1. Sumário do documento
Memorial de 6 de março de 1931, enviado por N. Barbosa de Guazará ao Interventor Federal Antonino Neuma Gonçalves, em defesa do território Kadiwéu (373.024 ha demarcados em 1900), documentando uma primeira tentativa de grilagem, propondo anteprojeto de ratificação e anexando cópia certificada (1925) do memorial de José de Barros Maciel (CM-0051, p. 1, 6-7, 8).
2. Análise e descrição do documento
CM-0051 é o documento mais denso e historicamente mais informado do conjunto Kadiwéu do acervo. Escrito por N. Barbosa — o mesmo autor de CM-0050, cujo nome era lido apenas parcialmente naquele documento —, o memorial de 1931 amalgama três camadas: a narrativa de defesa do presente (pp. 1-7), a documentação histórica do passado (Doc. Nº 2, pp. 8-14) e a proposta jurídica para o futuro (anteprojeto de decreto, pp. 5-7). Seu destinatário era o Interventor Federal Antonino Neuma Gonçalves, e seu produto esperado era o decreto de ratificação — que veio a ser o Decreto-Lei nº 53 de 9 de abril de 1931.
A narrativa de defesa (pp. 1-5). N. Barbosa reconstitui a história da demarcação de 1900 — remetendo o leitor aos documentos anexos — e atesta que, 30 anos depois, os Kadiwéu estavam em “plena prosperidade”, com o Posto Presidente Alves de Barros já instalado na bahia do Pitoco: cerca de mil reses, touros mestiços, um zebu puro-sangue e uma vaca do mesmo tipo, um jumento andaluz, aramados com cerca de 8 léguas de perímetro, carroças e estrada de automóvel. Esse progresso, segundo Barbosa, gerou cobiça: uma primeira tentativa de grilagem, repetida três vezes e três vezes suspensa pela Inspetoria, que fez valer o Rio Aquidauana como limite legal. O grilo usou uma subtileza técnica: tentou fazer passar a última linha da polígona auxiliar inscrita no Aquidauana como linha de limite, construindo assim uma “linha seca” que empurrava a fronteira sul para dentro do território indígena (p. 3).
Os argumentos (pp. 3-5). Barbosa apresenta dez razões para manter a reserva intacta: trinta anos de posse; prosperidade atual dos Kadiwéu; progresso da infraestrutura do Posto; a imprestabilidade de mais da metade da área durante as enchentes (a aldeia de Habique só podia ser alcançada “no lombo do boi” a partir do Posto em Pitecos); a proporção — 100 léguas para 200 pessoas — comparada com latifúndios de particulares; a comparação com as fazendas nacionais de Cassilvasco, Caissava, Boticoro e a Colônia Militar de Miranda; e, de forma destacada, o argumento de defesa nacional: as terras do Nabileque, “ao flanco vulnerável do Coutoira” (possivelmente Coimbra), guardavam o acesso à Estrada de Ferro Noroeste do Brasil pela garganta do Aquidauana e o corredor de Chatelodo até Guaycurús (p. 4-5).
O anteprojeto de decreto (pp. 5-7). Estruturado em artigos numerados com “Considerandos” formais, o anteprojeto reconhece: a posse trinta anos; a posse secular natural anterior à demarcação; a sabedoria política da demarcação de 1900 (que cessou hostilidades que chegaram a mobilizar o Exército com mortes de ambos os lados); o comportamento dos Kadiwéu; o progresso sob o SPI. Resolve confirmar e ratificar o ato de 7 de agosto de 1903, com condições: manter a Inspetoria na administração exclusiva (sem interferência estadual ou municipal); expedir títulos de lotes em usufruto inalienável; abrir estrada de automóvel até Barranco Branco; abrir outra estrada por Chatelodo até Guaycurús; produzir planta na escala 1:100.000 dentro de um ano (p. 5-7).
