Resumo

Nonoai é o município do noroeste do Rio Grande do Sul que abriga o Posto Indígena Nonoai (também chamado Toldo de Nonoai), área de ocupação tradicional do povo Kaingang. Ao longo de mais de duas décadas (1941-1964), o município foi palco de um dos conflitos fundiários mais documentados do indigenismo gaúcho, envolvendo arrendatários, posseiros, o Coronel Gonçalinho Curi de Carvalho, o SPI, o IGRA e o Exército (CM-0001, CM-0005, CM-0006). A cidade também foi objeto de projetos de loteamento debatidos na Assembleia Legislativa (CM-0004) e de estudo demográfico do geneticista Francisco M. Salzano (CM-0008).

Localização e contexto geográfico

Nonoai localiza-se no noroeste do Rio Grande do Sul, na região do Alto Uruguai, próxima aos municípios de Cacique Doble, Guarita, Planalto e Rodeio Bonito. A área do Posto Indígena Nonoai fazia limites com a Reserva Florestal do Estado, em uma zona de transição entre o planalto médio e as encostas do Uruguai. O documento CM-0001 registra que uma das localidades do conflito, o Passo Feio, ficava “entre a Área Indígena e a Reserva do Estado” (CM-0001, p003, parágrafo 6).

Histórico documentado

O Toldo de Nonoai sob o SPI (1941-1951)

Em 1941, a Inspectoria de Terras do Norte calculava a área do Toldo de Nonoai em lotes de “75 hectares por família e de 25 hectares por índio solteiro de mais de dezoito anos idade” (CM-0006, p012, linha 9). Em 1949, o Governo do Estado editou o Decreto 658, transformando parte da área do posto em Reserva Florestal. O ato original é o Decreto nº 658, de 10 de março de 1949, assinado pelo Governador Walter Jobim, que declarou 19.998 ha “junto ao Toldo Nonoai, no distrito de Nonoai, município de Sarandi” como reserva florestal de utilidade pública — o texto não faz qualquer referência à população indígena (CM-0013, p. 2). O número “Decreto 58 de 10 abril 49” que aparece em CM-0006 (p001) é erro de OCR; o número e a data corretos constam do ato original. O encarregado do P.I. Nonoai, Francisco José Vieira dos Santos, resistiu à expulsão dos Kaingang: “os índios só sairão depois de um entendimento em que fique também estabelecido que o Estado lhes dê morada ao saírem” (CM-0006, p008, linhas 30-31).

Movimento dos Sem Terras e escalada do conflito (1962-1963)

Em fins de 1962, o “Movimento dos Sem Terras” chegou a Nonoai, levando arrendatários a acamparem “em plena estrada” na esperança de ganharem terras (CM-0001, p003). Em fevereiro de 1963, um novo movimento no Passo Feio, liderado pelo Coronel Gonçalino Cúri de Carvalho (reformado), incitou os rendeiros a não pagarem a percentagem de 20% ao P.I. (CM-0001, p003). O Prefeito Jair de Moura Calixto participava das reuniões que coordenavam a resistência. O encarregado Acyr Barros registrou que recorreu “às autoridades de Nonoai” sem encontrar apoio (CM-0001, p003-p004).

Projetos de loteamento na Assembleia Legislativa (c. 1963-1964)

Dois projetos de lei discutidos na Assembleia Legislativa do RS mencionavam Nonoai como área de loteamento: o projeto Bresolin (CM-0003) e o PL 104/6, do deputado Cândido Norberto, que propunha “loteamento de terras em Cacique Doble, Nonoai e Guarita” (CM-0004, p001, linhas 15-17).

O confronto de Bananeiras (1964)

Em agosto de 1964, o conflito atingiu seu ponto mais crítico. O IGRA encontrou cerca de 300 homens armados em Bananeiras e Passo Feio (CM-0005, p004). O 17-RI tentara desintrusão sem sucesso. O Prefeito José Rech atuou como mediador. Cinquenta e nove pessoas foram detidas no incidente de 11 de agosto de 1964, registradas como “FATO OCORRIDO NAS BANANEIRAS DE NONOAI, AS 20.30 HS” (CM-0005, p011, linhas 10-12).

