Geneticista da Seção de Genética do Instituto de Ciências Naturais da Universidade do Rio Grande do Sul, Francisco M. Salzano publicou dois artigos científicos no início dos anos 1960 que documentam sua atuação na genética de populações indígenas brasileiras. O primeiro, “Micro-evolução em populações de indígenas Rio-grandenses”, saiu em Ciência e Cultura (vol. 13, n.º 2, 1961, p. 93-98) e analisou dados demográficos e genéticos dos Kaingang nos postos de Nonoai, Guarita, Cacique Doble e Ligeiro (CM-0008, p001, p003). O trabalho foi selecionado entre os 10 finalistas do Prêmio “Progresso da Ciência” (CM-0008, p006).
Em 1963, Salzano publicou “A Origem do Homem Americano” na Revista de Antropologia (vol. 11, n.ºs 1-2, p. 1-8), artigo de síntese sobre as hipóteses de povoamento das Américas à luz da genética de populações (CM-0010, p001). No mesmo ano, foi coautor do estudo de Neel et al. sobre os Xavante do Mato Grosso, que forneceu dados sobre a frequência do antígeno Diego naquela população (CM-0010, p005-p006). Salzano publicava ainda com H. E. Sutton sobre haptoglobinas e transferrinas em populações indígenas sul-brasileiras (CM-0010, p006).
Mas a atuação de Salzano não se limitou à pesquisa acadêmica. Em 5 de agosto de 1960, mobilizou-se contra o Projeto de Lei 104/60 do deputado Antônio Bresolin, que autorizava o loteamento de áreas dos Postos Indígenas Nonoai, Guarita e Cacique Doble. Escreveu a todas as autoridades federais e à Assembleia Legislativa do RS denunciando o projeto como uma ameaça de “extinção da população indígena do Estado” (CM-0014, p003, linhas 9-10). Sua carta foi levada ao Chefe da 7ª I.R. do SPI, Dival José de Souza, pelo professor Newton Freire Maia (CM-0014, p014), e contribuiu para a rejeição do projeto em novembro de 1961 (CM-0014, p017).
Salzano situou seu trabalho no campo da teoria sintética da evolução, citando os marcos da genética populacional — R. A. Fisher (1930), Hardy-Weinberg (1908), J. B. S. Haldane, Sewall Wright e Th. Dobzhansky, cujo livro Genética e a origem das espécies (1937) considerava “ponto de partida para esta verdadeira revolução na história da Biologia” (CM-0008, p001). O artigo debruçou-se sobre os fatores da micro-evolução — “mutação, a seleção, a migração e a deriva genética” — aplicados à “população indígena do Estado do Rio Grande do Sul” (CM-0008, p001).
O trabalho comparou o “tamanho médio das famílias de Nonoai e Guarita por um lado, e Cacique Doble e Ligeiro por outro”, atribuindo as diferenças a fatores culturais que afetavam “quem se reproduzia e quais os que não se reproduziam nestas localidades, mais ou menos independentes de sua constituição genética” (CM-0008, p003). A página 3 registra a fotografia “Fig. 2: Duas índias Caingang de Nonoi, com suas filhas” — a primeira nomeação explícita do povo Kaingang no corpus (CM-0008, p003).
O artigo foi listado como item 4 entre os 10 selecionados para o Prêmio “Progresso da Ciência”, subsidiado pela firma Andrade Pedro S. A. (CM-0008, p006). A pesquisa contou com apoio da Fundação Rockefeller e da Comissão de Pesquisas da UFRGS (CM-0008, p001).
Em 1963, Salzano expandiu seu foco de análise para o continente americano como um todo. Em “A Origem do Homem Americano”, percorreu as principais hipóteses de povoamento — da tese autoctonista de Ameghino à migração mongoloide via Estreito de Behring defendida por Birdsell, passando pelas correntes alternativas de Rivet (migrações Australóide e Melanésiode), Imbelloni (sete migrações) e Greenman (rota do Atlântico Norte) (CM-0010, p001-p002). Salzano criticou o “conceito tipológico de raça”, argumentando com Bielicki (1962) que o método de “diagnose taxonômica individual” podia “detectar mistura racial em populações onde tal mistura nunca ocorreu” (CM-0010, p002). Propôs a “comparação de frequências gênicas entre populações diferentes” como único método válido, embora reconhecesse sua premissa problemática — “que as frequências de tais características permaneçam estáticas através de centenas ou milhares de anos” (CM-0010, p003).
