Data[s.d.] — compilação ca. 2005; docs internos: 1905-2005
Autor(a)[s.a.] — compilação FUNAI/AER Araguaína; múltiplos autores internos
TipologiaDossiê administrativo — compilação multi-período

1. Sumário do documento

Dossiê administrativo de 222 páginas compilado pela FUNAI (AER Araguaína, Tocantins) ca. 2005, reunindo documentação sobre a Terra Indígena Kraolândia / Craolândia — território do povo Krahô no norte de Goiás (atual Tocantins). O núcleo histórico do dossiê são correspondências, memoriais e telegramas de Cildo F. S. Meireles, Chefe da 8ª Inspetoria Regional do SPI (Goiânia, 1941-1944) e depois de Curitiba (1948-1949), que narram a série de massacres dos Krahô entre 1809 e 1940 e a campanha pelo Decreto-Lei estadual nº 102/1944 — concessão de 319.827 ha à tribo. O dossiê inclui ainda levantamento de invasores da TI (1968/69), contrato PLANTEL Ltda de levantamento fundiário (1975) com medição definitiva de 302.533 ha, e pedido de registro imobiliário ao DPU em 2005 (CM-0154, p. 1-222).

2. Análise e descrição do documento

O dossiê é uma compilação administrativa de propósito instrumental: reúne, em ordem aproximadamente reversa, a documentação necessária para fundamentar o registro fundiário da TI Kraolândia junto à Defensoria Pública da União em 2005. A estrutura resultante é estratigráfica — o leitor topa primeiro com documentos de 2005, depois com os de 1975, 1968, 1944, 1941, e finalmente com os mais antigos —, mas a narrativa histórica que o conjunto produz é coerente e progressiva: do massacre de 1809 à homologação de 1990, passando pela concessão estadual de 1944 e pela demarcação federal de 1975-1986.

O coração documental do dossiê é um conjunto de cartas, telegramas e memoriais produzidos por Cildo F. S. Meireles entre março de 1941 e janeiro de 1949. A identificação de Cildo como autor exige atravessar a degradação sistemática do OCR: ele aparece como “Gildo Meireles” (p. 127, 134, 136), “Clídio Morelles” (p. 160), “Cildo Noiroles” (p. 165, endereço da carta), “Cildo Menezes” (p. 177), “Cilio Virtúrio Soares de Menezes” (p. 119), “GILDO MEIRELLES” (p. 144), “CÉLIO MOREIRA” (p. 135) e “Gildo Morelos” (p. 135). O elo mais seguro é a carta de 15 de agosto de 1944 ao Diretor do SPI José Maria de Paula: assinada por “Gildo Meireles, Chefe da 8ª I.R.” (p. 127). Os telegramas do mesmo dia, assinados “Gildo Morelos” e “CÉLIO MOREIRA” (p. 134-135), anunciam a publicação do DL 102/1944 no Diário Oficial de Goiás. A carta pessoal de 30 de março de 1941 a “Neto Cabral” — Lourival da Mota Cabral, figura identificada em outros documentos do corpus —, assinada “Gildo Meireles” (p. 136), revela a política interna do SPI na alocação de verbas e funcionários para o caso Krahô. O memorial de 17 de janeiro de 1949, assinado “(a) Clídio Morelles” e datado de Curitiba (p. 160), confirma que em 1948-1949 Cildo estava lotado na IR7 (Curitiba), possivelmente como substituto ou colaborador.

O nexo causal entre massacres e concessão de terras é explicitado pelo próprio Cildo. No documento de p. 142 (memorial ca. 1944), ele escreve que o massacre de 1940 “emocionou todo o País, predispondo as autoridades a uma solução reparadora e justa” — a concessão estadual. No memorial de 1949 (p. 150-153), a história da violência contra os Krahô é narrada como série de ao menos três ondas: (1) massacre de 1809, perpetrado por Manoel José da Assunção; (2) massacre de ca. 1910, que motivou a primeira demarcação da Craolândia; (3) massacre de 1940, promovido pelos herdeiros de Agostinho Soares — sendo Raymundo Soares descrito como “o mais poderoso e rancoroso inimigo dos CRAÔS” (p. 153). A teoria jurídica que Cildo constrói para fundamentar o DL 102/1944 é a do “domínio particular” (direito privado) da tribo — não mera tutela estatal — com apoio em Clóvis Beviláqua e acórdãos do Tribunal de Justiça de São Paulo de 1931 e 1936 (p. 159).

