Unidade descentralizada do Serviço de Proteção aos Índios com sede em Goiânia, Goiás. O Regimento de 1947 define sua jurisdição: “Estado de Goiás e sudeste do Estado do Pará” (CM-0148, p. 8). É a Inspetoria Regional diretamente responsável pelos postos que assistiam os Krahô, os Apinayé, os Xerente e os Canoeiros, entre outros povos de Goiás e do norte do Tocantins — o campo de investigação central da biografia de Cildo Meireles.
Em 1949, a 8ª IR tinha 9 postos em operação, assistindo 1.235 índios (CM-0145, p. 21, 49). O Boletim de Atividades de 1949 registra postos com escola no Estado de Goiás: P.I. Rio do Sôno (108 índios, território Krahô), P.I. Apinagés (161 índios), P.I. Carajás do Sul (49 índios). O “Serviço de Atração dos Canoeiros” operava na IR8, com campo de aviação de 1.000 m × 100 m construído em 1949 (CM-0145, p. 37). A IR8 também havia construído uma estrada de 102 km ligando Aruanan (antiga Leopoldina) a Pindaíba (CM-0145, p. 35, 50).
O cadastro de postos de c. 1961-1962 (CM-0096) lista ao menos nove postos na 8ª IR, numerados na faixa dos Posts 85-93. Todos apresentavam situação fundiária irregular — “sem área” ou “sem legalização”: Post 85 (P.I. Getúlio Vargas), Post 86 (P.I. Heloísa Torres, sem área), Post 87 (P.I. Damiana da Cunha, sem área), Post 88 (P.I. Pedro Ludovico Teixeira, sem área), Post 91 (P.I. Antonio Martins Viana Estigarribia), Post 93 (P.I. Pimentel Barbosa, Decreto 909/1950) (CM-0096, p. 5). A ausência de demarcação e legalização em postos criados desde 1940-1950 espelha o padrão sistêmico documentado pela 7ª IR no Sul — e é o contexto fundiário dos Krahô na Craolândia.
A crise institucional da IR-8 durante a gestão de Malcher é o conjunto mais denso do corpus sobre a Inspetoria. O próprio Diretor, num relatório de c. 1953, declarou a IR-8 como “fracasso”, imputou a Cildo Meireles e Alísio de Carvalho um débito de Cr$ 134.172,50 de 1946/47, e registrou a contratação de funcionários acima do teto legal (CM-0155, p. 2, 7). Num relatório paralelo de 1953, Malcher descreveu “um grupo de irresponsaveis na administração da I.R.8”, listou inquéritos e remoções, e registrou os Krahô, Xerente, Apinayé, Karajá, Javaé e Canoeiros como “infelizes com os seus protetores”. O Posto Karajá na Ilha do Bananal foi retirado da jurisdição da IR-8 e subordinado diretamente à Diretoria (CM-0161, p. 2, 5-6).
As defesas de Cildo inverteram o diagnóstico: o “fracasso” foi produto de decisões deliberadas da Diretoria. Malcher havia reduzido a jurisdição da IR-8, cortando os setores Araguaia e Rio das Mortes e mantendo apenas o Tocantins (CM-0159, p. 4). O resultado foi concreto: Xerente chegavam “em massa” à sede em Goiânia sem assistência; o Posto Apinagés tinha salários atrasados; a dotação de Cr$ 2.000.000 para compra de gado para os Krahô da Craolândia caducou por inação da Diretoria (CM-0159, p. 9, 15-16; CM-0162, p. 7-8). Leonardo Villas-Boas foi designado delegado da IR-8 em Goiás sem obediência à hierarquia regular, levantando mais de Cr$ 400.000 em material da IR-8 para o P.I. Getúlio Vargas (CM-0162, p. 11). A Diretoria deixou sem resposta os requerimentos de compra de terras Karajá na Ilha do Bananal — situação que culminou num incêndio “propositadamente ateado” ao Posto, destruindo seu arquivo (CM-0162, p. 15).
O Inquérito Administrativo (Portaria 57/1952) gerou dois documentos de defesa de Cildo: a peça de 13 de abril, endereçada ao Ministro da Agricultura, e a de 17 de abril, remetida com cópia ao CNPI — recurso a Rondon como instância paralela à hierarquia do SPI. Em outubro de 1952, Cildo ainda assinava correspondências como Chefe da I.R. 8 em Goiânia (CM-0158, p. 1; CM-0159, p. 1; CM-0162, p. 1).
A Craolândia — território Krahô em Goiás — estava sob jurisdição da 8ª IR. Em 1962-1963, Cildo Meireles tinha em sua guarda, na sede do SPI em Brasília, ao menos dois processos fundiários da IR8 relativos aos Krahô: SPI 4383/57 e SPI 1575/57 (CM-0120, p. 1, itens 16-17). O processo SPI 3913/62 “Terras dos Cherentes” (Xerente) também era da IR8 (CM-0120, p. 1, item 27). Esses processos situam o trabalho de Cildo no SPI central como ponto de convergência entre a IR8 e a investigação do massacre no Bico do Papagaio.