O artigo incluiu a Tabela 2, com frequências do gen Hp1 (haptoglobinas) em dezenas de povos ameríndios — entre eles, no Brasil, os Kaingang (“Caingáng”) e os Xavante (CM-0010, p008). Salzano foi coautor do estudo de Neel et al. (1963) sobre os Xavante, que registrou “31% de Diego positivos entre 78 Xavante” e contestou a hipótese de Layrisse e Wilbert sobre a precedência de populações Diego-negativas na América do Sul (CM-0010, p005).
Em 5 de agosto de 1960, Salzano escreveu a autoridades federais e à Assembleia Legislativa do RS sobre o “projeto de lei apresentado por um deputado estadual pelo Rio Grande do Sul, que autoriza o Estado a lotear parte das reservas de Nonoai, Guarita e Cacique Doble, onde residem índios assistidos por esta Inspetoria” (CM-0014, p001, linhas 6-8). Manifestou “enorme surpresa” com o projeto e declarou que a população indígena vinha sendo “espoliada, pouco a pouco, das terras que habitam” (CM-0014, p002). Apontou que a Guarita tem a “maior população indígena do Estado (cerca de mil pessoas)” e corrigiu os números subestimados de Bresolin: Nonoai tem “cerca de 800 e não apenas 360” indígenas (CM-0014, p002, linhas 28-31). Advertiu que a aprovação do projeto “constituir-se-á num fato espantoso cuja consequência última será a extinção da população indígena do Estado” (CM-0014, p003, linhas 9-10).
Salzano encaminhou cópia da carta a “todos os líderes de bancada na Assembleia Legislativa” (CM-0014, p001). Sua carta foi levada a Dival José de Souza, Chefe da 7ª I.R. do SPI, por Newton Freire Maia (CM-0014, p014). O projeto foi rejeitado em 21 de novembro de 1961 — resultado que a documentação não atribui exclusivamente à intervenção de Salzano, mas na qual sua mobilização teve papel destacado (CM-0014, p017).
Em 22 de agosto de 1963, no pico da invasão do P.I. Nonoai, Dival José de Souza enviou um telegrama pessoal a Salzano no Instituto de Ciências Naturais (Av. Paulo Gama s/n, Porto Alegre): “LEVO CONHECIMENTO ILUSTRE PATRICIO E SINCERO DEFENSOR CAUSA INDIGENA QUE VG AREA PERTENCENTE INDIOS POSTO NONOAI VG HA DIAS ESTAH SENDO INVADIDA POR ELEMENTOS CIVILIZADOS VG CRIANDO SITUAÇÃO SUMA GRAVIDADE […] SOLICITO PRESTIGIOSA ATUAÇÃO VOSSA SENHORIA VG SENTIDO SEJAM LEVANTADAS VOZES EM DEFEZA PATRIMONIO INDIOS” (CM-0116, p. 11). O telegrama confirma a aliança entre o SPI/IR.7 e Salzano como recurso de mobilização de pressão pública.
Em 5 de dezembro de 1963, Salzano escreveu diretamente ao Diretor do SPI, Noel Nutels, respondendo a solicitação de Carlos Moreira Neto (via Newton Freire Maia) sobre a situação dos Postos do SPI no RS. A carta — 15 itens numerados — é um relato sistemático da invasão de Nonoai entre agosto e dezembro de 1963 (CM-0002, p001-p003).
Salzano relata a mobilização que liderou a partir de 23 de agosto: cartas ao governador, ao presidente da Assembleia Legislativa e a todos os deputados estaduais nos dias 26 e 27 de agosto; envio de cópias a “cerca de 30 indigenistas residentes no Brasil e em diferentes cidades da América Latina” em 30 de agosto (CM-0002, p001). A rede de resposta foi ampla: Herbert Baldus, do Museu Paulista, enviou protestos ao governador e sugeriu acionar Darcy Ribeiro, “Chefe da Casa Civil da Presidência da República e grande defensor da causa indígena” (CM-0002, p002). Em 17 de setembro, Salzano encaminhou cópias a Ribeiro. Dra. Maria J. Pourchet telegrafou ao governador em 27 de setembro; Dr. Gregorio L. Balsa, da Universidade Técnica del Altiplano, Bolivia, enviou ofício à Assembleia em 29 de setembro; Moysés Westphalen, da Escola Técnica de Viamão, desenvolveu campanha na imprensa (CM-0002, p002).