Relatório da IR.7 ao Procurador Geral do RS (1963)

Um ofício da 7ª Inspetoria Regional do SPI ao Procurador Geral do Estado do RS, assinado pelo Coordenador Chefe Israel Farrapo Machado em 14 de outubro de 1963 (CM-0113, CM-0114), fornece o retrato mais sistemático da situação de Nonoai nesse período. A área do P.I. era de 14.910 ha (resultado da partição de 1941: de 34.908 ha primitivos, 19.998 ha foram declarados Reserva Florestal pelo Decreto 658/1949). A população era de 1.411 pessoas (CM-0113, p. 4). O Decreto 13.795 de 10/7/1962 havia excluído mais 2.499 ha do Parque Florestal de Nonoai, dividindo-os em 143 lotes rurais distribuídos a posseiros (4ª Seção Planalto) (CM-0113, p. 6).

O mesmo relatório registra que o P.I. Nonoai estava sob “violenta invasão de agricultores que se intitulam ‘sem terra'”, calculada em 400 a 500 famílias (CM-0113, p. 6; CM-0114, p. 6). Mais grave: o documento admite que o SPI “fêz venda praticamente de tõda a madeira de lei de valor industrial, existente nos P.I. de Nonoai (pinheiros)”, sem registrar quantidades ou preços (CM-0113, p. 6).

A invasão de agosto de 1963 na perspectiva de Salzano (dezembro 1963)

Em 5 de dezembro de 1963, Francisco M. Salzano relatou ao Diretor do SPI, Noel Nutels, o estado da invasão em 15 itens cronológicos (CM-0002). As famílias invasoras — cerca de 500 — concentravam-se nas sub-áreas do P.I. denominadas Porongo e Pinhalzinho (CM-0002, p002). A Brigada Militar mantinha dois postos “perto da área intrusada” com missão de impedir novos ingressos, mas sem expulsar os já estabelecidos (CM-0002, p002). O Delegado Regional da SUPRA, Dr. Eliseu Torres, posicionou-se pelo “fato consumado”: “o fato está consumado. Caberia ao governo agora dar assistência a estes agricultores, embora reconheça que, como as terras pertencem aos índios, apenas através de medida legislativa poderiam as mesmas vir a ser alienadas” (CM-0002, p002). O Coordenador do IGRA, Dr. Israel F. Machado, confirmou a situação em termos semelhantes (CM-0002, p002).

Salzano registra ainda a proposta verbal — nunca formalizada — que o então Diretor do SPI Moacir R. Coelho havia feito ao governador e ao IGRA em setembro: ceder toda a área do P.I. Cacique Doble e 40-50% de Guarita ao Estado para colonização pelos sem-terras; o Estado assumiria os cinco toldos estaduais (Inhacorã, Água Santa, Ventarra, Votouro, Serrinha) e daria títulos definitivos sobre 50-60% de Guarita e toda a área de Ligeiro e Nonoai (CM-0002, p002-p003). Salzano qualificou o plano de “contraproducente, inexequível e prejudicial para os indígenas”, comparando-o com as remoções forçadas de indígenas norte-americanos (CM-0002, p003).

Estudo demográfico (1961)

Paralelamente ao conflito fundiário, Nonoai foi uma das quatro reservas Kaingang estudadas por Francisco M. Salzano no artigo “Micro-evolução em populações de indígenas Rio-grandenses” (CM-0008), que inclui fotografia de duas mulheres Kaingang de Nonoai (CM-0008, p003).