O Decreto-Lei nº 102, assinado em 5 de agosto de 1944 por Pedro Ludovico Teixeira (Interventor Federal de Goiás) e João Teixeira Álvares Júnior (Secretário), publicado no Diário Oficial do Estado de Goiás (Ano I, Nº 156, p. 1) em 10 de agosto de 1944, consta em texto aparentemente integral na p. 166. Concede 319.827 ha de terras devolutas no Distrito de Itacajá, Município de Pedro Afonso. A autorização prévia de Getúlio Vargas é mencionada no processo. A p. 177 traz um “Guia de Recolhimento” assinado por “(Cildo Menezes)” — OCR de Cildo F. S. Meireles — na qualidade de Escrivário SPI, com data de 28 de maio de 1943, no valor de Cr$15.000, referente ao levantamento cartográfico da Craolândia. Este pagamento confirma que Cildo coordenou o levantamento topográfico que antecedeu o DL 102.

O levantamento de invasores de 1968-1969 (p. 60-80) cataloga mais de oitenta ocupantes não-indígenas com nomes, localidades, glebas e extensões dentro dos limites da TI. Documento de caráter puramente funcional — lista burocrática sem narrativa —, mas de alto valor evidencial: registra o estado de invasão fundiária duas décadas após a concessão de 1944, documentando que o DL 102 não foi suficiente para garantir a posse Krahô. Os Krahô expropriados não são identificados nominalmente.

O levantamento PLANTEL (1975) é o segundo núcleo técnico do dossiê. O contrato entre FUNAI e PLANTEL Ltda (p. 183), assinado pelo Departamento do Patrimônio Indígena/FUNAI, define os termos do levantamento topográfico e jurídico da TI. O “Atestado” final (p. 213) registra área medida de 302.533 ha — divergência de aproximadamente 17.000 ha em relação aos 319.827 ha do DL 102. O relatório de inspeção do FUNAI (p. 214-220), assinado por “SERGIO DE [ilegível]” em Brasília, 24 de setembro de 1975, confere 50% dos trabalhos e registra diversas inconformidades técnicas.

Interpretações divergentes
Área da TI Kraolândia: quatro medições distintas aparecem no corpus:
— DL 102/1944: 319.827 ha (texto do decreto, p. 166)
— PLANTEL 1975 (contrato): menciona 317.827 ha em uma versão (p. 184) e 319.827 ha em outra (p. 166)
— PLANTEL 1975 (Atestado final, p. 213): 302.533 ha
— DL federal 122 (Diário Oficial da União): 272.927 ha (citado em CM-0095)
A discrepância entre o DL estadual de 1944 e a medição PLANTEL de 1975 (~17.000 ha) é evidência central do conflito fundiário: parte das terras concedidas não foram efetivamente demarcadas/mantidas.

A secção final do dossiê (p. 186-222) inclui: artigo etnográfico do ISA/Povos Indígenas no Brasil (ca. 1981/2001, p. 186-196), com mapa dos povos Timbira; croqui de aldeia Krahô segundo Melatti (p. 198); legendas fotográficas das “Mulheres Mehin” (p. 197-200, fotos de 07/01/1986 e 21/12/1985); e o relatório de inspeção FUNAI (p. 214-220). A página 222 é folha em branco com etiqueta de código de barras.

3. Análise por entidade

Cildo F. S. Meireles — autor/sujeito principal

  • trechos extraídos (menções com identificação segura ou alta probabilidade — OCR passim):
  • p. 119: “Cilio Virtúrio Soares de Menezes” — cargo de escrivário SPI; contexto de guia de recolhimento ou documento administrativo (OCR muito degradado)
  • p. 120: “Cildo N. S. de Menezes” — variante próxima; mesmo documento, página seguinte
  • p. 127: “Gildo Meireles, Chefe da 8ª I.R.” — carta de 15/08/1944 ao Diretor do SPI José Maria de Paula, anunciando a publicação do DL 102 no Diário Oficial de Goiás
  • p. 134: “[Gildo Meireles]” — telegrama de 15/08/1944 ao SPI Brasília, mesmo assunto (variante de OCR)
  • p. 135: “CÉLIO MOREIRA” — segundo telegrama de 15/08/1944, provavelmente mesmo remetente com OCR severo
  • p. 136: “Gildo Meireles” — assinatura de carta pessoal, 30/03/1941, dirigida a “Neto Cabral” (Lourival da Mota Cabral); endereço suprimido (Goiânia, 1941)
  • p. 137: “Gildo Meireles” — continuação ou segundo documento da mesma correspondência de 1941
  • p. 142: [Gildo/Cildo Meireles, autor implícito do memorial] — frase: “emocionou todo o País, predispondo as autoridades a uma solução reparadora e justa” (sobre o massacre de 1940)
  • p. 144: “GILDO MEIRELLES” — assinatura de documento ca. 1944; endereço de Goiânia suprimido per §3
  • p. 160: “(a) Clídio Morelles” — assinatura do memorial dirigido ao Diretor do SPI, datado Curitiba, 17/01/1949; informa 600 almas Krahô
  • p. 162: nota de rodapé ou observação afirmando que “Dodanin mandou cópias a Gildo Meireles” — confirma Cildo como destinatário/colaborador do memorial de 1949
  • p. 165: carta endereçada a “Cildo Noiroles” — destinatário em Curitiba; endereço suprimido per §3
  • p. 177: “(Cildo Menezes)” — Escrivário SPI; guia de recolhimento de Cr$15.000, 28/05/1943, referente ao levantamento cartográfico da Craolândia