Doc. Nº 2 — a cópia certificada de 1925 (pp. 8-14). Aqui reside o maior valor documental de CM-0051. A cópia é uma segunda certificação do mesmo original que CM-0049 conserva como cópia de 1919 (pedida por Adriano Metello). Esta cópia de 1925, feita pelo Ajudante Miguel Maria Lisboa a pedido de N. Barbosa, contém o que CM-0049 suprimiu: a tabela completa de rumos e distâncias do Nabileque e do Aquidauana (pp. 11-13). A cópia também insere a narrativa da expedição de Maciel — como ele chegou a Corumbá, foi ao “cidadão” Mariano Rostey (director dos Índios), obteve Pedro de Souza Benevides como guia, fretou a lancha “Floriano Peixoto” da “Cavassa & Companhia”, enviou os filhos de Benevides à aldeia para convocar os Kadiwéu, visitou as posses de Malheiros (São João, Santa Cecília, Chat-Ledo), e recebeu o requerimento de José de Siqueira Braga para a legitimação do Sítio S. António.
Fragmento excepcional: a descrição da aldeia de Malique — “incendiada e destruída em mais de mil oitocentos noventa e seis pelos capatazes do Coronel Valheiros” — e o relato de como o Capitãozinho da tribo, chamado Mamila, protestava contra a ocupação de Cardoso na área de passagem para Coimbra, onde os Kadiwéu tinham um cemitério. O Capitãozinho Mamila é a primeira liderança Kadiwéu nomeada no corpus.
A cópia de 1925 também confirma a área: 373.024 hectares (dois terços capim, um terço matas — p. 14), corrigindo a cifra de 375.024 que aparece na capa do Doc. Nº 2 (p. 8) por erro de transcrição.
3. Análise por entidade
N. Barbosa — autor; inspetor/representante do SPI em Guazará
- trechos extraídos:
- p. 1: “GUAZARÁ. / N. Barbosa” [local e assinatura]
- p. 2: “Acha-se, pois, ha 30 annos os índios Cadiueiros da posse das terras que lhes foram reservadas em usufructo.”
- p. 3: “Mas a Inspectoría lhes appareceu de frente.”
- p. 5: “À guisa do ante projecto, para estudos, ouso apresentar a seguinte suggestão a favor dos índios Cadiúcos”
- p. 9: “empenhei-me em fazer o levantamento do rio Mabileque até aquelle ponto e varios outros estudos que mais cedo terei de publicar.” [voz do memorial de Maciel transcrito]
- fatos detectados: escreve de Guazará em 6 mar 1931; autor também de CM-0050 (assinatura “N. Barti[…]” naquele = “N. Barbosa” truncado); representa a Inspetoria do SPI na defesa dos Kadiwéu; escreve na primeira pessoa ao descrever os argumentos; conhece profundamente o território e a história da demarcação
- trechos extraídos:
- p. 1: “Sr. Coronel Antonino Neuma Gonçalves. / Interventor Federal no Estado do Matto Grosso.”
- fatos detectados: endereçado a este memorial em 6 mar 1931; posto de Coronel; Interventor Federal de Mato Grosso; presumivelmente o destinatário do anteprojeto de decreto que N. Barbosa propõe; distinção com “Antonio Menna Gonçalves” (signatário do Decreto-Lei nº 53 de 9 abr 1931, segundo CM-0045) — possível mudança de Interventor, ou discrepância de grafia
José de Barros Maciel — demarcador; autor do memorial original (1900)
- trechos extraídos:
- p. 1: “O demarcador, nomeado pelo Presidente do Estado, capitão de mar e guerra reformado Antonio Pedro Alves de Barros, foi o agrimensor José de Barros Maciel”
- p. 8: “feita no anno de 1900” [da medição]
- p. 11, 14: assinatura em cópia — “José de Barros Maciel” / “José de Barros Haciel” [OCR: “Haciel” = “Maciel”]
- p. 9: “empenhei-me em fazer o levantamento do rio Mabileque” [voz de Maciel na narrativa]
- fatos detectados: nomeado pelo Presidente do Estado (Antonio Pedro Alves de Barros); identificado como “agrimensor”; narrativa completa de campo em pp. 9-14 (supressa em CM-0049)
- trechos extraídos:
- p. 1: “capitão de mar e guerra reformado Antonio Pedro Alves de Barros, foi o agrimensor José de Barros Maciel”
- p. 5: “na Presidencia Alves de Barros, segundo a demarcação realizada em 1900”
- p. 8: “Capitão de Mar e Guerra Antonio Pedro Alves de Barros presidente do Estado no periodo de 1900 a 1904”
- p. 14: “Palacio da Presidencia do Estado em Cuiabá, 7 de agosto de 1905.” [OCR: “1905” = provável erro para “1903”]
- fatos detectados: agora plenamente identificado como “capitão de mar e guerra reformado” — patente naval; presidente de Mato Grosso no período 1900-1904; o Posto SPI recebe seu nome (Posto Presidente Alves de Barros)
Evaristo Joseti — Diretor de Terras; aprovou medição
- trechos extraídos:
- p. 14: “Directoria de Terras em Cuiabá, 5 de agosto de 1903. Evaristo Josotti.” [OCR: “Josotti” = “Joseti”; data “5 de agosto” vs “3 de agosto” em CM-0049 — discrepância]
- p. 14: “Recebo deste meu despacho para o Excelentissimo Senhor Coronel Presidente do Estado. Data supra. Evaristo Josotti.”