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0148 |
1947 | p. 8 | Regimento do SPI: Art. 3 — “8a Inspetoria Regional (I.R. 8), com sede em Goiânia (Goiás) e jurisdição sôbre o Estado de Goiás e sudeste do Estado do Pará” | análise |
CM-0145 |
1949 | p. 21, 35, 37, 49, 50 | 9 postos, 1.235 índios assistidos; P.I. Rio do Sôno (108), Apinagés (161), Carajás do Sul (49); Serviço de Atração Canoeiros; estrada 102 km | análise |
CM-0153 |
1949-01-17 | p. 4, 7, 9, 15, 20 | I.R.-8 como instituição; Cildo como “Escriturário classe G”; Chefe da I.R.-8 (anônimo, adversário das aldeias Krahô); 4 postos Krahô; cópia do memorial presenteada à I.R.-8 em 1951 | análise |
CM-0163 |
1949-01-17 | p. 1-2, 6, 24 | destino desta cópia (doada pela Biblioteca Krahô “António Estigarribia” à I.R.-8, Goiânia, 14/VI/1951, p. 2); Chefe da I.R.-8 ameaçou ceder parte da Craolândia a Itacajá (p. 6, 24) | análise |
CM-0096 |
[c. 1961-1962] | p. 5 | Posts 85-93: Getúlio Vargas, Heloísa Torres, Damiana da Cunha, Pedro Ludovico Teixeira, Estigarribia, Pimentel Barbosa — todos sem área demarcada | análise |
CM-0155 |
[c. 1953] | p. 2, 7 | IR-8/Goiás declarada “fracasso” pelo Diretor; débito Cr$134.172,50 (1946/47) atribuído a Cildo Meireles e Alísio de Carvalho; funcionários contratados a Cr$1.000/mês acima do teto legal | análise |
CM-0158 |
1952-1953 | p. 1, 4-5 | Cildo como Chefe da I.R. 8 em Goiânia (ainda em outubro de 1952, durante o inquérito); sede do ofício a Rondon e dos recursos ao Ministro | análise |
CM-0160 |
1952-10-25 | p. 4 | segunda digitalização; Cildo como “Chefe da I.R. 8.º” respondendo a inquérito administrativo | análise |
CM-0159 |
1953-04-13 | p. 1, 4, 9, 15-16 | Cildo como Chefe; jurisdição original Tocantins/Araguaia/Rio das Mortes reduzida a Tocantins por Malcher; subfinanciamento crónico em 1951-1952; Xerente em massa na sede; Posto Apinagés sem salários | análise |
CM-0161 |
1953 | p. 2, 5-6 | “fracasso” declarado; “Um grupo de irresponsaveis na administração da I.R.8” com inquéritos e remoções; Krahô, Xerente, Apinayé, Karajá, Javaé, Canoeiros “infelizes com os seus protetores”; Posto Karajá/Bananal subordinado diretamente à Diretoria | análise |
CM-0162 |
1953-04-17 | p. 1-22, passim | defesa de Cildo como Chefe da IR-8; denúncia de irregularidades de Malcher: recomendação de não assistir os Xavante, designação irregular de Leonardo Villas Boas como delegado, corte de suprimentos; Xerente chegavam diariamente em Goiânia buscando assistência; dotação de Cr$ 2.000.000 caducou; processos SC-16.313 e SPI-1992/52 | análise |
CM-0145_pagina_035.md, CM-0145_pagina_037.md, CM-0145_pagina_049.md, CM-0145_pagina_050.md — SPI. Atividades do S.P.I. Boletim de Atividades 1949. Rio de Janeiro: MA/SPI, 1949. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0153 - MEMORIAL_pagina_001.md a CM-0153 - MEMORIAL_pagina_023.md (23 páginas) — MEIRELES, Cildo. Memorial sobre a situação jurídica das terras da Craolândia. Curitiba, 1949-01-17. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0155-DIFICULDADES_pagina_001.md a CM-0155-DIFICULDADES_pagina_013.md (13 páginas, source_md_only) — [s.a., inferido: Diretor do SPI c. Gama Malcher]. “Dificuldades Administrativas.” [s.l.: Rio de Janeiro?], [c. 1953]. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0158 - RECURSO_pagina_001.md a CM-0158 - RECURSO_pagina_005.md (5 páginas, transcrição limpa — sem TXT) — MEIRELES, Cildo Furtado Soares de. Conjunto de peças processuais (ofício + 2 recursos). Goiânia, 1952-05-26 a 1953-02-23. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0159_pagina_001.md a CM-0159_pagina_021.md (21 páginas, source_md_only) — MEIRELES, Cildo Furtado Soares de. Defesa no Processo Administrativo SPI (Portaria 57/1952). Goiânia, 1953-04-13. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0161_pagina_001.md a CM-0161_pagina_012.md (12 páginas, source_md_only) — [s.a., inferido: MALCHER, José Maria da Gama]. “Dificuldades Administrativas.” In: Relatório Anual do SPI 1953. Rio de Janeiro [inferido]: SPI, 1953. Acervo Cildo F. S. Meireles.CM-0162_pagina_001.md a CM-0162_pagina_022.md (22 páginas, source_md_only) — MEIRELES, Cildo Furtado Soares de. “DEFESA” — peça de defesa no Processo Administrativo (Portaria 57/1952). Goiânia, 1953-04-17. Acervo Cildo F. S. Meireles.