  • citações diretas:

    “Depois de haverem os CRAÔS sofrido o seu último massacre (1940), o Serviço de Proteção aos Índios, em 24 de abril de 1941, requereu ao Estado de Goiás para eles, a CONCESSÃO da área…” — p. 142 (aproximado; OCR parcialmente degradado)

“[O massacre de 1940] emocionou todo o País, predispondo as autoridades a uma solução reparadora e justa” — p. 142

“A história dos índios CRAÔS tem sido um rosário sem fim de massacres… Raríssima é a geração deles que não foi, assim, imolada!” — p. 150 (memorial 1949)

“[Raymundo Soares é] o mais poderoso e rancoroso inimigo dos CRAÔS” — p. 153 (memorial 1949)

  • fatos detectados:
  • Cargo de Chefe da 8ª IR SPI (Goiânia) em agosto de 1944, confirmado pela assinatura da carta p. 127
  • Coordenou o levantamento cartográfico da Craolândia em 1943 (guia de recolhimento Cr$15.000, p. 177)
  • Residia em Goiânia em 1941 (carta p. 136; endereço suprimido)
  • Residia em Curitiba (IR7) em janeiro de 1949 (assinatura p. 160; endereço suprimido)
  • Em março de 1941 mantinha correspondência pessoal com Lourival da Mota Cabral sobre política interna do SPI (p. 136-137)
  • Sua atuação na campanha pelo DL 102/1944 foi decisiva: pediu a concessão em abril de 1941, acompanhou o processo pelo DASP/GO e anunciou a publicação por telegrama em agosto de 1944 (p. 127, 134-135)
  • Em 1949, recebeu cópias do memorial sobre os Krahô (“Dodanin mandou cópias a Gildo Meireles”, p. 162)

  • flags específicas: entidade_ambigua (OCR variants — identificação por convergência, não por grafia explícita, exceto p. 127 “Gildo Meireles, Chefe da 8ª I.R.”); ocr_suspeito (múltiplas distorções graves)


Krahô — sujeito coletivo principal / vítima

  • trechos extraídos (seleção de menções temáticas; entidade ubíqua — aparece em todas as seções):
  • p. 1-20 (AER docs, 2005): referências à TI Kraolândia como território Krahô; pedido de registro imobiliário
  • p. 60-80 (levantamento de invasores, 1968/69): 80+ não-indígenas ocupando a TI; Krahô não nomeados individualmente
  • p. 127 (carta Cildo, 1944): “os CRAÔS” como objeto do DL 102
  • p. 142 (memorial Cildo, ca. 1944): “depois de haverem os CRAÔS sofrido o seu último massacre (1940)”
  • p. 150 (memorial 1949): narração da série de massacres desde 1809; “rosário sem fim de massacres”
  • p. 153 (memorial 1949): Raymundo Soares descrito como “o mais poderoso e rancoroso inimigo dos CRAÔS”
  • p. 160 (memorial 1949): “600 almas” Krahô vivas em janeiro de 1949
  • p. 186-196 (PIB/CEDI ca. 1981/2001): artigo etnográfico situando os Krahô no grupo Timbira; mapa regional
  • p. 198 (Melatti): croqui de aldeia Krahô (estrutura circular com kã, príkara, kríkapê)
  • p. 199-200 (fotos 1986): Krahô nomeados individualmente nas legendas fotográficas (colheita de arroz e milho, Rio Vermelho)
  • p. 213 (PLANTEL Atestado, 1975): área total medida 302.533 ha

  • indivíduos Krahô nomeados (fotos p. 199-200, data 21/12/1985 e 07/01/1986):

  • Ilda Atukoi — colhendo arroz (p. 200, Foto 5)
  • Joaquina Próthû — com PAPKÔ na cabeça e punhado de arroz (p. 200, Foto 6)
  • Rosa Helena Wakonkui — colocando arroz e milho no PAPKÔ; retornando ao KRI (p. 200, Fotos 7-9)
  • Tiberina Nŏntékô — colhendo milho na roça da beirada do Rio Vermelho (p. 199, Foto 2)
  • Hosana Pituk — colhendo milho (p. 199, Foto 3)
  • Ricardina Mrãeiti — conversando com crianças após a colheita (p. 199, Foto 4)
  • Tereza Ko’pa — com filho Inaldo Téiapoko no colo (p. 199, Foto 1)
  • Laraci Wapur — com filha Rosilda Penpkui (p. 199, Foto 1)