- fatos detectados: confirmado como diretor; data do despacho diverge (5 ago aqui vs 3 ago em CM-0049) — provável erro de transcrição em CM-0051
Adriano Metello — Inspector do SPI; requereu certidão de 1919
- trechos extraídos:
- p. 8: “Adriano Metello, Inspector do serviço de Protecção aos Indios neste Estado, vem requerer humildes lhe dar por certificado a copia verbo e adverbum dos autos de medição e demarcação das terras reservadas para os Indios Cadiuçus no Municipio de Corumba e a copia authentica da planta da mesma medição feita no anno de 1900. Cuiaba 28 de Fevereiro de 1919.”
- fatos detectados: título “Inspector”; requereu certidão em 28 fev 1919 (antes, só sabíamos do requerimento por CM-0045); a certidão FOI expedida (CM-0049 é o resultado); jurisdição: Mato Grosso
- trechos extraídos:
- p. 8: “Illmo. Snr. Agrimensor Octavio do Vasconcellos Neves, DD. Director da Repartição de Terras do Estado. Como requer. Ao Snr. Official Archivista para atender. Directoria de Terras 1-3-1919 – Assignado O. de E. Neves.”
- fatos detectados: Diretor da Repartição de Terras do Estado em março de 1919; deferiu o requerimento de Adriano Metello em 1 de março de 1919
Certificador da cópia de 1919 — entidade ambígua
- trechos extraídos:
- p. 8: “Antonio Ferreira da Silva, official Agricultor da Directoria de Terras Minas e Colonisação do Estado de Matto-Grosso. / Certifico…”
- p. 14: “assinatura de Antonio Pereira da Silva” [outra leitura do mesmo nome]
- fatos detectados: certificou a cópia em março de 1919; cargo: “Official Agricultor” na Directoria de Terras Minas e Colonisação; “Ferreira” (p. 8) vs “Pereira” (p. 14 e CM-0049) — discrepância não resolvida; flag
entidade_ambigua
- trechos extraídos:
- p. 14: “Cuiabá, 22 de Maio de 1925. (A) Miguel Maria Lisboa – Ajudante realido.”
- fatos detectados: certificou ESTA cópia (Doc. Nº 2 de CM-0051) em 22 maio 1925; cargo “Ajudante” na Directoria de Terras; 6 anos depois da certificação de 1919
- trechos extraídos:
- p. 8-9: “folgo presente o cidadão Pedro de Souza Benevides, conhecedor desses sertões que conviveu muito com esses selvagens, o qual assegurou-se conduzir-me aquelle resultado, enviando a aldeia seus dois filhos menores […] A comissão demarcadora, composta de camaradas e o pratico Benevides”
- p. 10: “os Cadiúcos foram-se alojar no Tigre, estabelecimento do Porto de Salvação Benavidas, a margem do Mutuca”
- p. 10: “os Cadiúcos despacharam Benovidas a pedir providencias em Miranda e nada obtendo dali, o enviaram de novo ao Rio para representá-los perante o Governo Central”
- fatos detectados: nome completo = Pedro de Souza Benevides; tinha estabelecimento chamado “Porto de Salvação” no Tigre, à margem do Mutuca; conviveu longamente com os Kadiwéu; enviou os próprios filhos como mensageiros à aldeia; foi enviado pelos Kadiwéu a Miranda e depois ao Rio de Janeiro para pedir proteção governamental — confirmando que Benevides era aliado e porta-voz dos Kadiwéu no momento de crise. Este é o mesmo “Benevides” da CM-0049, cuja “habitação” era o Tigre antes de ser expulso por Malheiros
Coronel Malheiros — antagonista; latifundiário; destruidor de Malique
- trechos extraídos:
- p. 10: “antiga aldeia de Malique construída em uma colina cercada de morretes; foi incendiada e destruida em mais de mil oitocentos noventa e seis pelos capatazes do Coronel Valheiros.”
