Em 1896, os capatazes do Coronel Malheiros (referido como “Valheiros” e “Mainheiros” nos documentos) incendiaram e destruíram a aldeia Kadiwéu de Malique, construída numa colina cercada de morretes com “cinco e tantas casas, todas em linha” (CM-0051, p. 10). O episódio desencadeou uma crise que durou até 1898: os Kadiwéu refugiaram-se no Tigre (estabelecimento de Pedro de Souza Benevides), sofreram novos ataques, fundaram a Aldeia Nova, e eventualmente enviaram Benevides ao Rio de Janeiro para pedir proteção ao Governo Central. Em 1898, cinco praças do Exército morreram num dos confrontos (CM-0051, p. 10).
O Coronel Malheiros possuía posses na região do Nabileque — registradas mas não ocupadas ou cultivadas: o “São João” (lei de 1892), o Chat-Ledo (Xatelodo) e um “sítio do cerro” (CM-0051, p. 9-10). Com o crescimento da presença Kadiwéu na área e o sucesso de suas lavouras, a pressão sobre o território aumentou. O Estado de Mato Grosso “prestava cada vez mais prestígio ao Coronel Valheiros” em detrimento dos indígenas (CM-0051, p. 10).
Os capatazes de Malheiros incendiaram a aldeia Malique em Maio de 1896 (CM-0052, p. 4). A aldeia tinha “cento e tantas casas, todas em linha” (CM-0052, p. 4). Quando Maciel a visitou em 1899, só restavam os esteios de madeira de carandaes que o fogo não pôde devorar (CM-0051, p. 10).
Os Kadiwéu fugiram para o Tigre, estabelecimento de Pedro de Souza Benevides à margem do Mutuca. Lá se entrincheiraram e, quando Malheiros enviou 60 homens para atacar: “rechaçaram a gente de Malheiros em numero de secenta e os perseguiram até longe” (CM-0052, p. 4) — resistência ativa documentada. Foram, entretanto, novamente atacados em encontros posteriores.
Exaustos e perseguidos, os Kadiwéu fundaram a Aldeia Nova “quasi na foz da Serra da Mbaloguene [Bodoquena]” (CM-0051, p. 10).
“Desesperados e destituídos de recursos e amedrontados, os Cadiúcos despacharam Benovidas a pedir providencias em Miranda e nada obtendo dali, o enviaram de novo ao Rio para representá-los perante o Governo Central e pedir-lhe protecção, já que o Estadual uma vez de protege-los prestigiava cada vez mais o Coronel Valheiros.” (CM-0051, p. 10)
“Diversos outros encontros tiveram, perecendo em alguns não so Cadiúcos, mais brasileiros, civilisados, bem como os cinco praças do Exercito, mortos no ataque de mil oitocentos e noventa e oito.” (CM-0051, p. 10). A morte de soldados levou à “mobilisação de Forças do Exercito com graves danos de parte a parte” (CM-0051, p. 5). Este confronto é mencionado no anteprojeto de 1931 como evidência de que a demarcação de 1900 foi “de alta sabedoria politica, pois com ella cessaram as hostilidades”.
A demarcação de 1900 pôs fim às hostilidades — a “cesação das hostilidades” é mencionada expressamente como consequência positiva do ato governamental (CM-0051, p. 5).
| Código | Data | Pinpoint | Correlação | Registro |
|---|---|---|---|---|
CM-0051 |
1931-03-06 | p. 5, 10 | evento fundante da crise Kadiwéu 1896-1898; contexto da demarcação de 1900 | análise |
CM-0052 |
1925-05-22 | p. 1, 4 | Malique destruída em Maio 1896; “cento e tantas casas”; Kadiwéu repeleram 60 homens de Malheiros no Tigre | análise |
CM-0051_pagina_001.md a CM-0051_pagina_014.md (14 páginas, transcrição limpa) — N. BARBOSA. Memorial ao Interventor Federal. Guazará, 1931-03-06. Acervo Cildo F. S. Meireles.