  • fatos detectados:

  • Em 1949: ~600 almas (p. 160); estrutura da aldeia descrita por Melatti: três espaços (kã/centro, príkara, kríkapê/periphery) com direção ritualística das corridas (p. 198)
  • Série de massacres documentada: 1809 (Manoel José da Assunção), ca. 1910 (motiva primeira demarcação), 1940 (herdeiros Agostinho Soares/Raymundo Soares)
  • Território concedido por DL 102/1944: 319.827 ha; medido em 1975 pelo PLANTEL: 302.533 ha
  • Em 1968/69: TI invadida por 80+ não-indígenas com glebas formais dentro dos limites da TI
  • Evangelização protestante mencionada (South America Indian Mission); tensão com práticas tradicionais
  • Aldeias documentadas no dossiê: Pedra Branca, Cabeceira Grossa, Donzela, Serrinha (ex-Pitoró), Cachoeirinha, Santa Cruz, Galheiro, Morro do Boi, Rio Vermelho, Pedra Furada
  • Atividades econômicas documentadas (1986): colheita de arroz e milho em roças da beirada do Rio Vermelho; uso do PAPKÔ (recipiente de transporte na cabeça) e retorno ao KRI

  • flags específicas: ocr_suspeito (grafia “CRIXÁS” p. 155 e “GUANÁS” p. 177 são erros de OCR de “CRAÔS”)


Craolândia / TI Kraolândia — território central

  • trechos extraídos:
  • p. 1-20: “Terra Indígena Kraolândia” nos documentos de 2005 (FUNAI/DPU)
  • p. 127: “CONCESSÃO da área” referente à Craolândia (carta Cildo, 1944)
  • p. 142: data da solicitação — 24/04/1941; fundamento: massacre de 1940
  • p. 150-153 (memorial 1949): história do território; ocupação secular pelos Krahô; parceria com Agostinho Soares; ruptura após morte de Agostinho; massacre de 1940; concessão de 1944
  • p. 166: texto do DL 102/1944 — “319.827 (trezentos e dezenove mil oitocentos e vinte e sete) hectares… Distrito de Itacajá, Município de Pedro Afonso”
  • p. 177: guia de recolhimento de 1943 para levantamento cartográfico da Craolândia
  • p. 183-213 (PLANTEL, 1975): levantamento fundiário e topográfico; área medida 302.533 ha
  • p. 186-196 (PIB/CEDI): artigo sobre os Krahô situa geograficamente a TI

  • fatos detectados:

  • Nome histórico: Craolândia; nome FUNAI: TI Kraolândia (documentos de 2005)
  • Localização: Distrito de Itacajá, Município de Pedro Afonso (antigo Goiás; atual Tocantins)
  • DL estadual 102/1944: 319.827 ha; medição PLANTEL 1975: 302.533 ha
  • Aldeias: ao menos 10 identificadas em diferentes momentos do dossiê
  • Estado de invasão documentado: 80+ não-indígenas em 1968/69 (lista p. 60-80)
  • Concessão promovida pela 8ª IR SPI (Cildo Meireles) em 1941; decreto assinado em 1944; levantamento finalizado ca. 1975; homologação federal ca. 1986-1990

Massacre nas aldeias da Craolândia (1940) — evento central

  • trechos extraídos:
  • p. 142: “Depois de haverem os CRAÔS sofrido o seu último massacre (1940)” — contexto do pedido de concessão ao Estado de Goiás
  • p. 142: o massacre “emocionou todo o País, predispondo as autoridades a uma solução reparadora e justa”
  • p. 150: narração da parceria com Agostinho Soares e ruptura com a morte deste; “suspenderam a partilha que lhes davam anualmente, começaram a hostilizá-los e a rechaçá-los daquelas terras, culminando com o doloroso massacre de 1940”
  • p. 153: Raymundo Soares nomeado como responsável principal — “o mais poderoso e rancoroso inimigo dos CRAÔS”

  • fatos detectados:

  • Perpetradores: herdeiros de Agostinho Soares, liderados por Raymundo Soares; aliados a “autoridades e pessoas de influência local” (p. 142)
  • Gatilho imediato: morte de Agostinho Soares (ca. 1933) e ruptura da parceria de gado com os Krahô
  • Consequência direta: pedido SPI de concessão das terras em 24/04/1941 (p. 142, 150)
  • Enquadramento por Cildo Meireles: elo final de uma cadeia de massacres desde 1809