- p. 10: “Quando foi destruido Malique, os Cadiúcos foram-se alojar no Tigre, estabelecimento do Porto de Salvação Benavidas”
- p. 10: “Mais abaixo está o Chat-Ledo, outra posse do Coronel Valheiros”
- p. 10: “antigo sitio do cerro rei Valheiros, registando em virtude da Ley de mil oitocentos e noventa e dois; tem apenas um ranchinho e esta abandonado.”
- p. 11: “dali expulsos por ordens do Coronel Mainheiros”
- p. 9: “São João ainda tem casa regular e um bom e espaçoso quintal; foi registrado por Malheiros em virtude da lei vinte de mil oitocentos e noventa e dois, mas, nem aquelle Coronel alli esteve, nem cultivou os seus campos.”
- fatos detectados: “Coronel Valheiros” / “Coronel Mainheiros” / “Malheiros” — mesmo pessoa, diferentes grafias OCR; mandou seus capatazes incendiar a aldeia Kadiwéu de Malique em 1896; expulsou Benevides do Tigre; possuía o “Chat-Ledo” (Xatelodo), o “sitio do cerro rei” e o “São João” — todos registrados pela lei de 1892 mas nunca ocupados ou cultivados; registrou terras no território Kadiwéu sem ocupação
- trechos extraídos:
- p. 9: “segui no dia vinte e oito a bordo da lancha Floriano Peixoto em busca do Tenente Branco onde devio conferenciar com o Coronel Pinheiros, confrontante dos terrenos a demarcar. A 30 de Novembro apretei-me ao Barreiro e […] fui informado que elle vivia a bordo e em um porto Paraguayo, então suspeito ao Brasil.”
- p. 9: “escrevi-lhe uma carta minuciosa, expondo os motivos de minha viagem, os limites que pretendia dar aos nossos actos, convidando-o para uma conferencia no forte de Coimbra no dia quinze de Dezembro”
- fatos detectados: confrontante dos terrenos Kadiwéu; vivia “a bordo e em um porto Paraguayo, então suspeito ao Brasil” (possível colaboração com Paraguai); Maciel não conseguiu conferenciar com ele pessoalmente; convidado para Forte Coimbra em 15 de dezembro
Mariano Rostey — “director dos Índios” em Corumbá
- trechos extraídos:
- p. 8: “Primeiramente fui o Senhor Mariano Rostey, director dos Indios e successivamente os quatro foram unanimes em affirmar que aqueles selvagens desde que se bateram a ultima vez contra o Coronel Pinheiros tinham-se retirado nas margens do Inladoque”
- p. 9: “a devolvi aos senhores Cavassa à Companhia por intermédio do senhor Mariano Rostoy que me havia acompanhado”
- fatos detectados: “director dos Índios” em Corumbá; primeira pessoa que Maciel consultou ao chegar; acompanhou Maciel no início da expedição; informou que os Kadiwéu tinham se retirado para as “margens do Inladoque” (= margem do Nabileque) após o último confronto com o “Coronel Pinheiros”
Capitãozinho Mamila — liderança Kadiwéu (1899); chefe da tribo
- trechos extraídos:
- p. 9: “O Capitãozinho, chefe da tribu, o Mamila, affirmava-me que o seu protestava contra aquella occupação por Cardoso e mais tarde por seu genro Joao Lopes, porque ali é a sua passagem para Irin a Coimbra, e onde tem cemitério atrais do morro Grande.”
- citações diretas (relato de Maciel):
“O Capitãozinho, chefe da tribu, o Mamila, affirmava-me que o seu protestava contra aquella occupação por Cardoso e mais tarde por seu genro Joao Lopes, porque ali é a sua passagem para Irin a Coimbra, e onde tem cemitério atrais do morro Grande.” — p. 9
- fatos detectados: liderança Kadiwéu em 1899, no momento da demarcação de Maciel; nome “Mamila”; título “Capitãozinho” (diminutivo respeitoso ou depreciativo usado pelo observador); protestou contra a ocupação de Cardoso/João Lopes na área de passagem para Coimbra; tinha cemitério atrás do “morro Grande”; primeira liderança Kadiwéu nomeada no corpus
Jaquinho — intermediário; “mirandense” criado entre os Kadiwéu
- trechos extraídos:
- p. 10: “Perto de Nabileque está a aldeia de Jaquinho, um mirandense, nascido e crecido entre os Cadiúcos; Fallia sua amiga e é muito seu amigo.”
