageira: “Xavánte do Culiseiu, pacificados pelo SPI em 1954” — distintos dos Xavánte do Araguaia/Barra do Garças análise
CM-0145 1949 p. 37, 49 “Turma Atração Xavante” (M. Grosso) — campo de aviação de 1.200 m × 100 m no P.I. Pimentel Barbosa; 93 índios assistidos no posto em 1949 análise
CM-0150 1972 p. 16-18, 70 demarcação de reservas (Decretos 71.106/72, 71.107/72, 71.05/72); audiência com Médici; 5 caciques nomeados (Adão/Areões, Parrery/Pimentel Barbosa, Aribuena/Sangradouro, Zacarias/Couto Magalhães, Apoena/São Marcos); atração dos Xavante por Israel Praxedes Batista análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0136_pagina_001.md e CM-0136_pagina_002.md (2 páginas) — [s.a.]. “Mappa que mostra a confluencia dos Rios Maranhão e Araguay”. Capitania de Goyaz, 1811. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0010_pagina_001.md a CM-0010_pagina_008.md (8 páginas) — SALZANO, Francisco Mauro. “A Origem do Homem Americano”. Revista de Antropologia, vol. 11, n.ºs 1-2, 1963, p. 1-8. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0035_f.txt e CM-0035 - 0002_f.txt (2 páginas) — ÉLIS, Bernardo. Coluna de opinião. O Popular, Goiânia, 1963-02-01. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0094_pagina_001.md e CM-0094_pagina_002.md (2 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — ALBERICO [sobrenome não identificado]. Carta a Cildo F. S. Meireles + cópia da Lei nº 943/1956. Manaus, 1963-09-12 [inferido]. Acervo Cildo F. S. Meireles.