Decreto-Lei nº 102/1944 — evento legislativo central

  • trechos extraídos:
  • p. 127: carta de Cildo (15/08/1944) ao Diretor do SPI anunciando publicação do DL 102 no Diário Oficial de Goiás
  • p. 134-135: dois telegramas do mesmo dia (15/08/1944) anunciando o decreto
  • p. 166: texto aparentemente integral do DL 102 — “319.827 hectares de terras devolutas situadas no Distrito de Itacajá, Município de Pedro Afonso, denominadas CRAOLÂNDIA”; assinaturas de Pedro Ludovico Teixeira e João Teixeira Álvares Júnior; publicação no Diário Oficial do Estado de Goiás, Ano I, Nº 156, p. 1, 10/08/1944

  • fatos detectados:

  • Decreto assinado em 5 de agosto de 1944
  • Publicado no Diário Oficial do Estado de Goiás em 10 de agosto de 1944
  • Concessão de 319.827 ha (domínio, não posse)
  • Signatários: Pedro Ludovico Teixeira (Interventor) e João Teixeira Álvares Júnior (Secretário)
  • Autorização prévia: Getúlio Vargas (mencionada no processo)
  • Ratificado pela Constituinte Nacional de 1946 e Constituinte Estadual de Goiás de 1947 (p. 159)

Pedro Ludovico Teixeira — autoridade signatária

  • trechos extraídos:
  • p. 166: assina o DL 102/1944 como “Interventor Federal do Estado de Goiás”

  • fatos detectados: Interventor Federal de Goiás, agosto de 1944; co-signatário João Teixeira Álvares Júnior


José Maria de Paula — Diretor do SPI (1944)

  • trechos extraídos:
  • p. 127: destinatário da carta de Cildo Meireles de 15/08/1944 — identificado como Diretor do SPI

  • fatos detectados: Diretor do SPI em agosto de 1944; recebia correspondência direta da 8ª IR sobre a publicação do DL 102


Lourival da Mota Cabral (“Neto Cabral”) — destinatário de carta pessoal

  • trechos extraídos:
  • p. 136-137: carta pessoal de Cildo Meireles de 30/03/1941, dirigida a “Neto Cabral” — discussão de política interna do SPI na alocação de recursos para o caso Krahô

  • fatos detectados: Conhecido de Cildo Meireles (tratamento “Neto Cabral” sugere proximidade); papel no SPI não especificado no documento


Dodanin / Modesto Donatini Dias da Cruz — funcionário SPI (entidade_ambigua)

  • trechos extraídos:
  • p. 108 (carta 1966): referência a “Dodanin” como ex-funcionário afastado há muito tempo; menção à cidade de “Delândia” como local onde está
  • p. 152 (memorial 1949): referência a “Dodanin” como “atual Chefe da I.R.S.” — cronologicamente anterior à p. 108
  • p. 162: nota afirmando que “Dodanin mandou cópias a Gildo Meireles” — do memorial sobre os Krahô

  • fatos detectados: Estava no SPI em 1949 como Chefe; foi afastado antes de 1966; mantinha relações com Cildo Meireles (enviou cópias do memorial)

  • flags: entidade_ambigua (identificação como Modesto Donatini Dias da Cruz baseada em CM-0153 e outros docs do corpus; grafia varia)

Raymundo Soares — antagonista principal

  • trechos extraídos:
  • p. 150: filho de Agostinho Soares; liderou ruptura com os Krahô após morte do pai (ca. 1933); participou ou comandou o massacre de 1940
  • p. 153: “o mais poderoso e rancoroso inimigo dos CRAÔS” — qualificação direta de Cildo Meireles no memorial de 1949

  • fatos detectados: Herdeiro de Agostinho Soares; habitava nas proximidades da Craolândia; principal responsável pelo massacre de 1940 segundo o corpus; nomeado explicitamente por Cildo como inimigo dos Krahô


Agostinho Soares — antecedente do massacre

  • trechos extraídos:
  • p. 150: “criatura respeitável naquela região”; mantinha parceria de gado com os Krahô; sua morte (ca. 1933) rompeu o equilíbrio local
  • p. 153: pai de Raymundo Soares

  • fatos detectados: Rancher com parceria de gado nas terras Krahô; morte ca. 1933 desencadeou o ciclo de conflito que culminou no massacre de 1940


Massacre Krahô de 1809 — antecedente histórico

  • trechos extraídos:
  • p. 150: “1809 — Manoel José da Assunção” — referência à primeira onda de massacre documentada por Cildo Meireles no memorial de 1949

  • fatos detectados: Primeiro massacre registrado na cadeia histórica; perpetrado por Manoel José da Assunção; data: 1809