- fatos detectados: “mirandense” (de Miranda) que viveu entre os Kadiwéu desde criança; tinha aldeia própria perto do Nabileque; era amigo e falante da língua Kadiwéu; “Fallia” = possivelmente nome próprio ou “fala sua língua”
Pimenta Bueno — cartógrafo; levantou mapa geral do Estado
- trechos extraídos:
- p. 9: “Confrontando as minhas observações com a carta geral do Estado, levantada por Pimenta Bueno, vi que a dita carta encerra grandes vicios nosta parte do nosso territorio.”
- fatos detectados: levantou a carta geral do Estado de Mato Grosso; Maciel encontrou erros graves na carta: posição do Mabileque (era braço, não rio), posição do Aquidhuama/Aquidauana, posição da Serra da Bodoquena; referência ao cartógrafo para contexto dos erros geográficos que complicaram a demarcação
José de Siqueira Braga — “naufragante reformado da Armada”; proprietário do Sítio S. António
- trechos extraídos:
- p. 9: “fundado pelos portugueses Jose de Siqueira Braga, naufirante reformado da Armada. Pelo mesmo senhor que alli tem fundado uma fazenda de gado, me foi apresentado um requerimento pedindo que nos termos do artigo quinto do regulamento de limites de dezembro de mil oitocentos e noventa e tres, lhe concedesse aquillo lote”
- fatos detectados: português, ex-náufrago reformado da Armada; fundou Sítio S. António no Mabileque; tinha mais de mil cabeças de gado e cavalos suficientes; pediu legitimação do lote a Maciel; Maciel reconheceu a pretensão como justa mas indecidiu por conflito com os limites Kadiwéu, remetendo ao Presidente do Estado
- trechos extraídos:
- p. 11: “foram pagos pelo collector daquella cidade Tenente Col. Salvador Augusto Moreira, conforme vossa ordem.”
- fatos detectados: posto de Tenente Coronel; collector em Corumbá; pagou as despesas da medição e demarcação dos terrenos indígenas e dos de “Jacatinga” — soma de 2:488$000 réis
Kadiwéu — povo cujas terras são defendidas; protagonistas históricos
- trechos extraídos:
- p. 1: “Em 1900 foi demarcada para usufructo dos índios Caduços uma área de terras”
- p. 2: “Acha-se, pois, ha 30 annos os índios Cadiueiros da posse das terras que lhes foram reservadas em usufructo.”
- p. 4: “aldeia de Habique, indo do Posto em Pitecos, no lombo do boi”
- p. 4: “Que são tres loguas para a criação de 200 pessoas”
- p. 5: “Art. 3º – Considerando que dito acto governamental foi de alta sabedoria politica, pois com elle cessaram as hostilidades entre Cadiúcos e civilisados, as quaes chegaram a provocar a mobilisação de Forças do Exercito com graves danos de parte a parte”
- p. 5: “Art. 4º – Considerando que a conducta desses índios correspondeu á gratidão que delles se esperava”
- p. 8: “que aqueles selvagens desde que se bateram a ultima vez contra o Coronel Pinheiros tinham-se retirado nas margens do Inladoque”
- p. 10: “Existem na aldeia quatrocentos indios, sendo duzentos homens de armas e trezentas mulheres e crianças.”
- p. 10: “Sao perfeitamente civilizados, de boa índole e muito dados ao trabalho. Cultivam o milho, o feijão, arroz e aipim, cana de assucar, e criam animais vaccum e cavallar.”