Eventos

Pessoas associadas

Povos indígenas associados

Páginas relacionadas

Apêndice — registros de documento

Código Data Pinpoint Correlação Registro
CM-0013 1949-03-10 p. 2 ato jurídico de origem da Reserva Florestal de Nonoai análise
CM-0015_f 1961-09-15 p. 1, parágrafos 1, 5 área do PL 104/60; debate em plenário — Norberto, Gosuen e outros contrários ao loteamento análise
CM-0001 1963 p003-p004 município do conflito análise
CM-0002 1963-12-05 p001-p003 reserva invadida: ~500 famílias em Porongo e Pinhalzinho; Brigada Militar; posição SUPRA de fato consumado; proposta verbal de Coelho de cessão de Guarita e Cacique Doble análise
CM-0004 [s.d.] p001 área do PL 104/6 análise
CM-0005 1964 p003-p012 palco do conflito análise
CM-0006 1941-1957 p005-p014 local do P.I. análise
CM-0008 1961 p003 reserva Kaingang análise
CM-0023_f 1961-06-24 p. 1 região de terras arrendadas pelo SPI a empresa particular; descrita como “normal” análise
CM-0024_f 1961-07-05 p. 1 PI Nonoai sem título formal de domínio; ação de imissão de posse contra arrendatária análise
CM-0025_f [s.d.] p. 1 planta cartográfica da região em escala 1:50.000 análise
CM-0113 1963-10-14 p. 1-6 P.I. Nonoai: área 14.910 ha, pop. 1.411; invasão 400-500 famílias; venda de madeira pelo SPI; Decreto 13.795/1962 análise
CM-0114 1963-10-14 p. 1-6 idem (segunda cópia; famílias = 450) análise
CM-0116 1963-11-26 p. 1-11 cronologia da invasão: ~50 (31/7) → 150 (2/8) → 900+ (20/8) → 1.000+ (21/8); Gonçalinho como “observador do governador”; Dival solicita Salzano como aliado análise
CM-0014 1960-08-27 p004, p006, p010 área real após Decreto 658/1949: 14.982 ha (não 34.980); pop. real 855 (Bresolin estimou 360); área desmembrada intrusada e devastada; 7ª IR propôs titulação definitiva análise
CM-0118 [c. 1949] p. 1 planta cartográfica 1:50.000; Toldo = 149.100.800 m² (14.910 ha); Reserva Florestal = 199.975.354 m² (19.998 ha); municípios vizinhos: Iraí, Palmeira; Rio da Várzea análise

Fontes citadas nesta página

  • CM-0001_pagina_001.md a CM-0001_pagina_011.md (11 páginas) — SOUZA, Dival José de; BARROS, Acyr; MENEGHETTI, Ildo. Dossiê de correspondência sobre o Posto Indígena Nonoai — 1963. Curitiba/Nonoai/Porto Alegre, 1963. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0004_pagina_001.md a CM-0004_pagina_002.md (2 páginas) — [s.a.]. “Recorte do Correio do Povo — Projeto de lei 104/6 sobre loteamento em Cacique Doble, Nonoai e Guarita”. Correio do Povo, Porto Alegre, [s.d.]. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0005_pagina_001.md a CM-0005_pagina_012.md (12 páginas) — GONÇALVES, Fernando. Relatório do IGRA ao Governador Ildo Meneghetti sobre o conflito fundiário no Toldo de Nonoai. Porto Alegre, 1964. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0013_pagina_001.md a CM-0013_pagina_002.md (2 páginas, transcrição limpa) — Decreto nº 658, de 10 de março de 1949. Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 1949-03-10. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0006_pagina_001.md a CM-0006_pagina_014.md (14 páginas) — CRUZ, Modesto Donatini Dias da; SANTOS, Francisco José Vieira dos; AMBROS, Artur; BAUMEL, Nelson Alcides. Dossiê de correspondência sobre a transformação da área indígena de Nonoai em Reserva Florestal (1941-1957). Nonoai/Curitiba/Rio de Janeiro/Vila Frederico Westphalen, 1941-1957. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0002_pagina_001.md a CM-0002_pagina_003.md (3 páginas, source_md_only) — SALZANO, Francisco M. Carta ao Dr. Noel Nutels, Diretor do SPI, sobre a situação dos Postos do SPI no RS e a invasão da reserva de Nonoai. Porto Alegre, 1963-12-05. Acervo Cildo F. S. Meireles.
  • CM-0008_pagina_001.md a CM-0008_pagina_006.md (6 páginas) — SALZANO, Francisco M. “Micro-evolução em populações de indígenas Rio-grandenses”. Ciência e Cultura, vol. 13, n.º 2, 1961, pp. 93-98. Acervo Cildo F. S. Meireles.