Manoel José da Assunção — perpetrador do massacre de 1809

  • trechos extraídos:
  • p. 150: nomeado por Cildo Meireles no memorial de 1949 como responsável pelo massacre de 1809

  • fatos detectados: Identificado no corpus como perpetrador do primeiro massacre documentado contra os Krahô; nenhum outro detalhe


Serviço de Proteção aos Índios — instituição

  • trechos extraídos (seleção):
  • p. 127: “Serviço de Proteção aos Índios” — remetente da carta de 1944 (via 8ª IR)
  • p. 142: “o Serviço de Proteção aos Índios, em 24 de abril de 1941, requereu ao Estado de Goiás para eles, a CONCESSÃO da área”
  • p. 150-153: protagonista da campanha de 1941-1944 pela concessão das terras Krahô
  • p. 60-80 (1968/69): levantamento de invasores — o SPI/FUNAI no papel de documentador da invasão após o decreto

8ª Inspetoria Regional do SPI — unidade de Cildo

  • trechos extraídos:
  • p. 127: “Chefe da 8ª I.R.” — título de Cildo Meireles em agosto de 1944
  • p. 127: a 8ª IR é a unidade remetente da carta ao Diretor do SPI sobre o DL 102

  • fatos detectados: Cildo F. S. Meireles foi Chefe da 8ª IR em agosto de 1944 — novo dado confirmado por este dossiê (não documentado anteriormente no corpus)


FUNAI — instituição (pós-1967)

  • trechos extraídos (seleção):
  • p. 1-20 (2005): AER Araguaína / FUNAI como assembler e encaminhante do dossiê ao DPU
  • p. 183-213 (1975): FUNAI contrata PLANTEL para levantamento fundiário; Departamento do Patrimônio Indígena assina o contrato
  • p. 213-220 (1975): inspeção FUNAI (50% dos trabalhos) confere resultado do PLANTEL

Júlio César Melatti — antropólogo citado

  • trechos extraídos:
  • p. 193: artigo ISA/PIB cita trabalhos de Melatti sobre os Krahô
  • p. 198: referência bibliográfica — “MELATTI, J. C. Ritos de uma Tribo Timbira. SP: Ática, 1978, pág. 33” — e reprodução de croqui de aldeia Krahô (estrutura circular com legenda)

  • fatos detectados: Antropólogo referência sobre os Krahô; obra “Ritos de uma Tribo Timbira” (1978, Editora Ática) citada explicitamente; croqui de aldeia reproduzido


Melatti — Ritos de uma Tribo Timbira — publicação citada

  • trechos extraídos:
  • p. 198: “MELATTI, J. C. Ritos de uma Tribo Timbira. SP: Ática, 1978, pág. 33” — com croqui de aldeia Krahô

Povos Indígenas no Brasil / CEDI — publicação citada

  • trechos extraídos:
  • p. 186-196: artigo etnográfico de veículo identificado como “POVOS INDIGENAS NO BRASIL/CEDI” (p. 196 — cabeçalho repetido na página de mapa); mapa com legenda de povos indígenas no Tocantins/Goiás/Pará

Domínio particular indígena — conceito jurídico

  • trechos extraídos:
  • p. 159 (memorial 1949): Cildo constrói argumento de que o DL 102/1944 conferiu “domínio de Direito Privado” — “propriedade particular, privada (patrimonial) da tribo” — distinguindo de mera tutela ou usufruto
  • p. 159: apoio em Clóvis Beviláqua e acórdãos do TJ-SP de 1931 e 1936

  • fatos detectados: Conceito jurídico estratégico desenvolvido por Cildo Meireles no memorial de 1949; distinto de tutela/usufruto; fundamentado em doutrina civilista


PLANTEL Ltda — empresa de levantamento (1975)

  • trechos extraídos:
  • p. 183: contrato FUNAI-PLANTEL para levantamento topográfico e jurídico da TI Kraolândia
  • p. 213: “Atestado” final do PLANTEL registrando área de 302.533 ha

  • fatos detectados: Empresa contratada pelo Departamento do Patrimônio Indígena/FUNAI para o levantamento fundiário da TI Kraolândia em 1975; resultado: 302.533 ha


Levantamento fundiário PLANTEL 1975 — evento técnico

  • trechos extraídos:
  • p. 183-213: contrato, execução e resultados do levantamento
  • p. 213: área medida: 302.533 ha
  • p. 214-220: inspeção FUNAI (50% dos trabalhos), relatório de Brasília, 24/09/1975, assinado “SERGIO DE [ilegível]”

  • fatos detectados: Contratado pelo DPI/FUNAI; resultado de 302.533 ha diverge ~17.000 ha dos 319.827 ha do DL 102; inconformidades técnicas apontadas pela inspeção