- p. 14: “vimos um grande marco que os caducões fincaram em 1896 para demarcar os seus campos”
- fatos detectados: 400 pessoas em 1899 (200 “homens de armas” + “trezentas mulheres e crianças” — texto inconsistente: 200+300=500 mas “quatrocentos” = 400); cultivavam milho, feijão, arroz, mandioca, cana; criavam gado e cavalos; aldeia de Malique destruída em 1896 pelos capatazes de Malheiros; fugiram para Tigre (estabelecimento de Benevides); depois fundaram a Aldeia Nova; enviaram Benevides a Miranda e ao Rio pedir proteção; chefe em 1899 era o “Capitãozinho Mamila”; tinham cemitério atrás do morro Grande; faziam “fazenda de bocaya” (mocuiabôle) no Chat-Ledo
- trechos extraídos:
- p. 3: “logrou a Inspectoría instalar e assistencia permanente dos Indios Cadiuços, fundando o Posto Presidente Alves de Barros, junto á bahia do Pitoco, a tres legoas afastado da serra da Bodoquena e á corca de 72 kms. de Guaycurús, R.P. Noroeste.”
- p. 3: “Cerca de mil rezes de cria; touros mestiços diversos e um Cuzorat puro sangue […] um jumento andaluz, e animais em quantidade suficiente para o trabalho do gado; varios aramados pequenos e um grande com cerca de 8 legoas de perimetro; carroças, estrada para auto”
- p. 4: “os autos já puderam descer a serra da Bodoquena e chegar ao Posto”
- p. 4: “aldeia de Habique, indo do Posto em Pitecos, no lombo do boi”
- fatos detectados: fundado pela Inspetoria após 1912 (sobretudo desde 1927); localizado junto à bahia do Pitoco; 3 léguas da Serra da Bodoquena; ~72 km da estação Guaycurús da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil; infraestrutura: ~1.000 reses, touros, zebu puro-sangue, jumento andaluz, aramados com ~8 léguas de perímetro, carroças, estrada de automóvel; denominado em homenagem a Antonio Pedro Alves de Barros
Guaycurús — estação da E.F. Noroeste do Brasil; referência geográfica
- trechos extraídos:
- p. 3: “á corca de 72 kms. de Guaycurús, R.P. Noroeste.”
- p. 5: “precipitando a cavallo pela estrada do Chutoledo e alcançando em Guaycurú a E.F.Noroeste”
- p. 6: “Dita planta sera accompagnada das cadernetas de… A Inspectoría fará outra estrada de autos desembocando em Guaycurus e subindo por Chatelodo, na serra de Bodoquena.”
- fatos detectados: estação ferroviária na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (E.F. Noroeste); referência geográfica crítica — 72 km do Posto Presidente Alves de Barros; ponto de chegada da estrada projetada por Chatelodo (Xatelodo); importância estratégico-militar: acesso rápido de invasão pelo Xatelodo ao nó ferroviário
Aldeia Malique — aldeia Kadiwéu destruída em 1896
- trechos extraídos:
- p. 10: “Pta a antiga aldeia de Malique construída em uma colina cercada de morretes; foi incendiada e destruida em mais de mil oitocentos noventa e seis pelos capatazes do Coronel Valheiros.”
- p. 10: “Fora cinco e tantas casas, todas em linha, hoje só restam os estelios que por sortes de madeira os carangues maduros o fogo não pode devorar.”
- p. 10: “Quando foi destruido Malique, os Cadiúcos foram-se alojar no Tigre, estabelecimento do Porto de Salvação Benavidas, a margem do Mutaca.”
- fatos detectados: aldeia Kadiwéu em uma colina cercada de morretes (morros); tinha “cinco e tantas casas, todas em linha”; incendiada e destruída em 1896 pelos capatazes do Coronel Valheiros (Malheiros); após a destruição, os Kadiwéu fugiram para o Tigre (Benevides)
Xatelodo — “Chat-Ledo”; posse de Malheiros; local de atividade Kadiwéu
- trechos extraídos:
- p. 10: “Mais abaixo esta o Chat-Ledo, outra posse do Coronel Valheiros, porém a excepção de um ranchinho vazio, nenhum outro vestigio apresenta de habitação humana. Chat-Ledo é o lugar onde vão os Cadiúcos fazer fazenda de bocaya, a que chamam mocuiabôle, e que se da em curto espaco de anno.”