Em 4 de dezembro, véspera da carta, Salzano visitou o Delegado Regional da SUPRA, Dr. Eliseu Torres, e o Coordenador do IGRA, Dr. Israel F. Machado. O quadro que obteve: ~500 famílias instaladas em Porongo e Pinhalzinho, dentro da reserva; Brigada Militar presente mas sem expulsar ninguém; SUPRA posicionada pelo “fato consumado” (CM-0002, p002). Salzano relata também a proposta verbal (nunca formalizada) do então Diretor do SPI Moacir R. Coelho, feita em setembro: ceder Cacique Doble inteiro e metade de Guarita ao Estado em troca dos cinco toldos estaduais. Salzano qualifica o plano como “contraproducente, inexequível e prejudicial para os indígenas”, evocando o “trauma sofrido por indígenas da América do Norte quando submetidos a processo semelhante” (CM-0002, p003).
Salzano aparece no corpus em quatro facetas: como produtor de conhecimento sobre populações indígenas (CM-0008, CM-0010), como ativista da causa indígena usando sua autoridade científica para contestar projetos de loteamento (CM-0014), como aliado político do SPI/IR.7 mobilizado diretamente por Dival durante a crise de Nonoai (CM-0116), e como articulador de uma rede transnacional de indigenistas e antropólogos acionada para pressionar o governo do RS (CM-0002). Seu trabalho de 1961 é o primeiro documento a nomear explicitamente os Kaingang no acervo (CM-0008, p003). A inclusão dos Kaingang e Xavante na Tabela 2 de “A Origem do Homem Americano” (CM-0010, p008) insere essas populações num quadro comparativo pan-americano — indicativo do alcance continental que a genética de populações buscava. Sua intervenção no debate político de 1960, por sua vez, mostra um cientista engajado na defesa do direito territorial indígena, articulando-se com o SPI e a Assembleia Legislativa.
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0008 |
1961 | p001, p006 | autor do documento | análise |
CM-0010 |
1963 | p001, p006 | autor do documento | análise |
CM-0014 |
1960-1961 | p001-p003, p014 | autor do documento; autor da denúncia | análise |
CM-0116 |
1963-11-26 | p. 11 | destinatário do telegrama 82 de Dival; endereço: Instituto de Ciências Naturais, Av. Paulo Gama s/n, Porto Alegre | análise |
CM-0002 |
1963-12-05 | p001-p003 | autor do documento; relata invasão de Nonoai; mobilização de rede de indigenistas; crítica à proposta verbal de Coelho | análise |
CM-0008_pagina_001.md a CM-0008_pagina_006.md (6 páginas) — SALZANO, Francisco M. “Micro-evolução em populações de indígenas Rio-grandenses”. Ciência e Cultura, vol. 13, n.º 2, 1961, p. 93-98. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0010_pagina_001.md a CM-0010_pagina_008.md (8 páginas) — SALZANO, Francisco Mauro. “A Origem do Homem Americano”. Revista de Antropologia, vol. 11, n.ºs 1-2, 1963, p. 1-8. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0014 - 0001_f.txt a CM-0014 - 0017_f.txt (17 páginas) — SALZANO, Francisco M.; SOUZA, Dival José de; BRESOLIN, Antônio. “Dossiê de correspondência sobre o projeto de lei Bresolin — loteamento de terras indígenas (1960-1961)”. Porto Alegre/Curitiba, 1960-1961. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0002_pagina_001.md a CM-0002_pagina_003.md (3 páginas, source_md_only) — SALZANO, Francisco M. Carta ao Dr. Noel Nutels, Diretor do SPI, sobre a situação dos Postos do SPI no RS e a invasão da reserva de Nonoai. Porto Alegre, 1963-12-05. Acervo Cildo F. S. Meireles.