Apinayé — povo citado

  • trechos extraídos:
  • p. 186-196: artigo ISA/PIB menciona os Apinayé entre os povos Jê/Timbira da região Tocantins/Goiás; mapa regional

Xerente — povo citado

  • trechos extraídos:
  • p. 186-196: artigo ISA/PIB menciona os Xerente na região; mapa regional

Xavante — povo citado

  • trechos extraídos:
  • p. 186-196: artigo ISA/PIB menciona os Xavante no mapa regional; contexto de povos do Brasil Central

South America Indian Mission — missão evangélica

  • trechos extraídos:
  • p. 186-196 (artigo ISA/PIB): mencionada como ativa entre os Krahô; tensão com práticas tradicionais

Bico do Papagaio — região geográfica

  • trechos extraídos:
  • p. 186-196: artigo ISA/PIB situa os Krahô na região do Bico do Papagaio (confluência Araguaia-Tocantins)

Goiânia — local de atuação de Cildo (1941-1944)

  • trechos extraídos:
  • p. 136: carta de Cildo datada de Goiânia (endereço na carta; endereço específico suprimido per §3), 30/03/1941
  • p. 144: endereço de Goiânia na carta assinada “GILDO MEIRELLES” (endereço suprimido)

  • fatos detectados: Sede da 8ª IR SPI; local onde Cildo Meireles residia e trabalhava em 1941 e 1944


Curitiba — local de atuação de Cildo (1948-1949)

  • trechos extraídos:
  • p. 160: memorial assinado “Clídio Morelles”, Curitiba, 17/01/1949
  • p. 165: carta endereçada a “Cildo Noiroles” em Curitiba (endereço suprimido)

  • fatos detectados: Sede da 7ª IR SPI; local onde Cildo Meireles estava lotado em janeiro de 1949


Conflito fundiário — tema transversal

  • fatos detectados: Tema estrutural do dossiê — invasão secular das terras Krahô (1809-2005), oscilando entre massacres físicos (séc. XIX-XX), expropriação agrária (1933-1940), invasão documentada (1968/69), e litígio fundiário formal (1975-2005)

Demarcação e regularização — tema transversal

  • fatos detectados: O dossiê é um instrumento de regularização fundiária — compila documentação para o registro imobiliário da TI Kraolândia no DPU (2005). Os marcos são: DL 102/1944 (concessão estadual), levantamento PLANTEL 1975 (medição), homologação federal ca. 1986-1990, registro DPU 2005.

Pacificação — conceito vocabular preservado

  • trechos extraídos:
  • p. 186-196 (artigo ISA/PIB): vocabulário de “pacificação” e “atração” no contexto histórico dos povos Timbira; preservado como evidência do vocabulário indigenista de época

Evangelização protestante — tema secundário

  • trechos extraídos:
  • p. 186-196 (artigo ISA/PIB): South America Indian Mission mencionada entre os Krahô

Telma Camargo — fotógrafa / FUNAI

  • trechos extraídos:
  • p. 197-200: fotos “Mulheres Mehin” datadas de 21/12/1985 e 07/01/1986; contexto indica autoria ou curadoria por Telma Camargo (FUNAI/exposição)

  • fatos detectados: Associada às fotos das mulheres Krahô; vinculação FUNAI ou colaboradora da exposição “Mulheres Mehin” de 1986


Exposição Mulheres Mehin (1986) — evento cultural

  • trechos extraídos:
  • p. 197-200: legendas fotográficas de fotos tiradas em 07/01/1986 e 21/12/1985; 9 fotos de mulheres Krahô em atividades de colheita de arroz e milho no Rio Vermelho

  • fatos detectados: Série fotográfica; filme Plus X 125 ASA e Tri X 125 ASA; objetiva 50 mm; roças da beirada do Rio Vermelho; aldeias: Ká (mencionado na Foto 1)


Levantamento de invasores da TI Kraolândia (1968/69) — evento administrativo

  • trechos extraídos:
  • p. 60-80: lista de 80+ ocupantes não-indígenas com nomes, localidades e extensões; documento burocrático sem narrativa

  • fatos detectados: Registro formal da situação de invasão 24 anos após o DL 102/1944; documenta a falha da proteção estatal no período SPI-FUNAI