- p. 13-14: “Tomamos depois o rumo 75º N.E. e medimos até o Cint-oído 16.000 metros. No Cint-oído” / “Do Chat-íodo tomamos o rumo leste…” [variantes de “Xatelodo” nos rumos]
- p. 14: “vimos um grande marco que os caducões fincaram em 1896 para demarcar os seus campos”
- fatos detectados: confirmado como “Chat-Ledo” / “Chat-íodo” / “Cint-oído” — posse registrada de Malheiros, nunca habitada; os Kadiwéu iam periodicamente ao Chat-Ledo para cultivar “bocaya” (mocuiabôle) — uma planta cujo ciclo é de curto prazo; em 1896, os Kadiwéu fincaram aqui um marco de demarcação de seus campos; 16.000 metros do morro Niutaca no rumo 75° NE
Forte de Coimbra — instalação militar; contexto estratégico
- trechos extraídos:
- p. 9: “convidando-o para uma conferencia no forte de Coimbra no dia quinze de Dezembro”
- p. 5: “ao flanco vulneravel do Coutoira” [variante de Coimbra]
- p. 9: “o Capitãozinho, chefe da tribu, o Mamila, affirmava-me que o seu protestava contra aquella occupação por Cardoso e mais tarde por seu genro Joao Lopes, porque ali é a sua passagem para Irin a Coimbra”
- fatos detectados: forte militar na fronteira com o Paraguai; Maciel tentou conferenciar com Coronel Pinheiros ali; usado como argumento de defesa nacional (linha Bodoquena-Coimbra); os Kadiwéu tinham um cemitério na rota de passagem para Coimbra
Aldeia Habique — aldeia Kadiwéu; inacessível durante enchentes
- trechos extraídos:
- p. 4: “só se póde alcançar a aldeia de Habique, indo do Posto em Pitecos, no lombo do boi”
- fatos detectados: aldeia Kadiwéu nas terras inundáveis; durante as enchentes, só acessível “no lombo do boi” (a cavalo em bovino) a partir do Posto em Pitecos; evidencia a baixa praticidade de grande parte das 100 léguas na estação das chuvas
- trechos extraídos:
- p. 10: “foi incendiada e destruida em mais de mil oitocentos noventa e seis pelos capatazes do Coronel Valheiros.”
- p. 10: “Quando foi destruido Malique, os Cadiúcos foram-se alojar no Tigre, estabelecimento do Porto de Salvação Benavidas”
- p. 10: “Entretanto estiverao o sendo atacados mais tarde e refugiaram a gente do Imlioiros em numero de sessenta e os perseguiram até longe.”
- p. 5: “as hostilidades entre Cadiúcos e civilisados, as quaes chegaram a provocar a mobilisação de Forças do Exercito com graves danos de parte a parte”
- p. 10: “cinco praças do Exercito, mortos no ataque de mil oitocentos e noventa e oito.”
- fatos detectados: capatazes de Malheiros queimaram a aldeia Malique em 1896; os Kadiwéu se refugiaram no Tigre (Benevides) e depois foram novamente atacados; fugiam para a Aldeia Nova; hostilidades escalaram até 1898, quando cinco soldados do Exército morreram num ataque; mobilização militar; Kadiwéu enviaram Benevides a Miranda e ao Rio de Janeiro pedir proteção; Benevides foi mandado ao Rio quando o Estado de Mato Grosso “prestava cada vez mais prestígio ao Coronel Valheiros”
- trechos extraídos:
- p. 3: “Tres vezes renovada, tres vezes suspensa a demarcação de uma área requerida dentre das terras dos Cadiuços, como si o rio Aquidauana não lhos fosse o limite legal”
- p. 3: “Tentaram fazer passar a ultima linha da polygonal auxiliar inscripta no rio Aquidauana, por linha de limite”
- p. 3: “nasceu e avolumou-se a grita contra a enormidade das terras dos Cadiuços – 100 loguas – para justificarem o assalto”
- p. 3: “Mas a Inspectoría lhes appareceu de frente.”
- p. 3: “Contrariados, augmentam hoje a grita contra o Serviço de Protecção aos Indios”
- fatos detectados: tentativa de demarcação dentro das terras Kadiwéu, repetida três vezes e suspensa três vezes pela Inspetoria; estratégia: usar a polígona auxiliar do Aquidauana como se fosse o limite real; campanha de opinião pública contra o SPI; o Memorial (CM-0051) é a resposta institucional da Inspetoria, propondo decreto de ratificação para blindar juridicamente a reserva
4. Citações ambíguas / não atribuídas
- p. 4: “latifundio do Barranco Branco, Jumento Argentino e a Fazenda Francosela” — fazendas particulares mencionadas como comparação com as “100 léguas” dos Kadiwéu; nomes dos proprietários não dados.
- p. 4: “nucleo em torno do qual se irão agrupando os Forocos e outros que sobraram de outras regiões” — “Forocos” não identificados; possível variante de “Bororos” ou outro povo Guaicuru.
- p. 5: “pois com elle cessaram as hostilidades entre Cadiúcos e civilisados, as quaes chegaram a provocar a mobilisação de Forças do Exercito com graves danos de parte a parte” — a mobilização militar das forças do Exército (provavelmente 1898 — cinco praças mortos) é confirmada em p. 10, mas a mobilização formal não é detalhada.
- p. 8: “área de 375.024 hectares” — erro de transcrição; corrigida para 373.024 ha em pp. 10 e 14.
- p. 9: “Não sendo possivel obter condução a aquelle ponto do Nabileque, fui forçado a fretar uma lancha dos Senhores Cavassa e Companhia” — “Cavassa e Companhia”: empresa de navegação em Corumbá; não identificada além desta menção.
- p. 9: “tendo passado Aquidauana aos 6.800 metros” — o “Aquidauana” aqui é o morro do Aquidauana (não o rio), ponto de referência na Serra da Bodoquena; “Nobodocana” / “Ibiradogama” / “Mbaloguene” são variantes do nome da Serra da Bodoquena nos diferentes textos.
5. Notas de continuidade (multi-página)
- pp. 1-7: Memorial principal de N. Barbosa (6 mar 1931).
- pp. 8-14: Doc. Nº 2 — cópia certificada por Miguel Maria Lisboa em 22 mai 1925, contendo:
- p. 8: Capa e resumo do Doc. Nº 2 + cópia do requerimento de Adriano Metello (1919) com despacho de Octavio Neves (1 mar 1919)
- pp. 8-10: Narrativa de campo de Maciel (expedição: Corumbá → Nabileque → polígona → Malique → Tigre → Chat-Ledo → Aquidauana)
- pp. 11-13: Tabela de rumos e distâncias do Nabileque e depois do Aquidauana (os “Rumos e Distancias” suprimidos em CM-0049)
- p. 14: Conclusão da medição (373.024 ha); assinatura de Maciel (Cuiabá, 23 fev 1900); despacho de Joseti (Cuiabá, 5 ago 1903); confirmação de Barros (7 ago 1903/1905?); autenticação de Antonio Pereira (Ferreira) da Silva (5 mar 1919); certificação de Miguel Maria Lisboa (22 mai 1925)
- Releituras: 3 passagens integrais (P1, P2, P3) via MD.
- MD como fonte primária: TXTs com OCR muito degradado para 14 páginas. Todos os MD usados; flag
ocr_consultado_md p. 1-14.
- N. Barbosa = autor de CM-0050: a assinatura “N. Barti[…]” truncada em CM-0050 p. 2 é “N. Barbosa”, agora confirmado. Ambos escritos de Guazará, em defesa dos Kadiwéu.
- CM-0051 = antecedente do Decreto-Lei nº 53 de 9 abr 1931: o anteprojeto proposto no Memorial é o instrumento que levou ao decreto de ratificação.
- Discrepância de áreas: 375.024 (p. 8 capa) vs 373.024 (pp. 10, 14, e CM-0049) — erro de transcrição na capa; 373.024 é o correto.
- Discrepância datas: Joseti assinou em “5 de agosto” (p. 14) vs “3 de agosto” (CM-0049) — provavelmente erro de transcrição.
- Antonio Ferreira da Silva vs Antonio Pereira da Silva: nome do certificador de 1919 difere entre p. 8 e p. 14 do mesmo documento. O vault usa “antonio-pereira-da-silva” — a inconsistência é interna ao CM-0051 e precisa ser verificada no original.
- “Forocos” (p. 4): não identificado; possível povo Guaicuru ou grupo indígena da região; não criada página sem mais base.
- “Intervento discrepância”: “Antonino Neuma Gonçalves” (CM-0051, 6 mar 1931) vs “Antonio Menna Gonçalves” (CM-0045, Decreto-Lei de 9 abr 1931) — possível mudança de Interventor no intervalo, ou erro de transcrição.
- Candidatos a novos tipos: não identificados.