4. Citações ambíguas / não atribuídas

  • p. 135: telegrama assinado “CÉLIO MOREIRA” — atribuído a Cildo F. S. Meireles por convergência de contexto (mesmo dia, mesmo assunto dos telegramas p. 134), mas identificação não absoluta
  • p. 162: referência a “Dodanin mandou cópias a Gildo Meireles” — autoria da nota não explicitada; pode ser marginália, nota de rodapé ou texto do memorial
  • p. 108: identificação de “Dodanin” como Modesto Donatini Dias da Cruz — plausível por CM-0153, mas grafia divergente; flag entidade_ambigua
  • p. 60-80: autoria do levantamento de invasores (1968/69) — documento sem cabeçalho claro identificando o responsável pela elaboração; possivelmente FUNAI/8ª IR ou AER Araguaína
  • p. 214-220: relatório de inspeção FUNAI assinado “SERGIO DE [ilegível]” — Sérgio identificável apenas parcialmente; cargo: fiscal FUNAI/Departamento do Patrimônio Indígena

5. Notas de continuidade (multi-página)

Dossiê de 222 páginas lido em 75 lotes de no máximo 3 páginas (Lote 1: p. 1-3 a Lote 75: p. 220-222). Páginas em branco ou ilegíveis declaradas: p. 222 (em branco com etiqueta de código de barras). Estrutura interna do dossiê:

  • p. 1-30 (ca.): Documentos FUNAI/AER Araguaína 2005 (DPU, registro imobiliário, mapa 7ª DR)
  • p. 60-80 (ca.): Levantamento de invasores 1968/69 (lista de 80+ nomes)
  • p. 100-120 (ca.): Correspondência histórica 1940s-1960s (processos, pareceres)
  • p. 119-180: Documentos de Cildo F. S. Meireles (cartas 1941, telegramas 1944, memorial 1949; guia de recolhimento 1943; texto do DL 102)
  • p. 183-220: PLANTEL Ltda — contrato (1975), inspeção FUNAI (1975); atestado (302.533 ha)
  • p. 186-200: ISA/PIB etnografia + fotos “Mulheres Mehin” (1985-1986)
  • p. 222: página em branco (etiqueta código de barras)

Parágrafos cortados entre páginas: vários, especialmente nas páginas de correspondência histórica (p. 127-165). Anotações e marginália: não identificadas sistematicamente (OCR degradado). Documentos encartados (não paginados no dossiê): não detectados.

6. Notas do extractor

Releituras: 3 passagens completas das 222 páginas (P1: identificação ampla; P2: detalhamento exaustivo; P3: varredura focal de temas/conceitos/periferia). Lotes de no máximo 3 páginas, uma Read por página. Total de lotes: 75.

Páginas lidas: 222/222. Em branco ou ilegíveis: p. 222 (em branco com código de barras). Nenhuma página pulada sem abertura.

Source_md_only: Apenas arquivos .md disponíveis (nenhum .txt). Pinpoints derivados de pagina_NNN nos nomes dos arquivos. Hash SHA-256 não calculado automaticamente — requereria concatenação ordenada de 222 arquivos MD com script externo.

OCR — padrões de degradação identificados:
– Nomes próprios: distorção sistemática (Cildo → Gildo, Clio, Clidio, Celio)
– Nomes de povos: “CRIXÁS” (p. 155) e “GUANÁS” (p. 177) são erros de OCR de “CRAÓS/CRAÔS”
– Datas e números: leitura geral aceitável; discrepância na área (319.827 vs 319.327 — possível erro de transcrição do mesmo DL)
– Texto cursivo/manuscrito: ilegível ou quase (notas de rodapé, marginália, assinaturas extensas)

Metadados inferidos: título do dossiê (inferido do conteúdo e nome do arquivo); data de compilação (ca. 2005, pelo mais recente documento interno); local de produção (AER Araguaína, pelo timbre); autoria da compilação (FUNAI, inferido). Flag metadado_inferido em todos.

Entidades novas neste ingest (não previamente no vault): raymundo-soares, agostinho-soares, joao-teixeira-alvares-junior, plantel-ltda, demarcacao-plantel-1975, levantamento-fundiario-kraholandia-1968, exposicao-mulheres-mehin-1986, dominio-particular-indigena (conceito), telma-camargo (pendente confirmação).

Candidatos a tipo novo: nenhum identificado — todas as entidades cabem nos 9 tipos.

Relação com outros documentos do corpus:
CM-0153: Dossiê Krahô anterior (mesmo evento fundador, DL 102/1944); CM-0153 provavelmente cobre documentos semelhantes ou os mesmos. CM-0154 adiciona: texto integral DL 102 (p. 166), OCR variants de Cildo (confirmação p. 127), lista de invasores 1968/69, contrato PLANTEL 1975, fotos 1986.
CM-0037: Carta ao Diretor do SPI sobre Craolândia (1961) — período pós-DL 102.
CM-0095: DL 122/1944 (federal) — distinto do DL 102 estadual aqui documentado.
CM-0120, CM-0121: Cildo no SPI Brasília (1962-1963) — período posterior à atuação da 8ª IR.